Três quilómetros mais abaixo, nem sombra da campanha

O repórter não seguiu na caravana e desceu da pequena cidade à estação para apanhar o comboio. O tempo e a campanha parecem suspensos num vale onde corre uma linha de via única do interior para o litoral.

Chega-se à estação de Mangualde, no distrito de Viseu, serpenteando em direção ao vale por uma longa Rua da Estação, não há que enganar, que se passeia por entre campos e moradias, a serra da Estrela ao longe a pedir que lhe tirem o retrato sob o céu azul que se pôs neste fim‑de‑semana.

Não há sinais de campanha por estes lados, os poucos carros que passam seguem tão pachorrentos como o fim de tarde deste domingo, um em direção a Gouveia, que está ali a 23 kms, o táxi que sobe para a cidade de cerca de 20 mil habitantes, dois quilómetros acima, o comboio que parte em direção à Guarda na via única da linha da Beira Alta, e Alcafache e a memória do mais grave desastre ferroviário aqui perto.

A pouco mais de três quilómetros deste local, num pavilhão da zona industrial de Mangualde, o PS juntou ao almoço mais de duas mil pessoas, que ali chegaram de carro e autocarro, e fez subir ao palco gente da terra, como o presidente da Câmara, João Azevedo, ou o antigo ministro e dirigente do partido Jorge Coelho; mas também o socialista holandês Frans Timmermans, que quer ser o próximo presidente da Comissão Europeia, o primeiro-ministro e líder do PS, António Costa, e o cabeça de lista dos socialistas às europeias, Pedro Marques, que foi até ao inicio do ano ministro do Planeamento e Infraestruturas.

A estação de Mangualde está sobriamente arranjada, um único funcionário na bilheteira, sem que chegue alguém (ainda sobram uns 45 minutos para o comboio), outro funcionarei de fato fluorescente para ser visto que dormita num banco da gare, e o bar da estação fechado.

É domingo, fim de tarde, haverá movimentos pendulares de estudantes e de quem foi à terra, mas é como se aqui o tempo estivesse suspenso. Os carris multiplicam-se por seis linhas, três numeradas para uso quotidiano, as outras três com as ervas a crescerem, umas quantas locomotivas paradas com o símbolo da Refer, a empresa desde 2015 fundida com a Estradas de Portugal na Infraestruturas de Portugal, a bandeira da IP a voar rasgada nas pontas.

Desta vez, Pedro Marques e António Costa evitaram grandes conversas sobre a execução de fundos comunitários, talvez porque os números deem para todos os gostos e porque os portugueses preferem fazer outras contas no dia-a-dia. E os socialistas preferiram então pedir o voto para que possam exportar para a Europa o que dizem ser a receita de sucesso caseira: "Era possível acabar com a austeridade, mantendo-nos na Europa e no euro", atirou Costa.

O líder socialista insistiu em jogar outro pingue-pongue com a direita sobre os tempos da austeridade, quando o candidato do PSD e CDS para a Comissão Europeia pedia sanções para Portugal, já depois de terminado o programa de resgate. Castigue-se quem nos queria castigar, insistiram os socialistas. Talvez fosse da presença de Timmermans, mas o discurso foi quase todo para a importância de eleger o holandês, dando força aos socialistas portugueses para irem para a Europa defender o que por cá resultou, na perspetiva dos socialistas.

No arranque da campanha, Pedro Marques não foi até à estação de Mangualde, seguiu para Viseu, onde já não chega nenhum comboio. A ferrovia, que foi destruída ao longo das três últimas décadas, nunca deu muitos votos e o bar continuava fechado à hora de chegada do comboio, que vinha à tabela e de wi-fi tremido. "Cuidado, papá, não te demores que ainda ficas sem o comboio", avisou o miúdo. Este país também vai a votos no dia 26.

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