De besta a bestial

O espírito de resiliência é uma qualidade que nos faz passar pelos maus tempos à espera dos bons sem desesperar. E é uma qualidade que o atual ministro das Finanças, um académico pouco habituado aos holofotes e às pressões da política, revelou ter.

Desde que assumiu funções no governo de António Costa, Mário Centeno ouviu, leu e sentiu as críticas ao modelo que tinha para manter o défice controlado e fazer crescer a economia. A reposição de rendimentos e o crescimento da procura interna fariam o milagre, em que quase ninguém acreditava. Nem cá nem lá fora e até andamos em suspenso à espera do veredicto das agências de rating, valha-nos a canadiana DBRS para nos manter à tona.

Bem, agora é mais o boom de turismo a provocar o milagre do crescimento, mas o que nos traz aqui nada disso interessa. O titular da pasta das Finanças capitaliza todos os ganhos.

Em meados do ano passado, a Alemanha, através do seu comissário Günther Oettinger, defendia sanções a Portugal (e a Espanha) por desrespeito pelas regras orçamentais. Foi o presidente da Comissão Europeia, Jean Claude Juncker, a pôr panos quentes no frenesim germânico. Em fevereiro deste ano, Portu-gal estava entre os três países (Chipre e Itália) com potenciais desequilíbrios e havia ameaças de sanção.

Chegados aqui, nem sanções e estamos prestes a sair do procedimento por défice excessivo e o otimismo impera na República - mais de 3% de crescimento económico para 2017 é a expectativa do Presidente da República, alimentada ontem pelo ministro das Finanças em entrevista à Reuters.

Marcelo Rebelo de Sousa até já se deve ter esquecido que em fevereiro esteve zangado com Centeno por causa da polémica dos SMS - as mensagens entre o ministro e o então presidente da CGD por causa da entrega das declarações de património ao TC - e só aceitou que o ministro das Finanças permanecesse no cargo por "estrito interesse nacional". E tudo isto depois de o próprio ter posto o lugar à disposição do primeiro-ministro. Há ainda a funcionar (será que funciona?) uma comissão de inquérito à CGD, número dois, só para tentar demonstrar como o ministro se enredou nesta história.

Mas a resiliência valeu. A má onda está a passar. O ministro das Finanças alemão comparou Centeno a Cristiano Ronaldo do Ecofin. Marcelo diz que Wolfgang Schäuble está a pensar bem. Créditos para uma candidatura à presidência do Eurogrupo, quando era uma carta quase fora do baralho. Passa-se de besta a bestial num instante.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG