Da estimação dos animais

A civilização. Neste tempo a que chamamos nosso, dizer "a nossa civilização", quer dizer o quê? A civilização humana, uma soma complexa de diversas civilizações diferentes ou mesmo aparentemente contraditórias que se foram sobrepondo e interligando ao longo dos tempos por combate, conquista, aniquilação, ou contaminação, miscigenação, aculturação - inúmeras formas de evolução que, mais do que nunca, hoje coexistem e têm, ainda que com diferentes graus de consciencialização, a simultânea perceção de que partilham um destino comum no planeta e que esse destino pode estar globalmente ameaçado por ações ou omissões que possam vir a ser cometidas por qualquer um em qualquer lado, mas com consequências para todos em todo o lado.

A consciência da cidadania mundial, prévia e mais decisiva do que qualquer outra (nacional ou regional), tem levado à criação de organizações como a ONU ou no âmbito desta, a UNESCO, onde se tem procurado de uma forma aberta, participativa e democrática, defender a espécie humana de si própria, da sua extinção.

Esse esforço tem sido feito no sentido de encontrar uma base comum de convivência que - defendendo a diversidade e a diferença dos povos e das suas culturas e idiossincrasias - estimule a consciência da interdependência de todos os povos num mundo globalizado (passe o pleonasmo) traduzindo-a em ações concretas que preservem este nosso mundo e a nossa existência nele da forma mais harmoniosa e duradoura possível.

É neste contexto que são criados instrumentos tão importantes como a Declaração Universal dos Direitos Humanos (em 1948), a partir da qual se podem declinar uma série de ações de evolução civilizacional da espécie humana determinadas e enquadradas pelo desígnio de um bem comum.

Ultimamente o tema do destino comum tem sido invocado sobretudo no combate à destruição da natureza, por ação direta da espécie humana e, nomeadamente, no âmbito das alterações climáticas.

Não há nada mais urgente e que mais exija de qualquer um de nós, mais do que uma tomada de posição, ações concretas.

Por mais preocupantes que sejam para os direitos humanos e as liberdades as recentes tomadas do poder por dirigentes nacionalistas, ditatoriais ou fascistas - e são terrivelmente preocupantes e por isso precisam de ser combatidos -, elas são, no imediato, muito mais ameaçadoras para o planeta e para a preservação do equilíbrio ecológico - para a vida natural - que pode sofrer danos irreversíveis, com efeitos catastróficos que poderão comprometer nos próximos séculos a vida futura neste planeta.

De facto o problema principal de Trumps e Bolsonaros (deles e dos grupos ultrapoderosos de que eles são só a marionete visível) é a sua estupidez predadora, a sua lógica de lucro imediato que comprometerá sem hipótese de reversibilidade muitas gerações futuras.

Falo de situações tão concretas e já em curso como a completa desflorestação da Amazónia ou da Indonésia (pelos madeireiros e pela indústria pecuária ou de extração do óleo de palma ao serviço de grandes marcas multinacionais) ou da poluição dos oceanos, nomeadamente com os despejos de lixo inorgânico e a inacreditável - e durante muitos anos indestrutível, quantidade de plástico, e microplástico que está a entrar na cadeia alimentar das espécies marinhas e acabará também por entrar na nossa. Para além, claro, do aquecimento global, causado pela emissão de gases de combustíveis fósseis, e agravado precisamente pela desflorestação e pela poluição dos oceanos.

Não faltam discursos, livros, documentários a alertar para os factos. Há uma cada vez maior tomada de consciência, mas não é suficiente.

Acontecerão mais catástrofes até que as pessoas acordem para a urgência do problema e exijam a sua prioridade nas agendas políticas.

Como sempre, quem vai sofrer mais vão ser os mais pobres e desprotegidos. Esses vão estar na linha da frente das baixas das crises ambientais (inundações, incêndios, desastres "naturais") e as classes médias e médias-baixas na das baixas das crises económicas (impostos, redistribuição de dinheiros de políticas públicas).

