As palavras (são e) não são como as cerejas

Ah, as cerejas. As cerejas, fruto plural, as cerejas, suculentas com o seu suco lento, as breves cerejas bravas, bravias, a sua vocação de fruto numa estação de flores. As cerejas na primavera, estação onde hoje quase ninguém para, quase ninguém repara, no seu caminho desejoso do verão.

As cerejas contemporâneas do florir dos jacarandás, do lilás que a flor dos jacarandás traz, uma bebedeira de cor a manchar a cidade. As praças e ruas, que conhecemos de cor, lilasmente floridas sob os céus azuis que se estendem pelo cair das noites que hão de ser de junho antes de serem de verão.

O sabor da cereja e a visão da flor do jacarandá, uma celebração do agora no agora.

O contrário da linguagem que é sempre uma celebração do antes ou do depois. Do que não está. Ainda que não esteja por pouco.

A palavra cereja evoca a cereja mas não é uma cereja. "Isto não é uma cereja", como dizia Magritte sob(re) o desenho de um cachimbo, que não era um cachimbo.

Na literatura, como no cinema, os anjos invejam, desejam, ter um corpo como os humanos, para poderem sentir, saborear, cheirar, morder.
Vagueiam suspensos pela literatura dos lugares na sua invisível vigília das almas temporárias que habitam os corpos. Anjos para sempre ancorados à escuta dos destinos secretos dos humanos, que é o nome que eles dão ao errar de cada um de nós pelos múltiplos jardins das histórias.

Sonharão os anjos com o sabor das cerejas? Sonharão eles com o sabor que nunca poderão saber? O saber de saborear.

Pessoa sonhava na voz de Álvaro de Campos "sentir tudo de todas as maneiras", ser um corpo múltiplo de sensações, "realizar em si toda a humanidade de todos os momentos".

Ou na existência paradoxal de Alberto Caeiro: "Creio no mundo como num malmequer, / Porque o vejo. Mas não penso nele (...) Eu não tenho filosofia: tenho sentidos..."

Metafísico pastor, sonhando ser aquilo que a sua linguagem, no momento em que ele fala, nega.

O sonho do anjo é o sonho último da linguagem: ser o real do real.

Das cerejas, como das flores dos jacarandás, no resto do ano, quando nem umas nem outras há, ficamos outra vez com o seu depois e com o seu antes.

Um ano inteiro a desejá-las de novo ou a lembrar o seu sabor, na companhia dos anjos da linguagem.

Dizem que as nossas memórias dependem da capacidade de inscrição que têm no nosso cérebro, e que essa capacidade depende do número de conexões que cada determinada memória despertar.

Se eu tenho uma memória de cerejas associada, digamos, a uma memória de Lisboa e a outras de maio, jacarandás, namoros, noites de verão, juventude, liberdade... cada uma delas uma memória de um episódio associado a cerejas, é possível que venham a ser memórias duradouras porque cada vez que se recorda um desses tópicos, cada vez que se ilumina uma dessas informações arquivadas, as outras possam ser por associação lembradas e essa memória composta seja ativada e fortalecida.

Contudo, ao ativarmos a memória das cerejas por essa outra entrada, que não necessariamente seja cerejas, digamos, por exemplo, jacarandás, ou juventude, estamos a acrescentar informação que vem alterar a memória inicial. A memória das cerejas passa a estar mais associada a jacarandás e juventude do que antes estava.

Ou seja, com o tempo, nunca se regressa à memória que se tinha, a memória é sempre uma revisitação de outro lugar, um pouco diferente do lugar onde antes tínhamos estado, a memória é sempre uma invenção.

As cerejas que lembramos são sempre umas cerejas que sonhamos lembrar. Saboreá-las é sempre irrepetível. É sempre outro o tempo das cerejas depois do tempo das cerejas.

Revivê-lo é impossível. Tão impossível como viver depois o já do jacarandá.

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