Os intangíveis da Web Summit

A Web Summit é a feira anual de uma indústria ou de um setor económico que lida com a tecnologia e o futuro da sociedade de informação. Não pode haver opinião negativa sobre a dita. Como iniciativa privada que promove um encontro de empresários e atores económicos, não vejo bem qual a objeção sólida que possa gerar. Qualquer iniciativa privada, autossustentável, dentro da legalidade vigente, só pode ser vista como altamente positiva para o desenvolvimento desse setor económico e para a promoção da economia local. A palavra-chave, claro, é autos-sustentável. Acontece que a Web Summit tem financiamento público. Nessa medida, há que justificar esse financiamento. Se sem ele a Web Summit não é autossustentável, então a feira tecnológica deixa de ser uma iniciativa estritamente privada. Por outro lado, a existência de financiamento público não significa necessariamente que o evento não seja autos-sustentável. Podem existir externalidades positivas (isto é, ganhos significativos para a sociedade portuguesa para além dos benefícios diretos privados para os atores económicos) que justificam cabalmente esse financiamento público, mesmo se o evento é perfeitamente autossustentável pelos privados.

Em termos conceptuais, acredito que a Web Summit tem externalidades positivas que justificam financiamento público. Emprego, investigação, modernização, desenvolvimento, promoção de Lisboa e Portugal, facilitação de investimento nacional e estrangeiro. Dificilmente se pode negar a possibilidade de todos estes benefícios existirem. E são claramente públicos e muito para além dos interesses económicos diretamente visados. Na minha perspetiva, a questão começa onde acabam os aspetos conceptuais. Quando foi financiada pelo Estado a primeira Web Summit, teríamos de considerar avaliações prospetivas das externalidades positivas e admito que seria complicado ir muito além da discussão conceptual. Por isso, mesmo sem nunca especificar exatamente como se chegou a estes números, acho aceitável que se falasse em benefícios totais e prospetivos de 200 milhões em 2016 e 300 milhões em 2017. Contudo, chegando à segunda Web Summit, já não é suficiente. Ainda menos quando se fala da terceira edição, em 2018. Já não se tratam de avaliações prospetivas, mas sim de considerações retrospetivas. Os números que deveriam ter sustentado o debate nestas últimas semanas são as externalidades positivas que se verificaram entre a primeira e a segunda Web Summit - quanto investimento entrou no setor, quanto emprego adicional foi criado, qual o grau de modernização financiado, quantas startups arrancaram, qual o impacto económico da primeira Web Summit.

Infelizmente, como pudemos acompanhar nos debates sobre o tema, os números exatos ou estimados não existem. O Estado nunca tem números nenhuns. Desculpa-se com a tradição. Apesar de sermos um país com recursos escassos, que tem um problema orçamental doloroso, com cortes violentos na provisão dos bens públicos, a justificação do financiamento público é meramente conceptual e genérica. E quem duvida das externalidades positivas é despachado por "bota--abaixista", em vez de ser confrontado com as estatísticas oficiais muito positivas. Mas, se é lamentável que o Estado (seja governo, seja CML) não tenha qualquer número ou estatística concreta para justificar o seu generoso financiamento público quando já vamos no segundo ano, mais surpreendente é a ausência de indicadores quantitativos por parte da organização da Web Summit. Ao contrário do que se poderia esperar de uma iniciativa privada virada para o futuro, com cinco anos de experiência na Irlanda, insiste-se no uso de linhas de comunicação do passado. Hipérbole, promessas de grandes benefícios, feira de vaidades e famosos, mas nada de concretizar os ganhos. Para uma feira de negócios, parece-me bizarro.

Quando pressionados pelas tais externalidades positivas, os promotores privados e públicos da Web Summit rapidamente rejeitam o economicismo dos números e optam pela conversa dos imensos ganhos intangíveis. Curiosamente, os tangíveis não se medem quantitativamente, mas os intangíveis são uma realidade qualitativa inapelável que supostamente deveria calar o "bota-abaixismo". O problema dos intangíveis é que Portugal já não consegue viver com tanta fartura - os intangíveis da Expo98, do Euro 2004, das capitais da cultura, da economia do mar, das autoestradas, dos choques tecnológicos, da paixão pela educação são de tal forma avassaladores, que o Orçamento do Estado, coitado, tem dificuldade em lidar com eles. Que a Web Summit insista em intangíveis em vez de acabar com o "bota-abaixismo" mostrando os números concretos apenas revela que, infelizmente, mesmo após a bancarrota de 2011, nada mudou na cultura dos agentes políticos, das elites portuguesas e da comunicação social. Continuamos a discutir o que não pode medir e não medimos o que deveria ser discutido. Extraordinário. Suponho que a isso chamam a resiliência dos portugueses.

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