Alemanha: Merkel, PS e PSD

No próximo dia 24 de setembro, os alemães vão eleger pela quarta vez Angela Merkel para governar outros quatro anos. Líder da CDU desde 2000 (ultrapassou já os dezasseis anos do fundador Konrad Adenauer, mas está ainda longe dos vinte e cinco de Helmut Kohl) e chanceler desde 2005 (Konrad Adenauer e Helmut Kohl foram chanceleres catorze e dezasseis anos, respetivamente), oriunda da Alemanha de Leste, criticada por falta de carisma e visão europeia, Angela Merkel persiste em derrotar aqueles que preveem sistematicamente a sua morte política. Neste momento, a única questão em aberto é o tipo de coligação que Merkel terá de fazer para garantir a sua eleição no Bundestag. Em 2005, no seu primeiro mandato, foi obrigada a uma Grande Coligação com o SPD, porque o seu parceiro favorito (os liberais do FDP) era aritmeticamente insuficiente (apesar de terem crescido eleitoralmente). Em 2009, no seu segundo mandato, com um resultado mais folgado (devido a uma perda importante de votos pelo SPD), conseguiu uma maioria com o FDP. Em 2013, com o melhor resultado da CDU em muitos anos, roçou a maioria absoluta, mas aniquilou os liberais e viu-se obrigada a repetir a Grande Coligação (porque o SPD e os Verdes rejeitaram entender-se com o Die Linke numa versão "gerigonceira" local). As últimas sondagens apontam para uma nova vitória folgada, algo abaixo do resultado de 2013, mas muito longe do empate técnico prometido pelo candidato do SPD, Martin Schulz. Os liberais regressarão ao Bundestag e a "nova direita" Alternative für Deutschland deve também entrar. Como todos os partidos tradicionais rejeitam entendimentos, quer com a "nova direita" quer com a esquerda radical do Die Linke, existem apenas três possibilidades. A menos provável é uma maioria aritmética CDU/CSU e FDP. A seguinte é a coligação "Jamaica" (pois a combinação das cores dos partidos de tal coligação parece a bandeira da Jamaica): CDU/CSU, FDP e os Verdes. Nunca foi tentada, o FDP e os Verdes apresentam-se como partidos bastante opostos, mas as experiências regionais mostram que não é impossível. Finalmente, a terceira repetição da Grande Coligação pode acabar por ser a opção mais estável.

Seja como for, Merkel continuará chanceler previsivelmente até 2021. Tudo na mesma na Alemanha. São, pois, boas notícias para o governo português. Qualquer governo. Estando o PS no governo, são boas notícias para o PS. E para a gerigonça. Nada mudará nos tempos mais próximos, permitindo ao PS e ao seu governo manter os equilíbrios complicados até novas eleições legislativas em Portugal (quem diria que Merkel seria a melhor "amiga" da gerigonça). Depois logo veremos.

Mas o PSD também deveria prestar atenção ao que se passa na Alemanha. Diz-se que afinal foi o PSD, e não o PS, quem se "pasokizou" em virtude da austeridade, mas na verdade o PSD "spdizou" mais do que "pasokizou". Vejamos. O SPD governou sete anos (após derrotar Kohl em 1998) até 2005, reestruturou profundamente a Segurança Social naquilo que é apresentada como uma reforma modelo, teve um inesperado bom resultado nas eleições de 2005 (Schröder ficou ligeiramente abaixo de Merkel), mas insuficiente para governar, e depois nunca mais levantou cabeça. E já lá vão quatro eleições federais. E uma meia dúzia de líderes e candidatos a chanceleres. O que aconteceu? Uma parte do eleitorado tradicional do SPD não gostou das reformas dos governos Schröder por muito elogiadas que elas fossem pela direita e por organismos internacionais. Depois de algum voto útil em 2005 (para evitar o regresso da direita), desmobilizou em 2009 e muito acabou por optar pelo Die Linke (a mudança de Oscar Lafontaine do SPD para o Die Linke evidentemente solidificou este processo). Por outras palavras, uma parte do eleitorado de esquerda zangou-se com o SPD em 2005 e nunca mais regressou. Consequentemente, o SPD não voltou a liderar um governo desde então, pois não encontrou novos eleitorados. O SPD deixou de ser um dos dois grandes partidos para se transformar num partido médio, deixando à CDU o papel de liderar os governos.

Como tenho insistido com frequência, o PSD encontra-se num momento crítico e em pleno processo semelhante ao SPD. A manter-se a atual dinâmica, o PSD muito dificilmente conseguirá reconciliar-se com os 700 mil votos perdidos em 2015. Assim sendo, tenderá a ser um partido médio sem real capacidade de voltar a liderar um governo (outra coisa é que seja o parceiro menor de uma futura Grande Coligação, cenário neste momento difícil de imaginar, mas não completamente impossível). E, tal como no caso do SPD, meras mudanças de líder ou cosméticas na linguagem partidária não serão suficientes para mobilizar novos eleitorados.

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