Futebol falado ou futebol gritado?

Nos idos de 1990 Emídio Rangel criou na rádio e levou depois para a televisão o modelo dos debates entre representantes/adeptos de Benfica, Sporting e FC Porto. O modelo fez escola e o registo de violência verbal das últimas semanas não é bem uma novidade embora seja hoje mais frequente. Num dos primeiros programas, moderado na RTP por Paulo Catarro, um intrépido adepto do FC Porto - Pedro Baptista celebrizou-se por quase se pegar à pancada com Dias Ferreira que defendia as cores do Sporting perante o ar atónito de Fernando Santos, hoje selecionador nacional. Mais recentemente, ainda antes do episódio Eduardo Barroso, o recorrente Dias Ferreira abandonou em direto o estúdio do mais bem/sucedido formato dos últimos anos - o Dia Seguinte, da SIC Notícias.

Este género de programas, porque dum género se trata, instalou-se na TV por cabo em Portugal com os canais, sem pudor nem imaginação, a reproduzir modelos miméticos em que apenas se distinguem os protagonistas por serem mais ou menos cordatos.

Nos anos 1990, num tempo muito diferente no consumo de televisão, a SIC fez do debate clubístico uma arma no seu célebre programa Os Donos da Bola que se transformou quase num programa de culto nas noites de sexta-feira. Os comentadores não se pronunciavam apenas sobre as polémicas no campo, eram também chamados a pronunciar-se sobre as controversas investigações do programa, o que gerava conflito. O conflito, por sua vez, gerava audiências. A TV é assim.

Não exatamente da mesma forma não deixa de ser digno de registo que a TVI tenha, nas duas últimas semanas, utilizado o modelo no seu noticiário principal. Partindo da atualidade, Judite Sousa introduziu no Jornal das 8 um momento de confronto, neste caso entre Benfica e Sporting. Os arautos dos bons costumes indignaram-se mas o confronto faz parte da essência da televisão e em Portugal, onde tudo são paninhos quentes, o futebol ainda gera a verbalização dessas paixões.

Há algum exagero? Em geral sim porque neste momento o primado da gritaria é dominante e não podemos confundir isso com uma boa discussão de ideias. A entrada de comentadores ligados aos clubes, como o agora muito conhecido Pedro Guerra, também não ajuda. Pelo contrário.

Independentemente da sua inteligência e da forma como se prepara, Guerra não é um espírito livre e todos ganhamos com mentes não alinhadas de que João Gobern, para falar de outro "representante" do Benfica, é o melhor exemplo.

A outra TV

A Liga Espanhola, através da Media Pro - a empresa catalã que gere os seus direitos internacionais -, inaugurou nesta semana um canal dedicado no YouTube com o qual espera atingir dois mil milhões de espectadores (!) em mercados tão diferentes como Inglaterra, Holanda, Rússia, Japão ou Colômbia. A Taça do Rei será disponibilizada na plataforma vídeo do Google. Numa altura em que os direitos do futebol são um produto cada vez mais distintivo da oferta, a televisão, mesmo a televisão paga, começa a ter concorrência séria das novas plataformas.

Vasos comunicantes

Depois da TVI agora também a SIC e a RTP estão a fazer migrar os seus programas e as suas principais figuras do canal generalista para o canal de informação no cabo. Os modelos não são todos iguais e, tendo virtualidades, também levantam uma questão: numa fase em que os canais tendencialmente produzirão menos entretenimento e até ficção não é a informação em canal aberto um fator de distinção? E sendo não deve ser valorizada? É um tema a seguir.

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