Estado de graça: não ter, ter e perder

O estado de graça é muito mais do que o benefício da dúvida que se costuma dar a quem acabou de ser eleito com o voto dos outros. Implica a capacidade de convencer muitos dos que votaram noutro político que, afinal, quem está no poder é a escolha certa. É esse estado de graça que permite a um político, pouco tempo depois de ser eleito, ter níveis de popularidade muito superiores à percentagem de votos conseguida nas urnas. Difere no brilho, porque é mais alargado na base de apoio para uns políticos do que para outros, e é também muito diferente no tempo de duração. Implica conquistar a opinião pública mas também a opinião publicada. O estado de graça precisa de bons níveis de popularidade mas, dependendo de quem é o político, não é certo qual acaba primeiro. Há um tempo em que as redações privilegiam as notícias positivas em detrimento das negativas. É o tempo em que a maioria dos comentadores cantam hossanas aos políticos em estado de graça.

A semana que passou foi muito rica em acontecimentos a fazer pensar neste estado de graça que, afinal, não é uma benesse com que possam contar todos os políticos eleitos, nem é magia que apareça do nada e no nada se evapore. Lá por fora, Donald Trump é um daqueles casos raros em que, tendo sido eleito presidente, parece não ter tido o voto de ninguém. Não teve estado de graça e até dentro do próprio partido é mal-amado. Cá dentro, a história é bem diferente, os dois políticos mais populares estiveram em destaque, postos em causa de forma mais ou menos generalizada. Nunca tinha assistido ao ponto de inversão ter acontecido simultaneamente para o Presidente da República e para o primeiro-ministro. O incontestado Marcelo Rebelo de Sousa e o infalível António Costa, afinal, têm fragilidades evidentes e passaram a ser, naturalmente, contestados. Não falo das claques adversárias, falo das bases de apoio que se sentiram incomodadas com a prestação destes dois políticos. Marcelo por levar o governo ao colo, Costa por querer saltar do colo da esquerda para o colo da direita, como se fosse um direito natural.

1. A contestação ao presidente dos Estados Unidos no exterior era esperada, mas na política interna era suposto que tivesse, pelo menos, o benefício da dúvida, aquele patamar abaixo do estado de graça. Esse benefício teria sido possível se Donald Trump tivesse cumprido as expectativas que apontavam para um recuo, no poder, em relação a algumas das ideias que tinha apresentado em campanha. A coerência do presidente norte-americano revela que o perigo é real, já ninguém lhe dá o benefício da dúvida, não teve um minuto de estado de graça e as divergências com a opinião publicada agravam-se. A sociedade civil está igualmente mobilizada, a justiça revela a independência necessária e a oposição democrata não parece ceder. Trump vai a direito e dispensa o apoio de quem não votou nele.

2. O estado de graça, não sendo possível para todos os eleitos, tem pelo menos a grande vantagem de não permitir a quem o consegue que viva nele o tempo todo. Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa não deixaram de ser os mais populares, só que a partir de agora, mesmo para as suas claques, criticá-los já não é uma heresia. Para muitos atores políticos e comentadores houve uma espécie de catarse. Normalmente, é este o ponto onde o estado de graça se começa a esvaziar. Marcelo, mais popular e com menos influência na vida das pessoas, irá naturalmente resistir melhor e durante mais tempo do que Costa.

A gestão do acordo de concertação social revelou uma fragilidade em António Costa que todos tínhamos esquecido. O primeiro-ministro, por melhor que seja a negociar, está refém de vontades alheias. Pressionado por Marcelo, insistiu na redução da TSU como compensação para o aumento do salário mínimo, sabendo que não tinha o apoio dos partidos amigos e nem se deu ao trabalho de pedir ajuda ao PSD. Passos aproveitou e mostrou que, afinal, não é assim tão difícil derrotar Costa. Esta fragilidade que o primeiro-ministro vai agora ter de voltar a exibir, sempre que precisar de formar maiorias no Parlamento, põe em causa a certeza que o líder socialista um dia exibiu no Parlamento. "É geringonça, mas funciona", garantiu Costa. Só que, desde a semana passada, instalou-se a dúvida sobre o funcionamento desta coligação. Costa fez uma má análise política e tropeçou no que julgou ser uma fragilidade do PSD.

Este foi também o azar de Marcelo. Um ano depois de ser eleito, deu uma entrevista à SIC em que ficou evidente a sua opção, nesta conjuntura, pelo apoio total ao governo e a António Costa. Muitos dos eleitores que lhe deram a vitória sentiram-se traídos, comentadores da sua área política consideraram exagerada a colagem e até dos jornalistas se notaram críticas, em forma de perguntas: porque intervém tantas vezes? Porque dá tanto apoio ao governo? Marcelo sabe agora que não lhe basta passear a sua popularidade. As fragilidades do governo podem também ser as suas. Saberá o Presidente da República cumprir a sua função de "apoiar o governo em funções" sem ser arrastado para o fim de um estado de graça? A semana passada não correu bem.

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