Nuno Camarneiro

Foi Centeno quem fez descer os juros?

PremiumHá dias a agência de notação Standard & Poor's (S&P) subiu o rating de Portugal, levando os juros sobre a dívida pública para os níveis mais baixos de sempre. No mesmo dia, o ministro das Finanças realçava o impacto que as melhorias do rating da República têm vindo a ter nas contas públicas nacionais. A reacção rápida de Centeno teve o propósito óbvio de associar a subida do rating e a descida dos juros às opções de finanças públicas do seu governo. Será justo fazê-lo?

Ricardo Paes Mamede

Os troncos de Doha

Como tudo no Qatar, atravessa-se algum deserto para lá chegar. E o Centro Nacional de Convenções de Doha, nos arredores da capital do emirado, não escapa a esse destino de saltar do fundo da areia e ficar a pairar como uma verdadeira miragem arquitetónica sobre a paisagem. Quando se o vê pela primeira vez fica-se como aqueles saloios que se deslumbram com maravilhas nunca vistas no seu território, é que ao aproximar-se da enorme estrutura descobre-se que está apoiada em dois grandes troncos.

João Céu e Silva

Praguejar é um alívio

"Puta que pariu..." De todas as asneiras do vernáculo português, esta é a minha preferida. Não é a que gritamos quando nos salta a tampa, não é para este sítio que mandamos alguém que se atravesse à má fila num cruzamento quando o sinal está verde para nós. Esta é a que deixamos escapar de mansinho, entre dentes, acompanhada de um abanar de cabeça quando estamos desapontados com o mundo, quando olhamos para a cagada que acabámos de fazer por entornar a água toda do esparguete em cima da bancada, quando reparamos que há 35 pessoas à nossa frente na fila das Finanças ou quando percebemos que, apesar de serem oito e meia da manhã, já não há mais senhas para renovar o Cartão de Cidadão.

Paulo Farinha

Pensas que estás na barraca onde vives?

No outro dia, uma professora perguntou isto à minha filha, que tem 12 anos e está no 6º ano. "Pensas que estás na barraca onde vives?" Ela contou-me, ao jantar, olhar crítico, mas descontração saudável, que tanto me descansa. "Achas bem, mãe?" Primeira (e estúpida) reação minha: "O que é que fizeste para a professora perguntar isso?" Ela, com aquele ar incrédulo dos pré-adolescentes: "Só estava torta na cadeira, mãe. Achas bem uma professora perguntar isso?"

Catarina Pires

O Brexit não é só como eles quiserem

Ao longo das últimas semanas, o Brexit tem ocupado os jornais e televisões com a intensidade, o drama e a paixão de um reality show. As perdas de voz de May, a hesitações de Corbyn, os trânsfugas, tudo é visto e comentado. Até as gravatas do Speaker of the House conhecemos (ainda não repetiu nenhuma). É a democracia, dizem-nos. Será. Mas como em todos os divórcios há (pelo menos) duas partes. E se é certo que não podemos, não queremos, nem temos interesse em pôr-lhes as malas à porta, também é verdade que não podem continuar a precisar de tempo para pensar todas semanas.

