Comentários no 'online': diálogo para os leitores ou parada de monólogos?

Tradicionalmente, os leitores correspondiam-se com os jornais da sua preferência com cartas aos diretores e esforçavam-se por fazê-lo numa prosa cultivada e exigente, para se sentirem partícipes por mérito próprio de uma comunidade culturalmente elevada - e porque, se não, a missiva nunca conheceria a letra de forma, sendo despachada para a cesta secção...

Atualmente, esse diálogo é mais veloz, através da Internet, apondo os leitores, nas edições online, os comentários que entendem sobre o que leem ou o que pensam dos protagonistas das histórias ou dos seus autores. Mas podemos chamar a isto "diálogo" ou é apenas uma forma de intervenção, onde não existe "o outro", isto é, uma comunicação com emissor mas sem preocupação com o recetor?

Um jornal, porque é comunicação social, sabe que o seu recetor, o seu destinatário é indeterminado, não o conhece, mesmo quando define públicos-alvo. Mas socorre-se de uma longa experiência para tentar encaixar-se nos gostos e preferências dos potenciais leitores, porque para eles - e deles - vive. Não há uma linha que um jornalista escreva para seu prazer exclusivo, sem pensar em como vai reagir o leitor. Isto é, mesmo sem ver o destinatário, o jornalista escreve "em diálogo". Quem escreve uma carta ao diretor, escreve-a "em diálogo". Quem envia e-mails aos redatores das notícias ou aos colunistas, fá-lo "em diálogo". E quem apõe comentários às notícias ou artigos de opinião colocados online? A essência do que faz é "em diálogo" ou "em monólogo"? Comunica para ser ouvido ou para se ouvir? Mesmo quando entra em polémica com outro comentador, está a dialogar com ele ou estarão os dois a disparar monólogos, que não fariam se estivessem, olhos nos olhos, sentados à mesa de um café? E será possível reverter esses monólogos para o diálogo, que é a razão de ser de um jornal?

Eis uma questão para que não encontraremos resposta nem soluções num prazo breve, mas cujo debate deve ser aqui aberto e as opiniões confrontadas.

Uma leitora, Mónica Marques, "impressionada, se não mesmo chocada" com os comentários de leitores nas edições online, propõe uma solução radical: "Para evitar que o DN online seja acusado de censura [...] retirem definitivamente a opção de comentar as notícias nos vossos sites. 'Para grandes males, grandes remédios.'"

A leitora indigna-se com o facto de nesses comentários se utilizarem "palavras e expressões grosseiras, rudes, incluindo muitas de teor sexual ao mais baixo nível. Estamos aqui a falar não só da falta de respeito para com quem escreve a notícia, como para com quem faz parte integrante da notícia. Mas acima de tudo é uma falta de respeito por quem lê a notícia." Mónica Marques declara-se "apologista da liberdade de expressão" e defende que "sejamos sempre um pouco rebeldes", mas adverte: "Tenho valores, e o maior deles todos é o respeito."

Um outro leitor, Alexandre Bravo, levanta problemas diferentes, identificando, nomeadamente, a existência de um mecanismo de filtragem automática de palavras do vernáculo quotidiano, mas que deixa passar insultos do nível mais baixo e grosseiro. Estranha também que "muitos dos comentários que por vezes enviamos pura e simplesmente desaparecem misteriosamente, e por coincidência sempre que comportam algum comentário menos favorável aos atuais governantes ou partidos que suportam a atual maioria parlamentar".

(Sobre este último ponto, e sem necessidade de aprofundar a questão de fundo dos comentários, posso assumir um compromisso com os leitores: se se depararem com uma situação destas que considerem de censura política ou ideológica, não hesitem em enviar-me o comentário para apreciação. Desde já advirto que tenho imensa dificuldade em acreditar que as eliminações desse tipo de comentários sejam feitas pelo DN, mas pode ser uma pista para verificar se existem formas de intrusão externa no online.)

Alexandre Bravo levanta também a questão de aparecerem comentários assinados com o seu nome e localidade, o que considera uma usurpação de identidade, além de que tais comentários são "feitos por alguém a quem não agrada o teor do que escrevo e nos quais não me revejo nem subscrevo".

(Pedro Tadeu, subdiretor do DN responsável pela edição online, sugere que o leitor denuncie, pela mesma via a confusão - ou usurpação - de identidade no site do jornal.)

Um terceiro leitor, André Coelho, insurge-se contra a impossibilidade de apor online comentários aos meus textos. Mas posso tranquilizá-lo, porque tem um mecanismo de dupla segurança da sua liberdade, à escolha: ou me endereça o comentário e eu remetê-lo-ei para publicação na página online, com ou sem réplica, ou envia carta ao diretor, que a publicará, se assim o entender, sem ter de me pedir licença, naturalmente. Pode sempre comentar - em diálogo.

