Bom como o pão

Chama-se Giuseppe, o pai é italiano e a mãe portuguesa e o vício do surf levou-o a abrir uma pizzeria em Portugal. Falávamos destas e doutras quando assomou à porta um senhor dos seus sessenta anos, mal vestido, mochila esfarrapada, o rosto magro e sem expressão.

- Não me aceitam no abrigo, tenho três euros e quarenta, dá para comer uma pizza pequenina?

Sabia que não o ia expulsar, parecia-me um rapaz decente, mas não estava preparado para o que se seguiu. O Giuseppe convidou-o a entrar e a sentar-se à mesa, aliviou-o da mochila e passou-lhe o cardápio para a mão.

- Pode ser com chouriço?

- Pode, e de azeitonas gosta?

Preparou-lhe a pizza e serviu-o, não aceitou o dinheiro e ainda lhe disse que voltasse quando tivesse fome.

Comovi-me com aquilo e veio-me à memória uma expressão italiana que se aplica ao pizzaiolo: un uommo buono come il pane.

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João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.