Futuro

Olho para os meus filhos e lembro-me da canção do John Lennon, Beautiful Boy.

"Close your eyes/ Have no fear/ The monster is gone/ he"s on the run and your daddy"s here/ Before you go to sleep/ Say a little prayer/ Everyday in everyway/ Is getting better and better" (Fecha os olhos/ não tenhas medo./ O monstro foi-se embora/ Fugiu a correr e o teu papá está aqui./ Antes de adormeceres/ Diz uma pequena oração./Todos os dias de todas as maneiras/ Está a ficar melhor e melhor).

É uma canção que ele escreveu para o seu filho Sean. Foi incluída no seu último álbum, Double Fantasy, editado no ano em que morreu.

"Before you cross the street take my hand/ life is what happens when you"re busy making other plans"(Antes de atravessares a rua pega a minha mão/ A vida é o que acontece quando estás ocupado a fazer outros planos).

Há uma ironia trágica nesta frase, quando pensamos que Lennon seria assassinado muito pouco tempo depois.

Fascina-me o futuro e, como toda a gente, tenho mil e um planos e fantasias sobre o que está para vir. Dos mundos de possibilidades que projetamos qual acabará por ser o mais próximo do nosso?

Procuramos adivinhar, como se o futuro fosse uma memória esquecida. Mas tudo muda a cada instante, o que era dado como certo é apagado como os números da roleta onde a bola não parou.

Daqui a nada, quem sabe, um cisne negro esvoaçará no lago. Ao virar da próxima esquina podemos encontrar o que já não procurávamos, um lance de dados poderá e não poderá abolir o acaso e o destino passará "como uma pluma caprichosa/ passa pelos olhos de um gato" no poema de O"Neill.

Há muitos anos escrevi um texto sobre um futuro que era assim:

"Vou morrer no dia 6 de outubro de 2007.

Restam‑me nove verões. Não sei quantas luas cheias vou ver das menos de cem que me faltam.

Vou perder o meu pai, precisamente daqui a três anos, como a minha mãe me vai perder a mim na data que escrevi.

Uma amiga minha vai enlouquecer não se sabe exatamente quando, porque nunca se sabe exatamente quando, se calhar já começou...

Há um amigo meu, eu sei quem, que num fim de semana frio de inverno vai ter um acidente de automóvel e morrer.

Vou conhecer uma rapariga daqui a dois verões com quem vou fazer uma viagem ao nordeste brasileiro.

Terei um filho que deixarei com seis anos e uns dias.

Numa noite de grande solidão, um amigo que ainda não conheço vai dizer-me uma coisa que eu nunca vou esquecer.

Ainda vou rir muito. Não sei dizer ao certo quantas vezes vou chorar.

Ainda vou ver a chegada a Marte, sobreviver ao terramoto de Lisboa, saber da guerra na China e maravilhar‑me com a inexplicável estrela colorida brilhante num ponto equidistante entre o Atlântico e o Pacífico.

Não escreverei o livro que sempre quis escrever.

Uma música que ainda não foi composta há ‑de ser a música que eu estarei a assobiar junto ao mar quando tiver o ataque fulminante.

Anseio tanto o meu passado como tenho saudades de cada dia que ainda não vivi."

Era um texto sobre o porvir como se dele tivéssemos memória. Como se a memória projetasse do futuro um filme intermitente, luzes e sombras sobre o acontecimento que somos nós.

Tudo uma ilusão do tempo, o grande prestidigitador.

Volto aos meus filhos e à canção do Lennon que embala os meus sonhos do presente.

Quanto mais envelheço mais me encanta a vida que acontece no aqui e agora.

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Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.