O melhor surfista da minha praia

Eu não deveria ter mais do que uns cinco palmos de altura. Punha as braçadeiras e debaixo do braço encaixava a prancha - uma de plástico, comprada no supermercado a caminho da praia. Antes de entrar no mar, olhava atentamente as ondas a rebentar até ganhar coragem de enfrentá-las. Já com água pelos joelhos, deixava passar as vagas mais pequenas e esperava pelas espumas maiores. Deslizava em cada uma sem deixar dúvidas de que era o melhor surfista da minha praia. Não havia muitos mais, é verdade. Mas também nem todos se atreviam àquela aventura.

O negócio da minha família era ali, em frente a um mar rigoroso do Algarve, onde a água chegava a ser morna e a bandeira vermelha nem deveria existir. Quando o mar estava flat ou havia muito crowd, ia vender gelados, servir sumos de laranja, tirar cafés. Por vezes recebia umas moedas de gratificação e todas juntas faziam uma fortuna. Eram dias perfeitos. As férias grandes pareciam nunca mais acabar. As famílias habituais iam chegando a cada semana e os meus amigos do verão também.

Os anos foram passando, troquei várias vezes de prancha, para umas melhores, à medida que o esferovite se partia. Fui crescendo e as espumas na minha praia ficaram mais pequenas. As manobras profissionais passaram a ter menos piada. Mas o mar sempre foi uma paixão. Em casa tinha búzios para poder escutá-lo. No dossiê e nos cadernos da escola colava fotografias de ondas perfeitas em destinos paradisíacos. Sonhava com aquilo. E nunca desisti.

Hoje em dia, já muito mais velho - com um quarto de século de idade -, tento estar sempre no mar com o grupo da surfada: ao fim de semana, às sete da manhã, depois do trabalho. Organizamos surf trips, da Costa da Caparica à Costa Vicentina. Sempre em busca de apanhar uma onda maior. Mas nunca tão grande como as da praia onde tudo começou.

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