Comentários 'online':leitores andam desavindos e a intolerância aumenta

A palavra certa é chuva. Uma chuva de queixas tem caído na minha caixa de correio eletrónico a denunciar o que os reclamantes consideram comportamento abusivo por parte de alguns intervenientes no espaço de comentário às notícias na edição online. A querela presente gravita em torno do noticiário sobre ciência. Não há notícia que saia na secção de Ciência da edição online que não dê origem a uma guerra de extermínio de opiniões.

Por aquilo que me fui apercebendo, pelas queixas recebidas, haverá essencialmente, dois intervenientes, identificados pelos pseudónimos que utilizam, os quais, assim que uma notícia com fundo científico é publicada, logo se atiram a ela e a tudo o que possa parecer um saber de ciência feito. Os alvos são os cientistas que anunciam as suas descobertas e as munições são transcrições bíblicas que sugerem que tais descobertas são obra do mafarrico. Mas também levam, por tabela, os leitores que, entusiasmados com o tema e aparentemente possuidores de alguma bagagem científica, se dispõem a complementar a informação publicada com outra que a pode enriquecer. São igualmente execrados pelos cruzados contra a ciência.

Alguns leitores - os queixosos - não conseguem aguentar em silêncio aquela arenga anticiência, que nem sequer muda muito de versículos e capítulos citados do Antigo Testamento. Uns dão troco aos pregadores, verberam as suas tiradas, tentam expor razões. Outros, mais impacientes, recorrem ao procedimento de decisão coletiva que o DN colocou à disposição há alguns meses: denunciam o comentário e, ao fim de algumas iniciativas idênticas feitas por pessoas diferentes - ou em computadores diferentes -, o texto é eliminado.

Está armado o baile, ou, pior ainda, começa a guerra. Os apóstolos contra a ciência retaliam, apagando os comentários favoráveis ao progresso científico - e repetem, vezes sem conta, os seus textos "bíblicos" e os seus anátemas e maldições.

Numa só notícia, por exemplo, sobre uma descoberta feita através do telescópio Hubble (imagine-se!), de cento e cinquenta e cinco comentários - dezenas e dezenas dos quais eram repetição corta e cola de anteriores, eliminados - ficou um sobrevivente, provavelmente por exaustão do adversário. Os comentadores mataram-se uns aos outros, só faltou salgarem o terreno para que não crescesse mais nada.

E a música a tocar, o mesmo é dizer que a carnificina opinativa não para. Foi neste ponto da contenda que procurei ouvir Pedro Tadeu, subdiretor do DN responsável pela edição online e que tem dado galhardamente o peito às balas neste debate em que, desde o início das minhas funções, há um ano, anseio por uma solução consensual e definitiva e que não vejo jeitos de aparecer.

Respondeu-me Pedro Tadeu: "Desde há alguns meses que retificámos o número de denúncias que aciona o apagamento automático de comentários. Passámos de dez para apenas seis, pois os resultados da experiência que decorria desde setembro levaram-nos, como previamente tínhamos avisado ser provável vir a acontecer, a afinar o valor inicial.

"Alguns comentários com menos de seis denúncias foram apagados por arrastamento, pois eram respostas diretas a comentários que tiveram seis denúncias e, por pertencerem aos ramos dessas 'árvores de diálogo', foram eliminados no processo de apagamento do comentário que originou essa conversa. Não é possível republicar isoladamente esses comentários."

"Analisada a situação, constata-se que as acusações que são feitas aos comentadores [...] e [...] poderiam também ser feitas a muitos dos que os criticam. Ambos os lados desta contenda apagaram sistematicamente os comentários do outro lado, e trocaram ofensas e insultos."

Pedro Tadeu recordou as normas que foram postas em prática pela Direção do DN, em que esta se recusa a fazer censura ideológica aos comentários, podendo até republicar as opiniões que tenham sido eliminadas a pedido de um certo número de leitores. Diferente destino terão os comentários que contenham natureza criminal, tendo já sido feito uma denúncia nas instâncias competentes, aguardando-se o seu seguimento.

Prossegue Pedro Tadeu: "Tal como se recusa a fazer censura prévia aos leitores, também a Direção do DN assume que tem dificuldades em definir critérios consistentes e razoáveis para aplicar uma política defensável de republicação de comentários apagados pelos leitores.