Henrique Burnay

Corolários do Brexit

O lema do presidente Trump - "Make America Great Again" - começou a levantar dúvidas, no que respeita à estratégia de defesa, quando em 2016 afirmou que o Tratado do Atlântico Norte era obsoleto, não esclarecendo então se tinha em vista o orçamento para o qual entendia que os aliados não pagavam a fatura suficiente ou se lhe "ocorria" uma revisão da doutrina e valores. Um domínio em que é possível que existam visões diferentes, designadamente pela variação da espécie de ameaça como é a do terrorismo, domínio em que o ataque às Torres Gémeas não se apagará da memória americana, mas também sobre a complexa questão dos emergentes e consequentemente a variação da hierarquia das potências. Embora o TheNational Security Strategy, publicado em fins de 2017, acentuasse as orientações duradoiras da estratégia nacional, pondo naturalmente em primeiro lugar a proteção dos EUA, também lembrava as alianças, mas rapidamente a imprevisibilidade do presidente alarmava quanto à importância que dava ao atlantismo, aproveitando a Assembleia Geral da ONU para questionar a oportunidade do multilateralismo, em termos de ter recolhido uma desrespeitosa gargalhada geral da Assembleia. Há meses, o general-comandante das forças americanas da NATO, ao despedir-se em fim de mandato, vaticinou que dentro de 15 anos a China e os EUA estarão em guerra, um período curto de espera mas não suficiente para que o atual presidente ainda esteja em funções. Mas em vista das dúvidas sobre o atlantismo americano que foram divulgadas, e a lembrança de que a Rússia fez de si ocupando tranquila a Crimeia, tudo levou a que o Pentágono fizesse valer a política de manter uma superioridade em todas as circunstâncias, independentemente de qualquer antigo rival ou emergente. A União Europeia não ficou, nem seria aceitável que ficasse, alheia a esta situação, em que o destino do atlantismo é subitamente inquietante, não necessariamente por ameaças, mas por insegurança de diretiva no seio da Aliança, sobretudo depois da apreciação negativa do multilateralismo, dúvida que vai da Organização Mundial do Comércio à Aliança Atlântica, neste caso bem fundada quando pediu à Europa que assuma mais encargos e uma mais direta responsabilidade pela sua própria defesa. Nos órgãos de gestão da União não falta a meditação sobre a necessidade de melhorar a cooperação dos seus membros, de procurar uma política externa solidária e, sem pôr em causa a Aliança Atlântica, a prudência de organizar uma segurança comum, não apenas interna mas também externa. Não faltam problemas, a exigir visão integrada, quer interesses na África, quer a atitude da Rússia, quer o Médio Oriente, as migrações, a crescente importância global dos emergentes. As fronteiras internas que as eleições próximas acentuarão exigem um esforço excecional da adesão segura ao europeísmo. E aqui o problema do Brexit e os seus inevitáveis corolários implicam o difícil desafio de uma visão e de uma capacidade a longo termo. A sociedade civil terá ela própria de se manifestar para que se chegue a um apoio da opinião dos diferentes eleitorados. O Reino Unido teve nas duas guerras mundiais, na Guerra Fria e neste período após a queda do Muro de Berlim uma contribuição inesquecível, mas ao sair leva consigo a maior esquadra e talvez o maior exército dos membros da União. Não significa que consolide a opinião de Margaret Thatcher quanto à superioridade dos saxónicos, mas não parece fácil e evidente que o Brexit - sobretudo sem acordo ou mau acordo, pondo em evidência as dificuldades esperáveis para a Grã-Bretanha por não ser um Estado nacional - não torne insegura a convicção de que será a parceira responsável, empenhada e largamente indispensável, que manterá a linha em que se inscrevem os sacrifícios feitos para a libertação da Europa, sobretudo na Segunda Guerra Mundial. Os mais otimistas mantêm a esperança de que - depois da desordem criada pelo acontecimento no quadro partidário, na atitude das regiões, na sociedade civil, nas economia e faturas de saída - entre os numerosos temas que, por natureza, implicarão desejada cooperação entre União e Reino Unido se encontram a política externa e a segurança e defesa. O facto de o tema não ter aparecido na discussão pública conhecida lembra outros esquecimentos bem lembrados do passado. Mas essa não parece ser solução indicada para o mundo de ruturas em que nos encontramos, com sucessivas cimeiras inconclusivas sobre o futuro desejável, consentindo que a realidade vá desenvolvendo um futuro não planeado, surpreendente, e em muitos aspetos incontrolável. A semântica obediente pode afirmar excelentes os resultados das cimeiras. Mas não garante a concordância da realidade em movimento.

