O pódio que escolhemos

Não percebo como se pode ter orgulho por feitos que não fomos nós que realizámos e com os quais não temos nada que ver.
Os descobrimentos de outras terras pelos portugueses, por exemplo (que também foram os descobrimentos dos portugueses pelas pessoas de outras terras, com a grande diferença, é certo, de que nós é que fomos lá descobri-los).

É verdade que dizemos "nós, os portugueses" descobrimos o caminho marítimo para a Índia e o Brasil e tudo mais. Mas nós quem? Mesmo pensando que possa ser descendente de um desses marinheiros, ou quiçá dos senhores e reis que os comandaram, qual é o meu mérito nessa empreitada? E tenho orgulho nisso porquê? Parece-me tão absurdo como qualquer de nós hoje sentir culpa por todo o historial de brutalidade, escravatura e extermínio que essa epopeia deixou.

Podemos sempre pôr-nos no plano mais amplo de sermos todos da espécie humana e tanto louvarmos os grandes feitos globais da humanidade - as descobertas, o saber, as catedrais, a música, a poesia, as grandes invenções, a ida à Lua - como sofrermos e lamentarmos a devastação da natureza, a crueldade humana, o nosso terrível rasto de destruição.

Mas esta exaltação dos feitos dos nossos compatriotas sempre me pareceu, e hoje mais do que nunca, uma extensão do conceito retrógrado de pátria, exacerbado pela necessidade de confrontação com o outro, que a afirmação das identidades implica, e que é alimento vital do espaço social e mediático contemporâneo.

Faz sentido ter orgulho naquilo que a nossa comunidade realiza com mérito e distinção, e podemos ter uma noção mais ou menos alargada dessa comunidade no espaço (o nosso país, a nossa cidade, a nossa vila, a nossa rua, o meu vizinho - hoje) ou no tempo (a história do nosso país, da nossa cidade, a nossa língua, a nossa cultura, a nossa família, a minha bisavó, o meu neto, uma prima minha em segundo grau, o meu amigo). Mas qual o sentido que faz quando exultamos com conseguimentos individuais que nos são tão alheios como o êxito de um desportista ou de um cientista no estrangeiro? Podemos admirá-lo, mas poderemos dizer que ele é um dos nossos?

Porque nos orgulhamos tanto de Cristiano Ronaldo quando ele é precisamente um caso de notável talento único e superação individual da sua condição social original? (É curioso que os indivíduos mais admiráveis são precisamente os que se distinguem das suas comunidades superando-as, notabilizando-se inúmeras vezes apesar delas, para além delas ou contra elas, muito mais do que como expoente delas.)

Todos vibrámos com a vitória da nossa seleção no campeonato da Europa de futebol como outros vibram com os seus clubes. São formas de pertença e recompensa emocional absolutamente legítimos. Excelentes substitutos do tribalismo guerreiro e da guerra.

Ver uma comunidade inteira feliz em festa por causa de um golo e de uma vitória num jogo de futebol (e que jogo e que vitória fabulosa!) ou de uma canção num festival da Eurovisão (e que canção, intérprete e vitória fabulosa!) são momentos de alegria que não se esquecem.

Inscrever alegria na história de uma comunidade é sempre digno de louvor (desde que não seja a alegria fanática da multidão de um qualquer fascismo).

Mas para lá da alegria da festa, para lá do infantil orgulho da vitória na competição (que é pateta e patético se levado demasiado a sério), o que nos fica como benefício para a comunidade, para lá da memória da alegria?

De que me adianta ter ganho uma taça de futebol se o país onde eu vivo festeja o golo do futebolista negro e da equipa mestiça (e que equipa extraordinária de extraordinários brancos, negros, mulatos, ciganos!) mas continua a excluir ou a hostilizar comunidades negras e ciganas e a negar-lhes as mesmas oportunidades do resto da população.

De que adiantou ser continuidade de um povo que fez a primeira globalização e pela primeira vez ligou o mundo circum-navegando-o se esse mesmo povo se encarcerou nas trevas de uma inquisição que fechou tudo o que a ciência do mar tinha aberto? (E mais tarde, no século XX de todas as convulsões e libertações, de novo o país se encerrou num inverso triste isolamento só tardiamente desfeito numa certa manhã feliz.)
O que me interessa é aquilo que hoje, no presente que somos, como comunidade, devemos e escolhemos querer conquistar? O que deve realmente orgulhar-nos como portugueses?

Guardemos os triunfos individuais para as celebrações biográficas e para a inspiração de futuras narrativas. O que me interessa é aquilo que a nós como comunidade nos possa singularizar pelo que conseguimos em sociedade realizar.

Por exemplo, sermos hoje um povo pacífico, tolerante e aberto (mas somos? Podemos dizer que estamos a melhorar neste aspecto?) Termos um sistema político democrático e pluralista, liberal e em que o Estado social procura garantir educação, saúde, justiça e segurança para todos sem exceção (estamos nos limites mínimos desta garantia, conseguiremos melhorar, reduzir as desigualdades?). Termos sabido preservar a natureza e o ambiente e investir nas energias renováveis e no desenvolvimento sustentável (será que estamos efetivamente a fazê-lo?). Termos uma vivência cada vez mais vibrante, criativa, cosmopolita e aberta ao mundo.

O que mais nos orgulha em ser português hoje?

É dizer que ser português é poder ser europeu, africano, americano, ser do sul, ser do oeste, ser do mundo... É poder dizer que seremos tanto mais portugueses quanto mais formos abertos aos que possam vir e nos possam ampliar em vez de diminuir, aos que nos acrescentam, ao que se nos soma. Orgulho de ser português pode ser orgulho de saber juntar, com brio e pundonor. Nesse pódio eu quero estar com orgulho por todos.

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A América foi fundada também por angolanos

Faz hoje, 25 de agosto, exatos 400 anos que desembarcaram na América os primeiros negros. Eram angolanos os primeiros 20 africanos a chegar à América - a Jamestown, colónia inglesa acabada se ser fundada no que viria a ser o estado da Virgínia. O jornal The New York Times tem vindo a publicar uma série de peças jornalísticas, inseridas no Project 1619, dedicadas ao legado da escravatura nos Estados Unidos. Os 20 angolanos de Jamestown vinham num navio negreiro espanhol, a caminho das minas de prata do México; o barco foi apresado por piratas ingleses e levados para a nova Jamestown. O destino dos angolanos acabou por ser igual ao de muitos colonos ingleses: primeiro obrigados a trabalhar como contratados e, ao fim de alguns anos, livres e, por vezes, donos de plantações. Passados sete anos, em 1626, chegaram os primeiros 11 negros a Nova Iorque (então, Nova Amesterdão) - também eram angolanos. O Jornal de Angola publicou ontem um longo dossiê sobre estes acontecimentos que, a partir de uma das maiores tragédias da História moderna, a escravatura, acabaram por juntar o destino de dois países, Angola e Estados Unidos, de dois continentes distantes.