As minorias ricas continuarão a sobrevoar as várias crises nos seus veículos blindados a caminho dos últimos paraísos terrestres onde terão os seus resorts privados e rodeados de seguranças.

Os animais verdadeiros poderão tornar-se raridades preciosas num mundo de animais artificiais.

Os relatórios anuais sobre as espécies em via de extinção, que passam (quando não há mais nada) como fait divers nos alinhamentos dos telejornais dominados por notícias (e comentários e comentários de comentários) do mundo do futebol, são na sua frieza enumerativa de uma tristeza devastadora.

Melancólica e crepuscular coleção de cromos de animais que deixaram de existir, nada mais ao contrário daquelas cadernetas da minha infância que me faziam deslumbrar com o mundo e as suas inacreditáveis maravilhas naturais.

Amanhã, 10 de dezembro, é o Dia Internacional dos Direitos Animais, um dia que visa chamar a atenção para a Declaração Universal dos Direitos dos Animais, também ela aprovada pela ONU e pela UNESCO.

Uma declaração composta por 14 artigos que destacam o facto de todos os animais terem direitos, nomeadamente o direito à existência e o direito a serem respeitados. Destacando que nenhum animal deverá ser "submetido a maus-tratos nem a atos cruéis" e que "Se a morte de um animal é necessária, esta deve ser instantânea, indolor e não geradora de angústia".

Todos a devíamos ler e tê-la tão presente quanto a dos Direitos Humanos. Também esta é uma luta civilizacional recente, mas igualmente inevitável.

Tem sido defendida e aprofundada por pensadores como Peter Singer no seu notável livro Libertação Animal, de 1975. Ou mais recentemente pela psicóloga Melanie Joy, fundadora do movimento de superação do carnismo (Beyond Carnism) que no seu livro Porque Gostamos de Cães, Comemos Porcos e Vestimos Vacas faz um relato absolutamente chocante da forma como a indústria da carne trata os animais antes do abate.

É uma agenda que inevitavelmente ganhará espaço público e político nos próximos anos.

É neste contexto que se deverá discutir o nosso tema local da tourada. Obviamente um tema civilizacional, não um tema de gosto. Uma tradição que tenderá a desaparecer. E que, tal como outras, vai parecer daqui a uns anos uma prática bárbara remota (Aliás, já parece, para quem não pertence a esta cultura de raiz ibérica).

Pura e simplesmente porque é um ato de crueldade para com animais, não só com o touro mas também com o cavalo. E não há invocação de tradição que se sobreponha a esta evidência.

Nota pessoal: Nos três anos que estive na administração da RTP a transmissão televisiva das touradas foi um tema muito discutido. Nesse tempo reduzimos substancialmente o número de transmissões televisivas de touradas, mas não deixámos de as transmitir (por muito que pessoalmente isso me tenha custado).

Ter responsabilidade numa estação pública não é, não devia ser, uma questão de opinião pessoal. É, deve ser, uma questão de avaliação pessoal sobre qual é a melhor opção de serviço público.

A questão prende-se com o confronto entre duas agendas de interesse público. Não tenho qualquer dúvida: a agenda da condenação da tourada como espetáculo de manifesta crueldade para com os animais acabará por prevalecer sobre a agenda da tourada como tradição e atividade económica relevante. É só uma questão de tempo.

A derrota da proposta de abolição das touradas é uma vitória circunstancial do lobby autárquico e dos interesses económicos regionais.

A abordagem futura deve passar antes de mais por colocar a questão de forma clara na agenda do sofrimento animal e dos direitos dos animais. Por outro lado, antes de determinar por decreto a sua extinção, começar por discutir a questão do financiamento e dos apoios públicos para essa atividade; bem como a da sua transmissão num canal de televisão público.

Tal como na prática em causa, mas aqui em sentido figurado, em vez de pegar o tema das touradas de frente, é preciso fazê-lo dar primeiro umas voltas, dar-lhe umas estocadas para o enfraquecer antes de, por fim, pôr termo à sua existência bárbara ou, à maneira portuguesa, ficar a vê-lo extinguir-se em velcro.

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