Visite o andar-modelo

No Maio de 68, eles pegaram nos paralelos e fizeram das ruas de Paris a sua praia da utopia. Sonhavam com a imaginação ao poder, eram realistas, por isso pediam o impossível, era proibido proibir e a liberdade era o crime que incluía todos os crimes e por isso era a arma absoluta de quem protestava.

No 25 de Abril, naquela manhã clara e limpa, a liberdade saiu à rua num dia assim e descobriu-se também uma torrente de palavras novas para dar significado à festa que se vivia. Gritou-se por aquilo que a ditadura de 48 anos tinha roubado: "Liberdade, liberdade, liberdade" foi a palavra de ordem que muitos começaram a lavrar em forma de alegria nas ruas de Lisboa, registada pelos repórteres tão comovidos como os populares, enquanto acompanhavam os militares que tinham deposto o regime. Disseram "fascismo nunca mais", como se repete "25 de Abril sempre" porque nunca devemos ter a democracia por garantida. Pediu-se "trabalho igual, salário igual", e ainda temos de o lembrar. Dizia-se "os ricos que paguem a crise" e sabemos que continuamos nós a pagar as crises dos ricos. "O povo unido jamais será vencido", sonhava-se. Havia no ar e nas palavras aquilo que, uma vez, Pacheco Pereira definiu como "uma ideia antiautoritária, uma alegria antiautoritária", pronta a "incomodar os slogans da época".

Daí nasceram alguns irreverentes slogans, palavras de ordem que devíamos recuperar. Ficam algumas destas frases, prontas a serem escritas e levadas no bolso, para as usarmos na situação certa, quando alguém nos quiser dizer basta, quando afinal quer negar a liberdade.

"Abaixo o sabão amarelo! Abaixo a tinta-da-china! Independência nacional, já!" "Abaixo a reação, viva o motor a hélice." "Inter 2, Sindical 0." "A terra a quem a trabalha. Mortos fora dos cemitérios, já!" "Abaixo a foice e o martelo, viva o Black and Decker!" "O socialismo está em construção, visite o andar-modelo." "Os galos pedem a nacionalização dos ovos." "Cimbalino ao poder, abaixo o café de saco!"

Já sabemos: a liberdade está a passar por aqui.

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'Motu proprio' anti-abusos

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação "abusos sexuais, de poder e de consciência". Também diz, com razão, que a base é o "clericalismo", julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?