Nas nuvens

Diz-se do nefelibata que ele não tem o sentido da realidade, que está longe da realidade, que anda nas nuvens. Há as nuvens da meteorologia, formas concentradas de gotas de água provenientes da condensação do vapor de água existente na atmosfera: diversas, variáveis, sempre a passar, em suspensão no plano aberto do céu.

Podemos ficar horas - num miradouro inesperado duma esquina alta da cidade, numa clareira sob um céu aberto ou no ângulo apertado de uma janela de avião - a vê-las a transformar-se, umas nuvens noutras nuvens.

Existe uma sociedade para os amantes de nuvens, a Cloud Appreciation Society, que realiza encontros para observar nuvens e coleciona e expõe imagens e filmes de nuvens em todo o mundo. A sociedade tem um manifesto que defende que as nuvens são a expressão poética da natureza. A mais igualitária forma dessa expressão, aberta a todos, sem exceção.

A Sociedade de Apreciação da Nuvem acredita que as nuvens são para os sonhadores, que a sua contemplação é um benefício para a alma e incita-nos a olhar para as nuvens e a maravilhar-nos com a sua beleza efémera. Os seus membros têm o direito a receber uma imagem de uma nuvem diferente todos os dias, logo de manhã.

Lembra-me aquele verso da canção do Paul Simon (The only living boy in New York), "I get the news I need on the weather report" (Tenho as notícias de que preciso no boletim meteorológico). Da mesma canção em que se diz "Half of the time we"re gone but we don"t know where and we don"t know where" (Metade do tempo nós partimos mas não sabemos para onde e não sabemos para onde).

Os balões são uma invenção destinada a rimar com as nuvens. Dos pequenos balões coloridos ligados por um cordel a uma criança, aos grandes balões flutuantes que nos levam pelos céus ao sabor dos ventos - formas silenciosas de desafio da gravidade, levando-nos com sustentável leveza a suspender, pelo tempo de um voo, a nossa inevitável natureza terrestre. Tal como os sonhos fazem com a realidade.

Há um filme maravilhoso sobre os balões e a sua metáfora com um título perfeito: Up. Um filme de animação da Pixar, realizado por Pete Docter.

Filme para todas as idades, em que a personagem principal é um velho vendedor de balões solitário e triste que, com a companhia involuntária de um miúdo, realiza por fim o seu sonho de aventura de criança.

Na cena emblemática do filme, vemos a velha casa do protagonista a libertar-se do chão e a elevar-se pelo ar, ligada por inúmeros cordéis a uma quantidade enorme de balões coloridos que literalmente a levam pelos céus com ele lá dentro.

A Vida no Céu é o título de um romance de José Eduardo Agualusa que vagueia por todo este território flutuante povoado de nefelibatas amadores.

É uma história de aventuras que começa numa época pós-diluviana em que os homens passam a viver em grandes dirigíveis-cidades suspensas nos céus e nos seus subúrbios de balões ligados uns aos outros por redes improvisadas. Apresentando-se como um "romance para jovens e outros sonhadores" é uma alegoria que vira do avesso a dualidade do céu e da terra, tal como a da vida e dos sonhos.

Falar hoje em nuvens remete-nos para as nuvens de armazenamento de informação, ou a nuvem, rede global de servidores.

É uma metáfora impessoal, de onde a presença humana está ausente. Imaginamos a quantidade de informação a ser gerida por inteligência artificial, sem intervenção e erro humanos. Sem guardiões. Nem a sombra de um anjo sequer.

No filme As Asas do Desejo, de Wim Wenders, os anjos sobre o céu de Berlim velavam pelos mortais, ouviam os seus pensamentos e gostavam de deambular pela grande biblioteca onde acompanhavam as pessoas nas suas diversas leituras, guardiões do saber na grande escuta do mundo.

O filme passava-se numa Berlim sombria, cinzenta e pesada ainda dividida pelo muro, mas ainda não globalizada, interconectada e digital, como nos dias de hoje.

Poderemos ainda hoje contar com os anjos sobre os céus da Europa? Com a sua silenciosa vigília nos tempos conturbados que se avizinham? Com o nosso sonho deles a velarem pelo nosso destino de personagens de histórias que nos deveriam levar pela alegria e pelo sonho, mas que teimam em desvanecer-se em sofrimento e ruínas?

Penso nisso enquanto olho para as nuvens que vão passando e não sei se me distraem ou me solucionam.

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