"No caso em apreço, haverá comentários cuja denúncia parecerá claramente abusiva, mas a maioria não se enquadra nessa situação. Para além disso, no contexto da discussão em apreço - marcada por posições filosóficas, religiosas ou ideológicas aparentemente inconciliáveis e radicais - não é possível avaliar com rigor o peso do valor que se pode estar a ofender, para o grupo de leitores que promoveu o apagamento, com uma republicação: para nós pode esse texto ser aparentemente inócuo, para outros pode ferir qualquer íntima convicção ou sensibilidade que nos esteja a escapar. Por outro lado, tal prática coloca o DN numa posição de favorecimento de uns leitores contra outros, o que em situações como estas- em que a irrazoabilidade aparente aconselha mais uma atuação no sentido de serenar os ânimos do que propriamente a de provocar um reacendimento da polémica - afeta gravemente a imagem do jornal e é, quase de certeza, contraproducente."

A terminar, com uma pérfida descaridade, e admitindo, sibilino, que "talvez o Provedor faça melhor juízo sobre isto e recomende práticas viáveis, consistentes e coerentes que possamos considerar vir a adotar", Pedro Tadeu enviou-me os cento e cinquenta e cinco comentários eliminados sobre a notícia do Hubble. Quem me mandou ser prior em tal freguesia?

Compreendo e aplaudo o alicerce anticensório que sustenta a tese da Direção nesta matéria. Em termos de liberdade, antes sobre que falte, e se as pessoas têm direito à opinião, têm ipso facto, direito ao disparate. O remédio é a tolerância ou a indiferença: a palavras loucas, orelhas moucas. Por outro lado, compete também a todos ter alguma humildade nas suas próprias certezas. No noticiário dito científico, têm sido publicados inúmeros disparates, o que só vem a saber-se quando gente qualificada faz a denúncia. O que não quer dizer que, muito antes, pessoas sem qualificações académicas, não pusessem já em dúvida a veracidade da informação, com base nas suas convicções, palpites ou inclinações.

No caso presente, esta guerra de comentaristas radica-se na intolerância ou impaciência de parte a parte. Por mim, não tenho dificuldade em aceitar que os dois comentadores "bíblicos" pertencem a uma qualquer confissão fanatizada pela textualidade dos escritos que citam e se oponham a qualquer anúncio de descoberta de valor científico. Mas, como muito bem diz Oliver Wendell Holmes, médico e escritor norte-americano do século XIX, "a mente de um fanático é como a pupila do olho, que quanto mais luz incide sobre ela, mais se fecha". Nestas condições, é inútil argumentar - mas é ilegítimo silenciar: é deixar falar, até que se canse.

O que está a acontecer podia ser resumido na frase "por bem fazer, mal haver": o DN procurou não censurar as opiniões mas tentou envolver os próprios leitores no escrutínio das opiniões expressas. A ideia era que se o comentário fosse repugnante pela linguagem utilizada, constituísse crime ou seu incitamento, concitasse ódios e perseguições, os leitores poderiam manifestar a sua indignação, premindo o botão de denúncia. O resultado é que aquele botão passou a ser arma de combate e extermínio ideológico: os serviços do DN já se aperceberam de que há grupos de leitores que se associaram - espontânea ou organizadamente - para silenciar outros. E isso gerou a espiral retaliatória a que temos assistido.

Vamos ter de conviver com fanáticos que estão sempre na tocaia contra a ciência e qualquer saber que saia fora do "bom livro"? Vamos, se quisermos manter abertas as caixas de comentários. A alternativa seria fechá-las para todos os leitores, restringindo consideravelmente a participação no jornal.

No entanto, os fanáticos organizados podem utilizar o instrumento da denúncia para silenciar os seus adversários. Podem, e é aqui que o DN tem de criar uma forma de recurso da pessoa que se sinta prepotentemente silenciada. Neste caso, analisado o comentário expurgado, ele poderá ser reposto pelo DN, ficando desativado para ele o botão da denúncia. Não é uma solução fácil e não tem a eficácia do imediatismo - mas alguma coisa tem de ser tentada.

É talvez uma última oportunidade. A seguir, só a eliminação dos comentários - o que seria, em muitos casos, uma pena, e noutros muitos, uma ablução.

provedordoleitor@dn.pt

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