Perder o sul

Quem não sonhou com o sul? Quem no inverno das cidades nunca sonhou em partir para o sol e para o sal dos mares do sul?

Navegámos pela literatura nas histórias de Robert Louis Stevenson, ancorámos nas ilhas do tesouro do Pacífico Sul, seguimos ao sabor do vento da aventura das baladas do mar salgado nas bandas desenhadas do Corto Maltese de Hugo Pratt.

Foi no seu exílio escolhido nas ilhas Marquesas (anos depois seria também o exílio escolhido por Jacques Brel) que Gauguin criou a sua exuberante pintura longe e livre dos códigos estéticos e morais da Europa - no Taiti.

Foi lá que escreveu Noa Noa, um caderno de impressões sobre a sua vida naquela ilha. Noa Noa quer dizer, em maori, a bem-cheirosa, a fragrante, a perfumada - e aquele perfume inebriava o desejo libertando-o do espartilho da civilização europeia, fazendo-o pintar um regresso a um idílico estado selvagem ainda quase não conspurcado, em harmonia com a natureza.
O livro foi editado em português no final dos anos 1970 pela &etc, uma editora assumidamente marginal, que não conseguiu evitar que ele se tornasse num inesperado bestseller.

Como normalmente acontece, a aventura sonhada pela literatura acaba na publicidade: um dos anúncios populares nos anos 1980 em Portugal era o do Tahiti Duche, gel de banho perfumado.

Nesta segunda década do século XXI não resta muito espaço para a aventura no planeta Terra. Ela só mal espreita, como um ténue raio de sol pela nesga do kitsch. É um reclamo turístico na montra de uma agência de viagens numa rua de uma qualquer cidade do norte da Europa a meio de mais um inverno chuvoso, ou um post que nos é dirigido, colocado pelo algoritmo no nosso mural do Facebook.

Num dos meus filmes preferidos, One from the Heart (Do Fundo do Coração), de Francis Ford Coppola, que foi um enorme flop comercial, há um casal gasto e desavindo, um flop sentimental, que desafina diálogos entrecortados por uma genial banda sonora de Tom Waits. Um erro de casting, o casal e os atores do filme (Frederic Forrest e Teri Garr), tão sem carisma e tão perfeitos por desadequação. Ela é Frannie, trabalha em Las Vegas numa agência de viagens e sonha com uma paixão arrebatadora e uma viagem a Bora Bora, mas a canção diz "Summer is dragging his feet/ I feel so incomplete" (O verão arrasta os pés/ Sinto-me tão incompleta) e pergunta: "Is there anyway out of this dream?" Há alguma saída para fora deste sonho?

Este sonho, a realidade, está a ficar cada dia mais estreito.

As ilhas dos mares do sul vão desaparecer submersas pela subida das águas do mar. Populações inteiras terão de partir muito em breve para outro lado para poderem sobreviver.

António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas (o nome vai sendo uma ironia cada vez maior), foi capa da revista Time fotografado de fato com água pelos joelhos, na costa de Tuvalu, na Polinésia.

Como vai acontecendo cada vez mais, como aconteceu com as inundações em Moçambique, as nações que menos são responsáveis pelo aquecimento global, são as que mais sofrem os seus efeitos.

Mais perto de nós, o Mediterrâneo, o nosso mais próximo sul, o berço da nossa civilização, é hoje um mar de náufragos, do naufrágio da nossa civilização europeia.

Às praias do sul da Europa chegam os desesperados refugiados, os que sobreviveram à travessia em barcos de borracha sobrelotados, explorados pelas máfias que lhe cobraram o dinheiro que lhes restava e os entregaram ao seu azar.

Famílias separadas, crianças a fugirem da fome e das guerras alimentadas pelas armas vendidas pela mesma Europa com que eles sonham como a sua última hipótese de terem uma vida mínima. A Europa das praias turísticas a que os seus corpos vêm dar depois de enviada a última mensagem para os que ficaram para trás, "estou bem, vamos agora embarcar", as últimas mensagens de esperança dos futuros náufragos, antes de os seus corpos virem dar às fotografias que se tornarão momentaneamente virais, com milhões de likes e corações nas redes sociais.

O norte era o sul deles, o sul de uns é o norte de outros, o que uns procuram por tédio, outros procuram por sobrevivência.

A realidade é uma variação de um romance de Michel Houellbecq, o detestável e amoral Houellbecq, que antecipou a deriva da nossa sociedade transformada numa plataforma de tráfico humano pela degenerescência dos valores devastados pela massificação do turismo, pelo consumo, pela alienação, pelo fanatismo e pelo terrorismo. Vivemos uma distopia que parece inverosímil mas é verdadeira, como na série Years and Years (coprodução da BBC com a HBO), a realidade ultrapassa as hipóteses mais sombrias, tornando o improvável no novo quotidiano.

"Nada me prende, vou-me embora vou pró sul", cantava Vitorino.

Mas onde é o sul? Onde está no nosso céu, para nos nortear, o Cruzeiro do Sul?

Ainda há uma réstia de verão no sul de Portugal, no Sul que é Portugal, uma réstia de sul.

Ainda o apanhamos? Ainda o apanhamos?