Quando tudo arde

Às 11:00 da manhã de 11 de Setembro de 2001 um amigo despertou-me pelo telefone contando-me coisas estranhas. "Já sabes o que aconteceu? Vai ligar a televisão, é uma cena do caraças!..." E era, uma "cena do caraças". Eu tinha 24 anos e aprendi que os grandes momentos chegam sempre quando menos esperamos e pela voz de alguém mais atento e mais desperto. Ontem foi uma colega do departamento de restauro através do Facebook (os anúncios acompanham os meios). "Nuno, estás em casa? O que se passa em Paris? Na rua estavam pessoas a espreitar por uma montra e só vi fumo e chamas a sair de Notre-Dame, parece coisa séria...". E era uma coisa séria.

Como todos acompanhei as imagens e os sons que não irei esquecer. O fogo, o fumo negro, os gritos, as sirenes, os jorros de água, o pináculo a cair. As televisões fazem o seu trabalho e vão consultando especialistas de matérias várias, os adjectivos sucedem-se, também as explicações precoces e as frases de efeito. "Era mais do que um monumento religioso, era o símbolo de uma civilização...", ouvi eu algumas vezes, e ficou-me o miolo às voltas naquilo, entre o símbolo e o simbólico, entre o que foi edificado e o que hoje ruiu.

A catedral de Notre-Dame de Paris era velha, muito velha, feita de pedra e madeira, recheada de têxteis, vernizes e outras matérias combustíveis. Não se conhece a centelha, mas o fósforo já lá estava à espera de arder. Incúria, azar, desinvestimento, excesso de confiança, incompetência, terrorismo, vandalismo, não sabemos, nem sabemos se viremos a saber, uma catedral com mais de sete séculos não arde por um só motivo. Em vão procuro esquivar-me de alguns excessos interpretativos (o fim de uma civilização, o declínio do Ocidente, a morte do homem religioso) e tento apoiar-me no pragmatismo e em algumas noções básicas de conservação preventiva. Ainda assim não há como escapar, o colapso de um símbolo, de uma metáfora tão poderosa quanto uma catedral gótica é, em si, simbólico, o fim de uma ideia ou de um propósito, de um Deus ao alto que se quis representar ou alcançar empilhando pedras sobre pedras.

Antes de adormecer detenho-me um pouco a imaginar as imagens futuras dos livros de história por escrever e as legendas que as hão-de acompanhar. De um lado as torres gémeas e o pináculo de Notre-Dame, do outro os arranha-céus chineses e os hotéis vidrados do Dubai. Penso ainda na torre de Babel e no Colosso de Rodes, no que já caiu e no que se vai erguendo. A história dos homens é ao mesmo tempo pragmática e cheia de metáforas, feita de factos e do peso que lhes damos. Hoje arderam muitos séculos, hoje ficámos órfãos de um Deus gótico em que já não acreditamos mas que era ainda o Deus dos nossos avós. O futuro de uma civilização mede-se também pela forma como consegue preservar a sua história, estaremos nós a ficar fracos para aguentar tanto passado?

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