A casa que perdeu o chão

É uma casa que já perdeu o chão. O mar veio e galgou areias e pedras e a casa lá ficou, suspensa no ar, inclinada enquanto resiste à queda definitiva. Quem ali vivia já desistiu mas há alguns que resistem, em casas nas dunas, algumas de pescadores - que esses são cada vez menos e a faina já não rende - outras de habitação de veraneio, do tempo em que se permitiam todos os devaneios. E há restaurantes na beira da estrada mas o mar já se abeira deles em dias alterados.

Chega-se à casa sem chão na praia da Apúlia e no horizonte a norte, em direção a Esposende, há mais casas com o mar a fustigar as dunas que são os seus alicerces. Anda por ali muita gente, uns políticos de Lisboa vieram ver o que se passa naquela língua de areia que se prolonga até à restinga da foz do Cávado e, sem que ninguém lhes pergunte, falam das alterações climáticas. Aquela gente que vê o mar vir para terra não lê certamente ensaios falhados de antigos humoristas encartados no ceticismo militante contra estas mudanças, mesmo que na hora de defender os seus argumentos garanta - a pés juntos, como se o chão não lhes fugisse - que o mar não avança. Todos têm uma ideia de como resolver a coisa, entre o sonho de repetir os diques que impedem o oceano de avançar nos Países Baixos aos homens que já se resignaram à força do mar. "Vamos ter de desocupar o litoral", dizia um, antecipando o pior dos cenários. "Se o essencial for retirar da costa, que se retire da costa", disse outro. "A comunidade científica mundial diz que o melhor é retirar, gaste-se a proteger bens e pessoas", completou. Outro deixou um pedido angustiado. "Façam qualquer coisa para defender a costa e não venham para cima dos desgraçados." Um dos políticos concluiu salomonicamente que "contrariar as alterações climáticas é como travar o vento com as mãos" mas as populações também não podem ser deslocalizadas. A casa sem chão já mostrou que o mar quer ter uma palavra.

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A América foi fundada também por angolanos

Faz hoje, 25 de agosto, exatos 400 anos que desembarcaram na América os primeiros negros. Eram angolanos os primeiros 20 africanos a chegar à América - a Jamestown, colónia inglesa acabada se ser fundada no que viria a ser o estado da Virgínia. O jornal The New York Times tem vindo a publicar uma série de peças jornalísticas, inseridas no Project 1619, dedicadas ao legado da escravatura nos Estados Unidos. Os 20 angolanos de Jamestown vinham num navio negreiro espanhol, a caminho das minas de prata do México; o barco foi apresado por piratas ingleses e levados para a nova Jamestown. O destino dos angolanos acabou por ser igual ao de muitos colonos ingleses: primeiro obrigados a trabalhar como contratados e, ao fim de alguns anos, livres e, por vezes, donos de plantações. Passados sete anos, em 1626, chegaram os primeiros 11 negros a Nova Iorque (então, Nova Amesterdão) - também eram angolanos. O Jornal de Angola publicou ontem um longo dossiê sobre estes acontecimentos que, a partir de uma das maiores tragédias da História moderna, a escravatura, acabaram por juntar o destino de dois países, Angola e Estados Unidos, de dois continentes distantes.