Brasil

Não há nada mais contrário à alegria do que o fechamento onde havia abertura. O afunilamento onde havia amplidão. O maniqueísmo primário onde havia o esplendor da diversidade. Como é possível que esteja a acontecer o que está a acontecer ao Brasil, tal como o que aconteceu aos Estados Unidos da América tenha acontecido e continue a acontecer?

A América sempre foi como uma amplificação da Europa, uma utopia de um novo mundo acrescentado de uma escala maior.

É certo que o sonho americano foi construído em cima do pesadelo da exterminação indígena e da escravatura em massa. A norte e a sul, em larga escala, a amplificação de uma história europeia de conquista e destruição.

Mas os americanos fizeram um longo caminho para chegar a uma sociedade mais justa e democrática onde os sonhos derrotassem o pesadelo, e a ideia de um futuro melhor pudesse fazer esquecer o terrível passado.

Estava nesse caminho o Brasil, resgatado da ditadura dos generais. Em 1985 como em 1958, o Brasil, outra vez, país de futuro.

Como chegámos aqui, a este retrocesso, o futuro a desmoronar-se num presente sinistro?

As ruas e o convívio social feitos uma batalha primária de rede social a céu aberto: a irracionalidade, o extremismo, a violência. A perversa e manipuladora justicialização da política, a degradação moral dos partidos e dos políticos, a corrupção dos media transformados em instrumentos de desinformação, propaganda e campanha...

O que aconteceu, o que está acontecendo, Brasil?

"Ok, ok, ok, ok, ok, ok/ Já sei que querem a minha opinião/ Um papo reto sobre o que eu pensei/ Como interpreto a tal, a vil situação" - responde Gilberto Gil num desencantado canto - "Penúria, fúria, clamor, desencanto/ Substantivos duros de roer/ Enquanto os ratos roem o poder/ Os corações da multidão aos prantos"...

O Brasil contra o que de melhor o Brasil nos deu. Chico Buarque insultado, ameaçado, agredido. Marielle Franco assassinada. E tudo, todos os dias num crescendo em que "A maior parte adere ao coro irado / Dos que me ferem com ódio e terror "...

As causas são as de sempre: a cupidez desmedida, a indestrutível corrupção, a desigualdade extrema e a pobreza - que geram a violência.

Um país que tem a Amazónia, a Mata Atlântica, paraíso na Terra, uma das mais belas cidades do planeta, cercada por um subúrbio de favelas, blindada de violência onde não se pode passear mais sem o risco de se ser assaltado ou assassinado.

Cidade já não maravilhosa, onde o deleite foi substituído pelo medo.

Onde a garota de Ipanema ainda passa, mas a sua canção já não tem o doce balanço/ caminho do mar; e o menino do Rio sabe agora que o Hawaí não é ali e precisa como nunca que Caetano cante para que Deus o proteja.

A desigualdade e a forma como ela determina a estrutura social brasileira estão na base da explicação para o que está a acontecer. Mas essa estruturação tem um enraizamento mais complexo do que possa parecer.

O filme Que Horas Ela Volta, de Anna Muylaert, retrata exemplar e subtilmente a forma como a realidade classista brasileira está sedimentada e expõe muito das contradições da classe média-alta (e da intelligentsia) brasileira e do seu sistema, quase diria, de casta.

O filme mostra como a vinda da filha da empregada e babá da casa de uma família da classe média-alta brasileira vem perturbar a "ordem natural das coisas". A rapariga vem estudar Arquitetura e ao frequentar a casa onde trabalha a mãe e acabar por lá ficar a viver, vai pondo em causa a situação e, literalmente, o seu lugar e o lugar da mãe naquela organização social, laboral e familiar. Quando se questiona a aparente harmonia do "Você é quase da família" e se torna evidente a hipocrisia social, por exemplo, pela constatação das condições em que vive a empregada (quartinho pequeno, mal ventilado), a convenção estala e a ferida social fica exposta.

Este filme explica, em tom menor, muito desse problema maior do Brasil: a desigualdade.

Volto ao Gil: "Sei que não dei nenhuma opinião/ É que eu pensei, pensei, pensei, pensei/ palavras dizem sim, os fatos dizem não".

Os factos dizem não. Mas as palavras dizem sim. Como quando dizem: "Ele não".

As palavras dizem sim. As palavras da nossa língua à solta, aberta, como as vogais são abertas em português do Brasil, da nossa língua plural, mestiçada, misturada, cantada e dançada...

Contra toda a realidade dos factos que dizem não, que são a negação do Brasil que sonhamos, temos o melhor que o Brasil inventou: a diversidade mestiçada da sua cultura. E os extraordinários expoentes dessa cultura. A cultura brasileira que, mais do que nunca, precisamos profanamente de louvar, celebrar e cantar - a vibrante vitalidade desse património que o Brasil deu e continua a dar ao mundo.

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