A Revolução de Outubro cem anos depois

O aspeto mais saliente dos cem anos da Revolução de Outubro é a ausência de comemorações eufóricas e propagandísticas de outros tempos. Nenhum Estado do século XXI reclama alegre e saudosamente a dita herança. Nem mesmo o regime neossoviético de Putin fez da data uma grande ocasião, o mesmo regime que, curiosamente, pouco a pouco tem recuperado os heróis e os mitos do império russo e do império soviético, incluindo o maior assassino da humanidade - falo de Estaline, claro. Que a Revolução de Outubro seja, em 2017, uma mera efeméride para os historiadores e alguns saudosistas é a maior derrota dos bolcheviques. A Revolução Francesa é ainda o referencial dos franceses. É verdade que a Revolução Francesa insiste em ressuscitar em múltiplas versões que escondem a dura realidade da barbaridade que foi o Terror, mas os mitos jacobinos são ainda hoje acarinhados e alimentados pela esquerda europeia. A Revolução de Outubro perdeu completamente esse glamour. A ditadura comunista pensava que seria eterna. O marxismo acreditava que o comunismo seria a última fase da evolução humana. Cem anos depois, restam memórias perdidas de um regime totalitário vergonhosamente desumano.

A verdade é que Revolução de Outubro abriu as portas a um governo totalitário que subjugou uma parte da humanidade durante quase 75 anos e ainda hoje escraviza países como a Coreia do Norte (até Cuba começou o processo de abertura e reforma com muitas décadas de atraso). Tal como o nazismo, o comunismo mudou a historia da humanidade, matando milhões de pessoas em nome de uma ideologia errada e desumana. A revolução de 1917 simplesmente substituiu um regime autoritário caduco (próprio do século XVIII) por uma ditadura maligna e profundamente violadora dos direitos humanos (infelizmente, própria do pensamento iliberal do século XX). Perdeu-se a chance, na Rússia e depois em muitos pontos do globo, de fazer a evolução do autoritarismo para a democracia liberal e capitalista com menos sofrimento, menos dor, menos horror, menos mortos. Como certamente fizemos em Portugal, por exemplo.

Falamos hoje das fake news como se fossem algo novo. A propaganda soviética não fez outra coisa durante mais de 70 anos. Já lá vão os anos dos milagres económicos e tecnológicos, enquanto a fome abundava. Ou da felicidade dos trabalhadores que eram escravizados pelo aparelho soviético. Ou da sociedade sem crime (crime era coisa do capitalismo), onde abundavam a corrupção e as violações de direitos humanos. Ou as teorias de Lysenko, que negavam o darwinismo e prometiam um mundo mágico de biologia superior. Ou tantas outras mentiras e falsidades que algumas forças de esquerda no Ocidente repetiam cegamente nos jornais e nas televisões.

Mas, tal como as fake news, a Revolução de Outubro foi derrotada pela realidade. Ao contrário do nazismo, que perdeu uma guerra de enormes proporções, o comunismo simplesmente desabou quando as suas próprias mentiras já não alimentavam (literalmente) o regime. É verdade que sobram Estados autoritários pelo mundo fora e principalmente na área geográfica da antiga URSS. Podemos mesmo dizer que poucas repúblicas soviéticas vivem hoje em democracia plena. Mas o comunismo vive assombrado pelos milhões de pessoas que a sua ideologia matou. Haverá uma pequena minoria que insiste em negar o passado, mas não passam de pequenos partidos, como no caso português. Hoje, inevitavelmente, os partidários usam duas linhas de argumentação para saudar a revolução de 1917. Uns insistem numa alegada traição soviética que matou a esperança da humanidade, vítima direta do estalinismo. Como se o regime totalitário imposto pelos bolcheviques e as suas horríveis variações não fossem verdadeiramente comunistas. Outros avançaram na agenda política e preferem outros modelos (Venezuela surge como o principal candidato). Os comunismos russo ou chinês têm uma tal pesada herança que simplesmente lhes retirou grande parte da credibilidade a nível global.

A Revolução de Outubro impactou Portugal diretamente. Sem ela, o PCP não seria o PCP. E o PCP evidentemente tem tido uma influência importante desde a sua criação em 1921, quer no combate ao Estado Novo, quer na tentativa de implantar uma ditadura soviética em 1975, quer na vida democrática dos últimos 40 anos. Sem a revolução de 1917, e o consequente totalitarismo soviético, não haveria PCP nos moldes que conhecemos, uma vez que se tratou, durante décadas, do partido comunista mais amigo do estalinismo e da ortodoxia soviética na Europa Ocidental. Também, e principalmente por isso, a geringonça portuguesa só aconteceu em 2015, e não antes, como em França logo nos anos 1980, Itália nos anos 1990 ou mesmo em Espanha em 2004 (com o apoio da Izquierda Unida ao minoritário governo Zapatero).

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