Natal

Começou. Está por todo o lado, o espírito de Natal. Natal não é quando um homem (ou uma mulher) quiser. É mesmo em dezembro. Mesmo que um homem (ou uma mulher) não queira(m). Eu gosto. Cada vez mais não gosto do consumismo desenfreado, histérico, em overdose.

Cada vez mais não gosto da hipocrisia natalícia piedosa de sazonais boas intenções. Mas da festa profana das famílias celebrada num palimpsesto mitológico que inclui a mensagem de Cristo, a fábula do Pai Natal, o universo Disney e seus derivados, os cânticos religiosos, os hits e o que as diferentes camadas de comunicação e marketing das inúmeras narrativas que no Natal convergem e nesse imaginário se inscrevem como numa bíblia multimédia contemporânea - eu não desgosto.

No tempo em que eu era criança, adorava. As prendas nos sapatos à meia-noite, a consoada com a família toda, as manhãs a brincar com os brinquedos novos, a programação da televisão, a árvore enfeitada, o presépio, toda a fantasia a que tinha direito...

No almoço de Natal havia sempre um momento que não falhava. A discussão sobre religião. Começava sempre da mesma maneira. O meu cunhado, católico praticante (o que deveria ser uma redundância mas não, parece que se pode ser católico sem praticar), depois de assistir pela televisão à missa papal do Vaticano, comentava a mensagem do Papa num tom elogioso.

Havia uma pausa, de vários segundos, e depois o meu pai dizia uma frase, sempre a mesma (ao fim de anos, o resto da família já se virava para o meu pai antes de ele falar): "Se Deus existe não percebo como há tanta gente a sofrer."

Nova pausa, a família virava-se para o meu cunhado, ele respondia: "O senhor Silva não percebe a essência da religião católica..." E depois explicava a essência.

O meu pai respondia e aquilo continuava, como cantilena de Natal: "Mas se sofreu para nos salvar porque é que nós não nos salvamos, porque é que há tanta gente a sofrer?..." e etc.

Acabava com a total incompreensão das partes, mas sempre com uma resmunguice risonha, plena de bonomia e verdadeiro espírito natalício.

Aquela era a nossa oração de Natal. A que melhor louvava a nossa família.

A dada altura, lembro-me de me aperceber de que o meu pai ateu me parecia afinal mais cristão do que o meu cunhado praticante. E não era porque o meu pai dizia que Cristo era afinal o primeiro socialista (se fosse brasileiro, hoje seria insultado e mandado para a Venezuela, como no sketch dos Porta dos Fundos). Era porque, como canta (São) Caetano, "a vida é real e de viés".

Não me lembro de como me fui desencantando com o catolicismo e de como fui deixando de acreditar na sua mitologia

Fui educado no catolicismo, pelo lado da minha mãe, fiz a primeira comunhão. Mas, logo depois, afastei-me. A variante católica do cristianismo não só nunca me sensibilizou como, em certos aspetos, me ofende. Desde logo, com a chocante contradição entre a pompa e a ostentação do poder do Vaticano e o despojamento da mensagem cristã. Mas sobretudo pela imposição do conceito de pecado e pela continuada repressão do corpo e das ideias - em suma, da liberdade.

Como, aliás, não me identifico com nenhuma das outras grandes religiões instituídas (ou com as inúmeras seitas).

Todas me parecem muito mais formas políticas de poder sobre as pessoas e os povos do que sistemas de relação com a transcendência, o divino ou a espiritualidade.

E depois é uma questão mitológica. A mitologia bíblica parece-me cada vez mais primária e bafienta, desinspiradora. Sobretudo na sua versão hollywoodesca simplificada.

No Natal há sempre os filmes bíblicos, hagiografias várias de Cristo e dos seus apóstolos (para além do Música no Coração e mais tarde do Sozinho em Casa, leituras canónicas a acrescentar ao palimpsesto natalício). O meu filme bíblico preferido é A Vida de Brian dos Monty Python. A história de um tipo que nasceu no mesmo dia e à mesma hora que Cristo, só que no estábulo ao lado. E que, 33 anos depois, passa a vida a ser confundido com o Messias. O evangelho segundo os Monty Python.

Sou devoto fervoroso desse filme e da sua mensagem. O cântico final do filme tornou-se um dos salmos da minha vida: Always Look on the Bright Side of Life ("Olha Sempre para o Lado Brilhante da Vida", cantado no filme por um coro de crucificados, entre os quais Brian e um outro que nos parece, digamos, familiar).

Não há melhor filme de Natal ou de Páscoa, para mim. Mas nunca passa em canal nenhum nessas épocas. Aliás, em época nenhuma.

Não sei ao certo quando deixei de acreditar no Pai Natal, nem me lembro de como senti essa perda de inocência. Também não me lembro de como me fui desencantando com o catolicismo e de como fui deixando de acreditar na sua mitologia.

Há um belíssimo texto de Natália Correia intitulado Exórdio que diz tudo: "Não jurarei que qualquer deus exista. Só sei que é grosseiro viver sem deuses. Porque mais importante que os deuses existirem é acreditarmos neles."

É paradoxal eu ser ateu e ficcionista. Na verdade, sou um ateu místico.

"Verdade de todos os deuses serem verdadeiros; e não o deus totalitário da verdade única tenazmente administrada pelo fanatismo dos monoteístas (...) Porque nenhum é sem o outro e todos são o dom de pensarmos todos os pensamentos, de sentirmos todos os sentimentos e a beleza de gozarmos todas as belezas. Não procures mais explicações.

Os deuses são da poesia."

Feliz Natal.

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