A grande pequena Grã-Bretanha

A série Little Britain, de Matt Lucas e David Walliams, que se estreou na BBC em 2003, havia um sketch recorrente em que a personagem Sir Norman Fry, primeiro-ministro, vinha fazer uma declaração à imprensa, acompanhado da sua mulher e dos seus dois filhos, um menino e uma menina, à porta da sua residência de campo.

A declaração era sempre lida com um ar solene e consistia num desmentido sobre a alegada participação de Sir Fry em práticas sexuais com prostitutos masculinos. O desmentido incluía sempre detalhes descritivos pormenorizados sobre os incidentes justificados por explicações absurdas e totalmente inverosímeis. Tudo isto perante o ar aprovador e o sorriso desmaiado (embora cada vez mais difícil de manter face aos detalhes) da sua esposa numa perfeita moldura conjugal com casa de campo inglesa em fundo.

A declaração terminava sempre com a frase: as far as I'm concerned, that is the end of the matter (no que me diz respeito, o assunto acaba aqui).

Esta negação da evidência faz lembrar o Brexit.

"A Grã-Bretanha não tem nada que ver com essa Europa, esse não é o mundo onde a Grã-Bretanha se revê. Não queremos pertencer a essa união forçada de países (onde por acaso entrámos nos anos 1970, nem queríamos) ...

Aliás, já na Segunda Guerra Mundial tínhamos lutado para defender a Europa do nazismo, mas o que queríamos era defender a Grã-Bretanha...

A Grã-Bretanha tem um muito respeitável passado como nação e império mundial, com laços com os outros países da Commonwealth, onde, nessa união sim, naturalmente, se inclui como o centro de onde tudo originou debaixo dos auspícios da coroa e de Sua Majestade a rainha ...

Nada que ver com esta Europa..."

Só que não. Esta moldura idílica conjugal já não convence nem as pessoas de sorriso desmaiado na moldura.

A Grã-Bretanha é um dos corações múltiplos da nossa Europa. E uma das mais vibrantes, enérgicas e inspiradoras nações criadoras da Europa contemporânea.

Com tudo o que a ela deu de cultura, arte, ciência, empreendedorismo, história, histórias, mitologia, exemplo, rebeldia, rasgo, tradição, humor...

Shakespeare e todo o teatro, a poesia, o romance. Os românticos. Dickens. Newton, Darwin. O futebol. A pop. Os Beatles. E todos os outros. Os muitos, muitos, muitos outros. O humor inglês. Os Monty Python. Os Monty Python, tão ingleses e tão europeus, já tão nossos.

Quem disse que a Grã-Bretanha é uma ilha não percebe de geografia contemporânea, de como somos todos parte do mesmo continente, nenhum país é uma ilha

Tudo isto é grande parte do que fez a Europa ser a Europa. E do que fez de nós, de mim, português do século XX para o século XXI, querer ser da Europa, desta Europa que os ingleses fizeram. Tanto ou mais quanto os gregos, ou os italianos, ou os franceses, os alemães, os holandeses, os espanhóis ou nós, os portugueses. Todos nós que mais do que de cada país somos hoje europeus, como dizem os dos outros continentes: "Vocês europeus", e só depois ingleses ou portugueses.

Como não perceber que vai ser cada vez mais assim? Se queremos sobreviver como portugueses, espanhóis, belgas, dinamarqueses, alemães... temos de nos unir como europeus. Ou se queremos ser identificados como lisboetas, portuenses, parisienses, barceloneses ou londrinos - temos de nos bater por ser europeus. É esse o nosso lugar como cidadãos do mundo.

Essa possibilidade de diversidade e democracia que nos permite atravessar as fronteiras de Lisboa a Berlim, Praga, Tallinn ou Atenas. Que nos possibilita ter os nossos filhos a estudar Erasmus, um nome, símbolo e acrónimo que é todo um programa para um futuro melhor: European Region Action Scheme for the Mobility of University Students (Plano de Ação da Comunidade Europeia para a Mobilidade de Estudantes Universitários).

A Europa contra todas as ameaças, contra todos os terrorismos, tem de ser sempre liberdade, circulação, mobilidade, abertura.

Que ideia é essa agora de voltar às barreiras, às fronteiras, ao que nos isola como ilhas absurdas, fora do tempo?
Quem disse que a Grã-Bretanha é uma ilha não percebe de geografia contemporânea, de como somos todos parte do mesmo continente, nenhum país é uma ilha.

Podemos tirar a Grã-Bretanha da Europa, mas não podemos tirar a Europa da Grã-Bretanha. E vice-versa.

As far as we are concerned, that is not the end of the matter (no que nos diz respeito, o assunto não acaba aqui).

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'Motu proprio' anti-abusos

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?