Thatcher continua viva e de saúde

Há uns dias almocei com Tania Sánchez, que é uma política fora do comum. Para quem não a conhece, posso dizer que é a ex-namorada de Pablo Iglesias, o líder do Podemos, o partido radical e antissistema que segundo as sondagens terá um grande resultado nas próximas eleições em Espanha. Tania Sánchez acaba de abandonar a Esquerda Unida, o partido mais ou menos comunista em que militava, porque este lhe parece convencional e pouco inovador. Também deixou o namorado, mas isso creio que por razões táticas, para não perturbar a sua carreira no Podemos com questões de alcova. O interessante a respeito de Tania e de Pablo é que o propósito de ambos é superar a dialética esquerda/direita. Têm a ambição de construir uma formação transversal, capaz de caçar votos em qualquer coutada. Quando perguntei a Tania como se supera tal contradição, apresentou-me o exemplo de Margaret Thatcher. Disse-me: "Thatcher foi capaz de furar a identidade de classe no voto." Foi uma reflexão inesperada, vindo de uma leninista, mas deixou-me perplexo porque está totalmente certa.

Quando a baronesa ganhou as eleições do Reino Unido em 1979, o país estava mergulhado no descontentamento. O declive económico era colossal e os sindicatos grevistas não conheciam limites. Thatcher prometeu resolver os problemas e cativou um país desmoralizado que pôs nela toda a sua esperança. Surpreendentemente, resolveu os problemas. Reduziu o poder do Estado para ampliar a margem do setor privado, baixou os impostos para que os britânicos desfrutassem cada vez mais do produto do seu trabalho, impulsionou o capitalismo popular, alienando as empresas que geriam de forma imoral o setor público, e devolveu a confiança ao cidadão comum nas suas possibilidades. Confiança essa que a esquerda lhe tinha arrebatado. Eu nasci numa pequena povoação do Norte de Espanha onde sempre governaram os socialistas e é um dado adquirido aquilo de, ao que parece, os pobres estarem destinados geneticamente a votar à esquerda, pois é ela que se preocupa com eles. Mas Thatcher demonstrou com factos que a direita liberal é a única capaz de rebentar as cordas que restringem as classes humildes e de as persuadir de que o mundo está ao alcance delas.

Isto é algo que não interessa absolutamente nada a Tania Sánchez, nem ao seu namorado Pablo Iglésias, nem aos novos partidos populistas. Em Thatcher veem a possibilidade de captar votos entre a classe média ou média baixa cansada da partidocracia, furiosa com os casos de corrupção e cética sobre a capacidade do robusto crescimento económico para lhe devolver o nível de vida perdido nos últimos anos. Só isso. A tese de Tania Sánchez e do seu namorado Pablo Iglesias é que nem o modelo económico da direita nem o da esquerda convencional vão conseguir restaurar os padrões de vida obscenos de que desfrutávamos há uma década. Perguntei-o a Tania: não se dará o caso de o problema ser que há uma década desfrutávamos de uns padrões de vida obscenos? É uma pergunta que ficou sem resposta; nessa nebulosa de frivolidades que o Podemos manobra e que consiste em propor políticas alternativas para redobrar a pressão fiscal sobre os ricos, aumentar o peso do Estado, combater as grandes empresas e aumentar a proteção social, todas elas receitas fracassadas e genuinamente contrárias às que Thatcher sempre defendeu e com as quais ganhou três vezes as eleições no seu país.

Mas são receitas atrativas. As últimas sondagens continuam a dar uns resultados excelentes ao Podemos. Há duas razões apenas para explicar esta renovada mostra de estupidez humana. A primeira é que o Podemos conseguiu mobilizar os jovens e que os jovens em Espanha, imagino que tal como em Portugal, nasceram instalados na sociedade do bem-estar, foram educados num contexto em que lhes foi entregue tudo feito e do qual não se sentem construtores mas sim beneficiários - isto explica a sua aversão ao risco e a sua cumplicidade com quem lhes promete voltar a edificar uma situação insustentável. A segunda razão é a classe média prejudicada pela crise e envenenada pela cicuta da esquerda: que o novo crescimento está a aumentar a desigualdade. Esta é uma cultura fomentada não apenas pelas hostes de Tania Sánchez e do seu namorado Pablo, como também pelo próprio partido Socialista, o de sempre.

Nunca é demais enfatizar o crime cultural que a esquerda perpetra diariamente com a sua visão primária do mundo! Na sua opinião, o pujante crescimento, por exemplo de Espanha, não vale porque muitos jovens decidiram emigrar em busca de melhor destino e os que ficaram recebem menos do que antes. Mas a mim parece-me que esta situação é um bom ponto de partida depois da crise mais violenta a seguir à Grande Depressão. Os que partem demonstram energia, demonstram que ainda continuam vivos, que respondem a incentivos e que fazem pela vida. Logo voltarão. Entre os que ficam, não será melhor que trabalhem, ainda que seja a um preço menor, do que viverem do subsídio? Trabalhar equivale a integrar-se na sociedade civil. Estar desempregado é o contrário. Será que há algum tipo de desígnio histórico pelo qual as classes humildes e mais populares estão condenadas a votar à esquerda, que tanto contribuiu para o seu empobrecimento? Thatcher demonstrou que não. Mas claro, a baronesa tinha em primeiro lugar os princípios claros e depois a vontade necessária para persuadir as pessoas comuns de que o segredo para prosperar não reside no Estado, mas antes nas capacidades inatas de cada indivíduo para se sobrepor ao infortúnio, desenvolver o seu potencial e criar riqueza para si e para os que o rodeiam. Esta era e é uma mensagem de otimismo e de esperança. A da esquerda é sistematicamente o contrário: trata-se de pregar uma Arcádia feliz composta por seres irresponsáveis que vivem à custa da solidariedade coerciva dos mais produtivos e capazes. A natureza ao contrário.

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