Continuar em vez de começar

Nunca se recomeça. Ou se começa ou se continua. Começar outra vez é começar outra coisa. Um recomeço é uma contradição nos termos. Um recomeço não é um começo, é uma continuação. Este foi o começo da crónica. Se quiser recomeçar tenho de apagar tudo e voltar a começar. Para os leitores passa a ser esse o começo, para mim é um novo começo - ou seja, uma continuação.

No início de todos os anos há sempre esta vontade de começar de novo, valoriza-se muito o começo, ninguém valoriza a continuação. "Este ano não quero começar nada de novo, quero continuar o que já comecei" - ninguém diz isto.
Há uma obsessão hoje com as start ups, a palavra dos empreendedores para começo.

Se dissermos que vamos criar uma empresa para fazer um novo negócio ninguém liga. Mas se dissermos que vamos fazer uma start up é logo cool e as pessoas ficam interessadas. E podemos ser CEO da start up e fazer parte de um hub de start ups (que é muito melhor do que criar uma nova empresa, ser patrão e alugar um escritório numa zona de escritórios).

A start up é muito mais... falta-me a palavra... sexy, isso: muito mais sexy.

A esmagadora maioria das start ups não tem sucesso e fecha. Não tem problema nenhum. Pior seria se fosse um negócio de uma empresa. Se for uma start up, fecha-se e começa-se outra. Sem drama. Há quem viva de fazer start ups toda a vida.

Devíamos estender este conceito a outras áreas. Às artes, por exemplo. Nas artes ninguém investe grande coisa. Tirando os artistas.

Também há os apoios às primeiras obras. Mas geram sempre grandes protestos: "Dinheiro deitado à rua para fazer experimentalices, em vez de investir no património". Deviam chamar-lhes start ups de teatro ou dança ou cinema. E ninguém os criticaria. Poderia acontecer que na esmagadora maioria dos casos o projecto não tivesse sucesso, mas nesse caso acabava e faziam outro. Com a vantagem de que nas artes não ter sucesso pode ser muito valorizado. Desta forma também ninguém viria mais dizer que o dinheiro das start ups devia ir antes para as empresas antigas ou para as empresas museu.

Deviam experimentar mudar a terminologia toda (o naming). Passar a falar de acting strategies, dance design, movie concept, etc.
Ficava logo tudo muito mais... falta-me a palavra... sexy, isso: muito mais sexy.Julgo que seria muito mais eficaz do que perder tempo com as reivindicações do um por cento para a cultura. Aliás, a exigência passaria a ser antes a de mais investimento na nova economia cultural: new cultural concept business models investment ou assim. E todos apoiariam. Só vantagens.

Eu sou muito favorável aos apoios às primeiras obras. Também sou muito favorável ao apoio às últimas obras: dar um apoio com a condição que seja a última obra. As finish ups. Também dava para fazer hubs. Fica a sugestão. A verdade é que há um exagero de apoio às primeiras obras. Fazer uma primeira obra não é difícil. Difícil é fazer a segunda e a terceira.

Aquele tempo entre a obra revelação e a morte é que é difícil para os artistas. O tempo que medeia entre ser um novo autor genial e ser um grande autor do nosso tempo morto. Aqueles cinquenta anos ali do meio é que custa a passar. Para esses é que devia haver investimento. E não só nas artes e no empreendedorismo. Na vida, em geral.

Nem start nem restart ups: Continue ups. Ficava logo tudo muito mais... falta-me a palavra...

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