O ministro do pastel... de nada!

Álvaro Santos Pereira parece, cada vez mais, um deserdado de Pedro Passos Coelho. Incapaz de aproveitar o balão de oxigénio que a assinatura do Acordo de Concertação Social lhe proporcionou, vai perdendo peso e influência, espaço e tutelas, e continua a ser, apesar de com Silva Peneda ser protagonista da maior vitória política deste Governo, um alvo de todas as críticas, dentro e fora do Executivo.

Politicamente inábil e inexperiente, e, manifestamente, um desastre em matéria de comunicação, o titular da Economia e do Emprego - assim se chama o ministério - veio de Vancôver, no Canadá, onde estava emigrado há mais de dez anos, com a aura sebastiânica de salvador da economia portuguesa, ancorado no rótulo de superministro que haveria de cuidar também das obras públicas, dos transportes, da inovação, da energia e sabe-se lá mais do quê. Álvaro, como a certa altura - quem sabe num assomo de ingenuidade - disse preferir que o tratassem, vai aos poucos sendo vítima do afã de um primeiro-ministro que se empenhou desde o princípio em apresentar-se como alguém capaz de reduzir ao mínimo indispensável o elenco governativo.

A verdade é que, ao longo destes meses, o número de ministros não aumentou, o de secretários de Estado também não, mas a máquina foi engordando através da criação de grupos de trabalho e de comissões que se substituem aos ministérios. Foi assim com o futebol e os seus três grupos de trabalho sob tutela de Miguel Relvas, o futuro do serviço público de rádio e televisão sob a mesma batuta. Mas também a comissão para o acompanhamento das privatizações entregue a António Borges, o grupo de trabalho para o combate ao desemprego entre os jovens liderado por Miguel Relvas, ou aquilo que pode vir a ser uma nova comissão interministerial para a gestão das verbas do Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN) sob a vigilância apertada do ministro das Finanças, Vítor Gaspar.

O facto é que, nestes últimos ajustamentos, quem ficou a perder do ponto de vista da perceção pública - e em política a perceção conta que se farta - foi sempre Álvaro Santos Pereira, que se tem visto progressivamente esvaziado de poderes e competências. Aos olhos dos cidadãos, mas também dos seus pares no Governo, o ministro que sugeriu ingenuamente a internacionalização dos pastéis de nata - porque não dos ovos moles de Aveiro, da alheira de Mirandela ou do cozido à portuguesa - e que agora está empenhado em criar a figura do "gestor de carreira" para essa "profissão de futuro" que é a de desempregado, está cada vez mais fragilizado. Até porque a obra que tem para mostrar neste momento é a de uma taxa de desemprego sem precedentes em Portugal e um número cada vez maior de empresas a fecharem no País. Até por isto seria bom que falasse menos e fizesse mais ou, pelo menos, que pensasse bem antes de abrir a boca.

Destas mudanças resulta que o ministro que parecia ter saído reforçado das negociações tripartidas com patrões e sindicatos estará afinal condenado a ser remodelado ou, pelo menos, a ficar com a tutela de uma mão cheia de nada.

Resta perceber se, no que ao futuro de Álvaro Santos Pereira diz respeito, do que se trata é só do resultado da sua incompetência, ou do reconhecimento por parte de quem manda de que não basta ser um bom teórico para se ser um superministro. Sobretudo quando em causa está alguém que, manifestamente, não dispunha de conhecimento prático e real da economia portuguesa.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG