Onde anda o livro?

Quando a memória da leitura se perde no tempo, nada como regressar aos livros com a miúda, aqueles livros que fizeram a nossa infância, agora que ela também vai descobrindo as palavras encadeadas umas nas outras. Há tempos, depois de ter visto um espetáculo de dança que relatava a viagem de 80 dias à volta do mundo, a partir da obra que Júlio Verne tinha escrito em 1872, contei-lhe algumas dessas peripécias, a partir do relato parcelar que a dança tinha reavivado. Teve uma única pergunta para me fazer: consegue dar-se a volta ao mundo em 80 dias? Se isto é tão grande, é mais do que legítima a questão, pensei. Que sim, que hoje em dia até se pode fazer em menos tempo.

No tempo de Júlio, o ritmo era outro: os barcos a vapor, os comboios e as carruagens eram meios de transporte de então (e até mesmo um elefante, na aventura de Phileas Fogg). Agora galgamos países no ar sem nunca lá pôr os pés, atravessamos terras apenas com tempo para reabastecer o carro - é bem mais rápido dar a volta ao mundo.

Voltámos a pensar como seria fazer os tais 80 dias: sem uma qualquer enciclopédia de 30 volumes à mão, pesquisámos ao engano na internet, espreitámos pelo ecrã as terras que fazem o roteiro do livro, tentámos ver quanto tempo se demorava em cada etapa - para ver se de facto Fogg podia ter ganho a aposta de fazer a viagem em menos de três meses. As contas dariam sete dias de Londres ao canal de Suez, mais 13 daqui a Bombaim e três por terras da Índia até Calcutá. Somavam-se mais 13 dias até Hong Kong e seis para chegar a Yokohama, de onde se partia pelo oceano Pacífico durante 22 dias para alcançar São Francisco. Na América, eram sete dias até Nova Iorque e depois outros nove até Londres.

O entusiasmo levou-nos ao óbvio: procurar o original que algures existiria em casa, numa edição porventura comprada há muito com um qualquer jornal, apenas pelo prazer de viajar pela pena de Verne. Não o encontrámos e o sono venceu a excitação da viagem. E tal como Júlio um dia, ela prometeu então viajar "apenas nos sonhos".

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