Periferias

Participei há umas semanas numa conversa a partir do tema "Cidade e Desobediência", que aconteceu depois do excelente espetáculo Válvula, de António Jorge Gonçalves e Flávio Almada no encantador pequeno teatro LU.CA - Teatro Luís de Camões, recentemente recuperado e inaugurado com uma estimulante programação para as crianças e jovens, sob a direção de Susana Menezes.

O espectáculo fazia uma espécie de história ilustrada dos graffiti e de tags, desde as primeiras inscrições nas cavernas às múltiplas manifestações gráficas urbanas contemporâneas, em contraponto com uma série de temas de hip hop que densificavam e amplificavam a dimensão de protesto, desobediência e revolta desses atos de vontade ao mesmo tempo artística e de insubordinação política.

A conversa em que, além dos artistas, participaram a produtora Lara Seixo Rodrigues e o professor Ricardo Campos, especialistas nos temas, além de várias pessoas do público, foi muito interessante.O ponto mais polémico acabou por ser a questão dos graffiti e de tags como legítima manifestação de jovens contra um sistema que os exclui, nomeadamente jovens das periferias desfavorecidas e dos bairros guetizados que encontram nas paredes, nos muros e noutros suportes públicos a válvula de escape para a sua inscrição de protesto.

Foi neste ponto que, sem negar a legitimidade desse protesto, manifestei a opinião de que, no momento em que o jovem excluído cobre de tags a parede de um prédio habitado, por exemplo, por uma senhora idosa que tem gosto na sua parede branca e que a partir desse dia tem de se conformar com os tags que o jovem deixou sem lhe pedir opinião, o jovem deixa de ser o oprimido e passa a ser o opressor, e o seu gesto, por mais libertário que possa ser para ele, passa a ser prepotente em relação a ela. Foi aqui que o debate animou.

Os guerrilheiros das pinturas noturnas deviam ter um código de nobreza para se fazerem respeitar, um código mural.

É verdade que também a arquitetura e a construção em geral, ou mais especificamente a colocação de painéis publicitários são formas de imposição de paisagem e de mensagem. Mas estas passam, em maior ou menor grau, por decisões de pessoas que, em última análise, são eleitas para as tomar. E que podem ser destituídas dos cargos.

Por outro lado, há graffiti e graffiti. E há graffiti e tags. E se há murais e artistas magníficos, que aliás o sistema acaba por integrar, encomendando e comissariando as obras e promovendo os artistas, há também, na maior parte dos casos, uma proliferação de inscrições que não passam de sinais primários de marcação de território, defecações gráficas (contrariando a tese de José Gil de que este seria o país da não inscrição).

Mas isto pode levar-nos ao absurdo que seria só aceitar os grafitti se eles tivessem qualidade artística: uma sociedade regulada por curadores da qualidade artística da insubordinação; a cidade com um vereador para a regulação de graffiti, tags e inscrições irregulares.

O teatro LU.CA é um belo teatro, pintado de fresco, novinho em folha. E se começasse a ser grafitado? Ainda que a ideia de um teatro em que todas as crianças pudessem deixar a sua inscrição nas paredes não deixe de ser uma ideia poética, ao fim de um tempo o teatro haveria de parecer-se com uma folha rabiscada por todo o lado que daria vontade de deitar para o lixo. Ou não?

A metáfora da cidade tatuada ou a ideia de que "as palavras dos profetas estão escritas nas paredes do metro" são inspiradoras, mas o quotidiano visual da cultura tag é muito mais deprimente do que inspirador.

Defendo o direito dos jovens a pintar o que lhes apetece onde lhes apeteça, mas também defendo que haja espaços onde não seja autorizado que o façam. Se o fizerem, arriscam-se.

É esse o jogo.

Subversivo a sério é grafitar e tagar as paredes dos grandes bancos e corporações, não as pequenas habitações de outros cidadãos.

Os guerrilheiros das pinturas noturnas deviam ter um código de nobreza para se fazerem respeitar, um código mural.

Os guerrilheiros das pinturas noturnas deviam ter um código de nobreza para se fazerem respeitar, um código mural.

Imagino que poderia ter graça um dia os jovens de um bairro conspurcado de tags acordarem e verificarem que as paredes do seu bairro durante a noite foram todas pintadas impecavelmente de cores alegres por um grupo de idosos. Imagino grupos de idosos a fazer isso por todos os bairros grafitados dos subúrbios.

Regressemos à realidade, à realidade das periferias. Há as periferias urbanas, longe dos centros; e há periferias humanas, no vazio coração dos centros.

A periferia é um conceito espacial, é o contorno exterior, uma pele. E o mais profundo é a pele, como dizia Paul Valéry.

Posso imaginar como serão as vidas periféricas, posso de forma jornalística ou literária procurar dar relato delas, mas a minha vida burguesa protegida e confortável não faz ideia do que é viver numa periferia real, viver na violenta realidade de um gueto de periferia.

Tenho de dar a palavra ao Flávio Almada: "Este gueto é uma prisão com 10 000 reclusos/ O sonho criou bolor, a flor deu fruto/ Mas ficou murcha sobrou apenas o cacto/ A pobreza custa cara e a vida é bem curta".

Termino de forma tradicional com a mural da história, uma frase que gostaria de grafitar numa ruína:

À flor da pele das periferias há uma profundeza de mundos.

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