Cavaco, o sectário

Ao indigitar Pedro Passos Coelho primeiro--ministro, Cavaco Silva fez o que lhe competia. A PAF foi a força política mais votada a 4 de outubro e por isso ganhou as eleições. A decisão do Presidente da República, confinada à primeira parte da comunicação ao país da passada quinta-feira, é política e constitucionalmente inatacável. Diria até desejável. Como já escrevi e tenho dito, a democracia faz-se também de formalismos e estes devem ser cumpridos e respeitados. Não há perdas de tempo quando se trata de assegurar o respeito pela vontade democrática e de evitar que, sobre soluções que são tão legítimas como outras, pairem sombras de golpismo eleitoral.

Mas Cavaco, eivado de ódio e preconceito ideológico, não resistiu à sua natureza tacanha e demonstrou, mais uma vez, por que razão ficará para a história como o mais medíocre Presidente da República do Portugal democrático.

As justificações que entendeu dar para a sua decisão são, mais do que lamentáveis, intoleráveis em democracia. Disse Cavaco: "Este é o pior momento para alterar radicalmente os fundamentos do nosso regime democrático." Ora o que subjaz deste discurso é, precisamente, a intenção de mudar "os fundamentos do nosso regime democrático".

Cavaco Silva arvora-se no direito de ser uma espécie de censor dos partidos parlamentares que, levando à letra o seu discurso, se veriam obrigados a submeter ao visto prévio presidencial os programas com que pretendem governar, sequestrando deste modo aquela que é uma competência exclusiva da Assembleia da República, a de viabilizar (ou não) maiorias que, naturalmente, se constituam.

Mas Cavaco fez pior. Condenou o PS à pena perpétua de só poder dialogar à direita e ao degredo forças políticas que há 40 anos fazem parte do jogo democrático. Tornou proscritos um milhão de portugueses que votaram no PCP, no Bloco de Esquerda e nos Verdes. E ao banir estes partidos do arco da governação - desta vez não foram eles que se autoexcluíram - determinou a institucionalização do desprezo pela vontade de uma parte do país. Só faltou que declarasse a ilegalização dos malditos e decretasse a fatwa da guetização para quem insistir em, democraticamente, votar na esquerdalhada. Os fundamentos doutrinários invocados até podem ter razão de ser, mas onde estava Cavaco quando o antieuropeísta Paulo Portas chegou ao governo em 2002 de braço dado com Durão Barroso? A resposta é simples: à direita tudo se tolera e compõe, à esquerda vade retro. Cavaco provou por A+B que o sectarismo da direita é tão ou mais mesquinho do que o da esquerda.

Em apenas 12 minutos, este Presidente foi o Caterpillar que derrubou os muros que há 40 anos impediam a unidade das esquerdas. Fez mais pela convergência do que quaisquer diálogos interpartidários. Deu salvo-conduto à liderança de António Costa e pôs fim aos insurrectos que no Largo do Rato teimavam em fazer frente ao secretário-geral. E, muito provavelmente, vai ter de engolir as linhas vermelhas que estabeleceu. Isto é, para ser consequente com o discurso de 22 de outubro, Cavaco teria de sujeitar o país à tragédia de um governo de gestão, caso seja confirmada a queda de Passos Coelho no Parlamento. Mas não o fará e acabará mesmo a empossar, a contragosto, um governo minoritário socialista, com apoio de comunistas e bloquistas. Porque sabe que se não o fizer os sacrossantos mercados não lhe perdoam e transformam-no no porteiro de novo resgate.

Mas não deixa, porém, de ser curiosa a constatação do seguinte facto. O mesmo Presidente que tem chiliques só de pensar nos comunistas portugueses não transpira quando o Comité Central de Pequim entra país dentro a comprar tudo o que pode. Lá está, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

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