Apresentei estas questões levantadas pelos leitores à Direção do DN, que encarregou o subdiretor Pedro Tadeu, responsável pela edição online, de me prestar os esclarecimentos. Recebi um cuidado documento de 1700 palavras (10 500 caracteres) que, mesmo sozinho, nem a martelo caberia nesta página. Não gostaria, porém, que os leitores perdessem a possibilidade de fruir da argumentação notável apresentada por Pedro Tadeu - a quem presto homenagem pela profundidade das suas reflexões (e sinceras dúvidas) nesta matéria -, pelo que o texto será publicado, na íntegra, em anexo a este, na página online, que tem a vantagem de ser - elástica!

Não estou a afirmar, sequer implicitamente, que concordo com os argumentos do subdiretor do DN. Mas exatamente por tender a não concordar é que não me sentiria bem se de algum modo desse a imagem de lhe ter truncado o pensamento para obter ganhos de causa.

Pedro Tadeu afirma a "inexistência na Internet de um real compromisso com a verdade, seja das narrativas ali expostas, seja da identidade dos seus utilizadores. Na Internet presume-se uma literal e radical noção de liberdade individual, onde tudo, ou quase tudo, é válido em termos de comunicação."

Aqui a primeira discordância: a liberdade não é a ausência de limites. Isso é o livre-arbítrio, que pode ser abuso. A liberdade é o espaço de realização de uma vontade, delimitado pelo escrúpulo, que é o respeito pelo outro. A liberdade tem a ver com o diálogo, com o entendimento. O livre-arbítrio é vergôntea do monólogo, do psitacismo ou mesmo do diálogo de surdos.

A definição que Pedro Tadeu dá da Internet aplica-se mutatis mutandis às portas e paredes das casas de banho públicas, onde se escreve e desenha o que se quer sob total anonimato e impunidade. Fraco progresso seria esse de se ter inventado uma Internet que é apenas uma sentina com as paredes viradas para fora.

"O problema é clássico", diz Pedro Tadeu, "se não queres ser lobo, não lhe vistas a pele. Se o jornalismo quer utilizar um meio irreversivelmente libertário como o da Internet, não pode depois esperar obter algum controlo sobre ele. É, simplesmente, como a experiência demonstra, tarefa operacionalmente esgotante e frequentemente inglória, mas, mais importante do que isso, corporiza um ato inevitavelmente violador da natureza do meio comunicacional que está a ser utilizado."

Acho, em primeiro lugar, que Pedro Tadeu aplica a nobreza histórica do termo "libertário" àquilo que melhor se chamaria "libertino", pela descrição que faz. E, por todos os deuses, se me asseguram que a Internet é a torneira que, se eu abrir, me despeja para cima as cataratas do Niagara, vejo-me obrigado a pedir guarida à trincheira da leitora Mónica Marques: "Para grandes males..."

Garante Pedro Tadeu que "os leitores sentem-se donos e senhores das caixas de comentários, tendem a defender esse espaço com vigor e têm razão". Teriam razão se fossem, de facto, os "donos e senhores". Mas não são. Pois se são leitores, quem se queixa de quanto os incomodam essas caixas de comentários! Quem é que são "os leitores"? Os que leem o jornal e as caixas de comentários, ou aqueles que se apoderam das caixas de comentários e nelas escrevem. Concedo nesta formulação: "Os escrevedores das caixas de comentários sentem-se donos e senhores..." Mas escrevem para quem? Quem são os seus "leitores"? E entre estes leitores há ou não os que sentem que as "suas" caixas de comentários - porque lhes são destinadas, mesmo que nelas não escrevam - andam a ser usurpadas por alguns que são capazes de rosnar e ofender quem delas quiser fazer um espaço de saudável diálogo, uma verdadeira ágora dos cidadãos?

Muitos mais argumentos dá Pedro Tadeu e que não é possível aqui apreciar. Mas há um que não dá. Ou melhor, uma questão que não aborda: a responsabilidade. Pode falar-se em liberdade e omitir a responsabilidade? Tenho para mim que na responsabilidade é que está a chave da solução para as caixas de comentários. É preciso que quem escreve saiba que RESPONDE pelo que escreve (ora aqui está uma palavra gritada), não atira a pedra e esconde a mão. E a verdade é que, com mais ou menos rigor, todos os grandes jornais estrangeiros com edições online que percorri apertaram o controlo da identidade de quem quer comentar. Pode ser tecnicamente difícil, mas, se é possível, deve ser esse o caminho. E o efeito dinâmico é imediato: ao saberem que respondem pelo que escrevem, os participantes no debate moderam imediatamente a linguagem e as insinuações - e nem sequer é por medo de coisa alguma; é por respeito por si próprios, porque detestariam ser identificados com linguagem de carroceiro não estando numa bancada de estádio de futebol, onde é constitucionalmente permitido dar largas ao vernáculo.

Gostaria de ouvir mais opiniões sobre esta matéria, nomeadamente a de jornalistas e colunistas que têm sido alvo de comentários online e aqueles que optaram por bloquear essa possibilidade.

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