Testar a influência das redes sociais nas eleições

A influência das redes sociais nos atos eleitorais é um tema que tem apaixonado discussões académicas e jornalísticas. Na verdade, há várias formas de entender esta questão. A mais direta refere-se a até que ponto a decisão de votar (abstenção) e em quem votar (partido ou lista) pode resultar das dinâmicas nas redes sociais. No caso português, não há ainda estudos que permitam responder a esta questão. Pelo contrário. Em termos agregados, sabemos que a abstenção desceu ligeiramente (desta vez foi 45% contra 47% em 2013 e 41% em 2009). Por outro lado, mesmo que as redes sociais mobilizem o voto, não é claro que essa mobilização favoreça um partido em detrimento de outro. Confesso que sou bastante cético quanto ao facto de as redes sociais, com ou sem fake news, determinarem uma vantagem eleitoral para certo candidato muito para além de um efeito muito marginal. Os estudos sobre as eleições americanas, por exemplo, têm conclusões para todos os gostos. Mas admito que não há elementos objetivos para saber se, em Portugal, as redes sociais favorecem algum partido em particular ou mesmo se reduzem a abstenção potencial.
Há, contudo, uma outra forma de entender a questão que me parece mais interessante. Falo das redes sociais como espelho do eleitorado, isto é, se podemos olhar para as discussões nas redes sociais como um grande focus group. Nesse sentido, as redes sociais seriam influentes, pois, enquanto reflexo das opiniões da sociedade como um todo, dariam pistas sobre a evolução dos sentidos de voto. Ao mesmo tempo, os partidos poderiam usar (talvez já usem) as redes sociais para testar novas táticas ou possíveis mensagens de comunicação política.
Estas eleições autárquicas são ilustrativas desta segunda forma de olhar a influência das redes sociais. Comecemos com Ventura em Loures. Não há que menosprezar que tinha já alguma popularidade derivada da sua colaboração na CMTV. Em parte, aliás, foi esse passado algo mediático que justificou a sua escolha pelo PSD. Mas a verdade é que Ventura foi linchado na opinião publicada enquanto os seus apoiantes (a "nova direita") se mobilizaram nas redes sociais. O seu resultado em Loures (21,6% quando o PSD teve 16% em 2013 e em 2009) mostra que há um discurso conservador que anima certa direita, mas bastante insuficiente para produzir uma reviravolta eleitoral. Outro exemplo é Isaltino em Oeiras. Conhecido de todos, mas sem qualquer apoio assinalável na opinião publicada (inclusivamente com o comentador Marques Mendes - não confundir com o militante do PSD Marques Mendes, que participou na campanha eleitoral em Lisboa, onde o PSD teve o pior resultado da sua história - a gritar domingo após domingo que a lei devia proibir candidatos como Isaltino). Não houve nenhuma onda Isaltino nas redes sociais. O resultado em Oeiras não deixa de ser interessante (41,7%, maioria absoluta, a que somam os 14,2% de Vistas por comparação com 33,5% em 2013 e 41,5% em 2009).
Evidentemente, as redes sociais são dominadas pelas duas claques que polarizam a opinião do país. Nesse sentido, sim, refletem o país. Contudo, quando as eleições deixam de estar polarizadas entre esquerda e direita e regressamos ao "velho" modelo dos cinco partidos (com exceção de Rui Moreira, a presença dos restantes independentes nas redes sociais foi, até onde entendo, débil), notamos claramente uma divergência entre as correntes mais aguerridas e a sua representatividade eleitoral. O resultado de Loures parece indicar que a "nova direita" continua a ser mais um fenómeno virtual do que outra coisa. Por outro lado, também não parece ser verdade que a opinião publicada seja melhor barómetro do que as redes sociais, como ilustra o caso de Oeiras. Admito, porém, que as redes sociais e a opinião publicada se acham sempre mais influentes e mais representativas do que realmente são. Nesse sentido, parecem-se.

P.S. - Escrevi aqui um artigo há vários meses em que defendia que, mais importante do que o programa de cada candidato autárquico, o mais relevante era saber, por parte de quem não tinha a menor chance de ser eleito presidente de câmara, qual o estilo de oposição que pretendia fazer (cumprir mandato, viabilizar propostas, etc.). Foi-me dito que isso era cortar a democracia e o sonho. Ninguém devia explicar o que fará na oposição, pois tem o direito de reclamar a ambição de ganhar. Na noite eleitoral, afinal eram umas eleições muito difíceis, afinal não se concorria verdadeiramente para ganhar (porque não interessam, porque o segundo lugar é um resultado histórico, porque são irrelevantes, porque estão viciadas ou condicionadas, porque o povo está comprado por medidas eleitoralistas, porque mais não sei que teoria). Depois admiram-se da abstenção (ou não).

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