Mundo Disney em revista (ou em revistinhas)

Devem ter sido das minhas primeiras leituras, aquelas que li com entusiasmo, prazer e (porque não dizê-lo?) fervor literário: as histórias da Disney. Ou, como se dizia, os Mickeys (ou os Donaldes ou os Patinhas). Eram quatro revistinhas de histórias aos quadradinhos, três semanais e uma mensal, salvo erro: Pato Donald, Zé Carioca, Mickey e Tio Patinhas. Respectivamente: cinco escudos, cinco escudos, sete e quinhentos e doze e quinhentos.

Versões brasileiras do universo Disney, editadas pela Abril e distribuídas em Portugal em todos os quiosques, tabacarias e papelarias.

A minha mãe costumava comprá-las na tabacaria do senhor Antunes, na Rua General Taborda, a nossa rua, em Campolide. Sempre nos dias certos, eu ia com ela e começava logo a lê-las ali.

De vez em quando, saíam uns especiais, temáticos, mais caros, e os manuais (lembro-me sobretudo do Manual do Escuteiro-Mirim) de capa dura, muito mais caros (cinquenta escudos?), era preciso esperar por ocasiões especiais, pedíamos ao senhor Antunes para nos guardar, ele guardava.

Tenho a imagem da pequena tabacaria na minha memória, a cara dele (era muito parecido com o Fernandel, um actor francês famoso na época), a mulher dele estava lá sempre com ele (não me lembro da cara dela, nem do nome).

Estou a ver agora, imagem desfocada na minha cabeça: a minha mãe (nova, como nos retratos desse tempo, não sei se estou a ir buscar a imagem à memória ou à batota dos retratos), a Fernanda, mãe do Flávio, meu primeiro amigo; lá está ele, comigo na recordação (haveria de morrer aos cinquenta e pouco, a meio do verão, com um ataque de coração - "temos de combinar o nosso jantar depois das férias", foi a última coisa que lhe disse ao telefone no dia do último aniversário dele), os dois a lermos as histórias (o Peninha era o nosso personagem favorito)...

Estou a ver como se tivesse sido agora, há pouco tempo, mas foi há muito, será que foi há tanto tempo assim?... O tempo é como o quadradinho que não existe entre o quadradinho desenhado e o outro quadradinho desenhado a seguir: o quadradinho mais importante é o que não se vê.

(Porque é que há coisas de que nos conseguimos lembrar tão bem, coisas sem importância nenhuma, pormenores apenas, sem grande sentido, e outras que foram tão importantes para nós e de que nos queremos lembrar mas não nos lembramos?...)

Eu guardava as revistinhas por colecções e relia-as vezes sem conta. Eram - com as construções da Lego, os carrinhos da Matchbox e da Dinky Toys e os bonecos dos gelados da Olá e da Rajá - as referências do meu mundo sonhado no quarto da infância.

Depois havia os filmes, as fitas (como dizia sempre com entusiasmo o meu vizinho, o senhor Diamantino, que trabalhava na Lusomundo e nos arranjava bilhetes de borla). Os filmes da Disney eram uma celebração no Natal ou na Páscoa, todo um ritual, o ecrã gigante do São Jorge, do Tivoli, do Éden.

O Livro da Selva é capaz de ter sido dos primeiros que vi. Não me lembro do Bambi, mas lembro-me de me dizerem que chorei muito com a morte da mãe do Bambi.

Os desenhos animados da Disney não costumavam passar na RTP. Lembro-me, sim, dos da Warner Bros.: os do Pernalonga (Bugs Bunny), Daffy Duck, Road Runner e BeepBeep e etc., com o "That"s all folks!" no final. Prodígios de nonsense, anárquicos, violentos e libertadores de todas as energias criativas capazes de fazerem, desfazerem e refazerem personagens, como se nada fosse, em mil e uma formas animadas.

Podíamos vê-los em pequenas doses, um de cada vez, no intervalo dos programas (se calhar para acertos de emissão) e, sobretudo, no final do Cartaz TV de Jorge Alves, um programa semanal que apresentava a programação da semana seguinte e terminava sempre com um muito esperado desenho animado da Looney Tunes, Merrie Melodies ou seus derivados.

Depois do 25 de Abril, estreava na RTP o Cinema de Animação de Vasco Granja, no qual podíamos ver os desenhos da Pantera Cor-de-Rosa ou a inovadora obra do realizador canadiano Norman McLaren, mas sobretudo a animação dos países de leste - filmes feitos com materiais pobres, plasticina, colagens de papel recortado, cordéis e dedais, tampas de garrafas e bocados de lixo diverso... Animações experimentalistas de produção artesanal com mensagem de paz e amizade no mundo, que terminavam com a palavra koniek, (palavra que quer dizer fim em polaco, mas que para muitas crianças queria dizer finalmente).

A seguir ao 25 de Abril, no período do PREC, houve uma tentativa de banir, ou pelo menos evitar, os desenhos animados americanos e os da Disney em particular. (Walt Disney era um anticomunista militante e o Tio Patinhas era o exemplo acabado do capitalista selvagem).

Foi na mesma época em que os livros de História do liceu também mudaram. Em 1974 aprendíamos a história dos grandes feitos dos portugueses. Uma história de heróis e suas conquistas, de reis e batalhas gloriosas. Datas e nomes que tínhamos de saber de cor.

No ano seguinte, 75, os nomes desapareceram todos. Não havia grandes feitos. Havia forças sociais, crises económicas e movimentos políticos colectivos. Já não havia heróis.

Não durou muito. No entretenimento, não durou quase nada. Na escola, um pouco mais.

O mundo Disney regressaria mais forte do que nunca (a ambos os campos de actividade).

O Império Contra-Ataca sempre. E a Disney acabaria por vir a integrar outras marcas como, precisamente, a LucasFilms, a Marvel (até sempre Stan Lee!) ou a Pixar (a Disney contemporânea, de facto, que tem produzido um número impressionante de obras-primas de animação: de Toy Story a Up, de Inside Out a Coco).

Tudo começou há 90 anos com um rato. Que nem sequer foi desenhado por Walt Disney, mas sim por Ub Iwerks, seu parceiro e sócio inicial; nem sequer foi baptizado por Disney (era para ser Mortimer), mas sim pela sua mulher, Lillian Bounds.

Mas a ideia de o fazer, a convicção e toda a direcção do processo criativo era de Walt, que era simultaneamente um génio criativo e empresarial. Ele desenvolveu e estendeu as fronteiras do cinema de animação como nenhum outro antes dele; criou ou recriou as histórias que marcaram gerações e gerações de crianças e que, com a marca Disney, se tornaram universais; e inventou o merchandising moderno, incluindo o conceito de parque temático.

A força de um império é a força das suas armas de guerra, mas, de forma mais perene, a força da sua mitologia.

O século XX é o século americano pela força da mitologia americana tal como veiculada, primeiro pelo cinema, depois pela televisão e hoje, em pleno século XXI, em multiplataformas, dos canais às aplicações, dos jogos à realidade virtual imersiva, pelas suas majors de conteúdos, presentes em todos os cantos do planeta.

Entre elas, talvez a mais poderosa, a Disney. Um gigantesco dispositivo de produção de mitologia. Uma arma poderosa. Ao contrário das armas nucleares, esta deve ser usada muitas vezes por muita gente para contar muitas histórias muito diferentes umas das outras. Só assim evitaremos que uma história se sobreponha às outras.

A crónica acaba com a imagem num quadradinho de mim e do Flávio em crianças a lermos as revistinhas na tabacaria do senhor Antunes.

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