Do brilho e da baba das palavras

Os EUA elegeram Obama, inspirados pelo "Yes we can", e depois Trump e o seu "Make America great again". Os slogans são sempre simples texto em complexo contexto. Seja na política, nas canções ou até no humor - onde não há slogans, há bordões, uma espécie de refrães dos sketches, que se popularizam pela repetição nestes, ou que ficaram populares porque as pessoas os repetem noutras circunstâncias.

Há um provérbio índio que Sophia citava, julgo que a propósito da palavra "revolução", usada por tudo e por nada no tempo a seguir ao 25 de abril de 1974, que dizia: "Uma palavra que está sempre na boca transforma-se em baba."

Há palavras que de tanto serem usadas, repetidas, marteladas, se gastam. Descolam dos seus sentidos, do seu contexto, perdem a sua alma. De tanto quererem dizer tudo, não querem dizer nada. São só som oco, garatuja, baba.

A palavra paixão, tantas vezes usada, por tudo e por nada, em má poesia, em más canções, em publicidade, vulgarizada, banalizada em baba.

Como poderemos dizer a palavra paixão com paixão se ela nos soa a um slogan comercial?

A nossa relação com a palavra paixão fica em crise ou em ironia (a figura de estilo que domina o nosso tempo hipermediatizado).

Alexandre O'Neill dizia que, em Portugal, a aventura acaba sempre na pastelaria.

Sonhamos as nossas vidas como se fossem poesia, mas a literatura dos dias acaba sempre em telenovela de pechisbeque. "A vida não imita a arte, imita a má televisão", já dizia o Woody Allen.

O paraíso das melhores intenções acaba no inferno do cliché.

A vida de cada um de nós à procura do que é cada um de nós é uma guerra contra o cliché (título de um livro de ensaios sobre literatura de Martin Amis).

O contexto é tudo. A verdade é que mesmo no meio dos bairros mais degradados pelo kitsch pode despontar um lugar só nosso onde podemos viver. Mesmo na mais kitsch das kitchenettes de telenovela pode acontecer um diálogo redentor.

Tão certo como os grandes poetas poderem escrever maus poemas, os maus poetas podem escrever um bom verso. Tão certo quanto um bom cantor poder ter uma canção pirosa, um cantor pimba pode escrever uma boa canção.

As canções são feitas para serem cantadas, têm refrães para serem repetidos, cantados por todos. Há canções que se tornam hinos, com versos que se transformam em bandeiras.

Será que de tanto serem cantadas e usadas em inúmeros contextos - sentimentais, políticos, comerciais -, as canções ficam gastas, nunca mais se conseguem ouvir, tornam-se insuportáveis?

Certo é que todas as canções têm o seu tempo, se as queremos fazer durar, temos de as preservar.

Há canções que são apropriadas por uma causa e ficam para sempre associadas a essa causa. Se for uma má causa, ou uma causa comercial, pode diminuir a canção. Se for o contrário, a canção fica maior. O E depois do Adeus, por exemplo, para sempre uma senha para liberdade de um país.

Nunca se sabe o que vai ser de um poema ou de uma canção quando se estreiam. Ficarão numa minoria de culto ou acabarão cantados como bandeiras ou hinos por multidões ou gerações? Inspirarão paixões individuais ao longo dos tempos ou paixões coletivas num dado momento histórico?

Tal como nunca sabemos quais os slogans políticos que vão ficar para a história antes de a história ser contada.
Eu vi nascer e vibrei "No intenso agora" de abril de 1974 com "O povo unido jamais será vencido", antes de a palavra "povo" ser baba na boca de muitos políticos que depois vieram.

Do relato do Maio de 68 em França e do seu radical idealismo - "Sejamos realistas, exijamos o impossível" - ficou o inspirador slogan que melhor o resume: "Sous les pavés, la plage" - debaixo dos pavimentos, a praia.

Os Estados Unidos da América elegeram Obama, inspirados pelo "Yes we can" e depois Trump e o seu "Make America great again". Os slogans são sempre simples texto em complexo contexto.

No humor não há slogans, há bordões, uma espécie de refrães dos sketches, que se popularizam pela repetição nos sketches, ou que ficaram populares porque as pessoas os repetem noutras circunstâncias.

Das comédias do cinema dos anos 1930 são hoje ainda populares muitas frases, como "Seu palerma, chapéus há muitos!" ou "Vamos embora, que isto é tudo uma aldravice" (ambas d'A Canção de Lisboa).

Um dos bordões mais inesquecíveis de Herman José foi uma frase que ele só disse uma única vez, pela boca de uma personagem que apareceu num único sketch. A personagem é a do pasteleiro José Severino, convidado por engano num talk show em que era suposto o convidado ser um radiotelegrafista e que, perante a situação, diz: "Quer-se dizer, eu é mais bolos, não é?..."

"Eu é mais bolos" ficou na cultura popular e hoje, passadas quase três décadas, é repetido em inúmeras situações.

É curioso como nunca se pode prever se um determinado bordão de uma personagem humorística vai ou não resultar.

Nos anos 1990, nas Produções Fictícias tivemos a inesperada sorte de ter escrito vários bordões, que ficaram populares em personagens feitas pelo Herman e pelo seu grupo de atores, ou mesmo pelas vozes dos bonecos do Contra-Informação.

Era uma época em que o humor se fazia muito com esses bordões, frases que as personagens repetiam e as marcavam. Mas, tal como hoje não se pode saber se um vídeo vai ser viral, também nessa altura não sabíamos se essas frases o seriam.

A verdade é que, para nosso espanto, frases como "Não havia necessidade" (De facto uma frase da mãe do Herman: "Ó filho, és um bom artista, não havia necessidade..."), "Este homem não é do Norte!", "Fantástico, Mike!" ou o muito improvável "Lets look at da traila" acabaram por se popularizar e ainda hoje são citadas fora de contexto. Quem diria?

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