Adriano Moreira

Queremos os vossos filhos

PremiumHá poucas imagens que me ficam presas à memória como se nunca tivesse saído desse episódio. Um delas é a da mulher síria que, em 2013, atravessava a fronteira em direção ao Líbano. Eu estava aí com a chefe de delegação da União Europeia no Líbano, numa missão que procurava acautelar a resposta de emergência às três mil pessoas refugiadas que entravam no país a cada dia que passava. Na altura não se falava de refugiados sírios ainda por estes lados. Ora bem, esta mulher estava em final de tempo de gravidez. Tinha feito mais de 80 quilómetros a pé, atravessado o Anti-Líbano - a cordilheira síria que do outro lado da fronteira faz espelho com o monte Líbano - e estava exausta, com frio, com fome e sede e o desespero de ter perdido a casa e a família num bombardeamento. Chegou sozinha e poucas horas depois teve a bebé. Quando regressámos para falar com ela, disse-nos apenas: "Agradeço a Deus." Na altura pensei, eu que não acredito na existência de Deus, que talvez tivesse sido mesmo obra de Deus, já que nós fomos totalmente incapazes de evitar situações como esta.

Marisa Matias

Olha o robô, é pra menina e pro menino

Premium A automação e a robotização têm vindo progressivamente a alterar o nosso quotidiano e o mundo como o conhecemos. A vida, hoje, é muito mais confortável com a caixa automática do supermercado, com a impressora 3D e com tantos outros gadgets que surgem quase diariamente. Ainda não nos tínhamos acabado de entender cabalmente com o GPS do automóvel e eis que surgem já testes com veículos de condução autónoma. A tecnologia parece querer assegurar-nos, cada vez mais, que tem cada vez menos limites na sedução e na busca do nosso conforto...

Maria Antónia de Almeida Santos

Quem é que entra?

Tentando explicar o Brexit ao meu filho de 6 anos, ele não teve dúvidas, percebeu tudo, talvez porque eu explicasse bem, talvez porque ele é mais esperto do que nós, que não percebemos, talvez uma conjugação das duas, parou, olhou para mim e disse "OK, pai" (ele diz muito OK, pai), e depois perguntou: "Se a Inglaterra sai, quem é que entra?" E aí está uma bela pergunta, que ninguém anda a fazer, toda a gente preocupada com a parte subtrativa da coisa, não vendo a oportunidade de ocupar os espaços vazios. Podia ser a Turquia, mas também podia ser Israel, que assim como assim já está na Eurovisão, ou até mesmo a Google.

João Taborda da Gama

Vozes e silêncios junto ao Reno

PremiumA recente mensagem endereçada por Emmanuel Macron aos europeus (DN, edições de 4 e 9 de Março) é significativa a vários títulos. Ela confirma o carácter voluntarioso do presidente gaulês. Importa não esquecer o milagre político de 2017. Ele chegou ao Eliseu num raide eleitoral que arrasou todos os obstáculos pelo caminho. Tomou nas mãos a bizarra Constituição da V República, como se esta tivesse sido escrita mais para ele do que para De Gaulle. Tinha 39 anos, numa UE onde 42,8 anos era a idade mediana dos seus mais de 500 milhões de habitantes. Energia e juventude não lhe faltavam. Contudo, nem dois anos passaram e a situação mudou sombriamente. Macron foi perdendo a simpatia de muitos dos seus eleitores. Uma política externa errática, onde a venda de armas aparece bem acima da retórica dos valores. As reformas laborais transformaram-no num alvo de crítica, muito para além dos sindicatos e da constelação das esquerdas, pela abertura aos rituais e dogmas do ordoliberalismo do vizinho germânico. A abolição do imposto sobre as grandes fortunas em paralelo com o aumento das taxas sobre os combustíveis fósseis, revelaram a sua estranha conceção fiscal da repartição dos custos sociais da indispensável transição ecológica. Pior ainda, desde novembro ocorrem todas as semanas manifestações dos coletes amarelos, transformando Macron no alvo de um insólito bullying político. Como resposta, Macron abriu os cordões à bolsa fazendo disparar o défice orçamental para cima dos 3%. Se fosse Lisboa, seria a catástrofe. Mesmo com Roma, houve uma dramatização. Com Paris, a transgressão ocorreu sem dramas. Berlim e Bruxelas olharam para o lado. Os europeus são distraídos, mas há coisas que é impossível não notar...

Viriato Soromenho-Marques