Reencontrando Pessoa

Dizia Camões que não há alegria maior que a de encontrar um amigo em terra estranha. Eu tenho alguns em Portugal. Esta semana voltei a Lisboa. Há sete anos que não pisava a cidade que faz parte indelével da minha vida. Quando a Recoletos, a empresa espanhola na qual trabalhava na época, comprou o Diário Económico, encarregou-me de tentar converter um jornal financeiro de esquerda no que deve ser um meio de comunicação com senso comum. Ou seja, liberal. Um jornal que apostasse no mercado, na imprensa livre, no indivíduo e que promovesse a responsabilidade pessoal no destino da própria vida. Tentei-o com determinação, mas receio que a minha marca tenho sido efémera. Tal como Espanha, Portugal é um país de esquerda. E a maioria dos seus jornais também. Apesar de acreditar que está empiricamente demonstrado que de cada vez que os socialistas governam os pobres sofrem e o nível geral de vida retrocede, a esquerda apetrechou-se de uma argumentação convincente e eficaz, segundo a qual a culpa dos fracassos e da adversidade é sempre alheia, produto de circunstâncias acontecidas difíceis de controlar.

Em troca do meu pouco êxito como editor fiz muito bons amigos em Lisboa. Não só no mundo do jornalismo como também no da restauração, que costuma proporcionar mais alegrias. Para mim, Lisboa é o Farta Brutos e o seu patrão Oliveira, em cujo restaurante tenho na parede uma fotografia com a minha mulher, prematuramente falecida. Também O Galito do grande Henrique, que tem a melhor perdiz de escabeche do mundo, me regala com o seu carinho e tem exposto um antigo texto meu que fala da impossibilidade de se ser liberal e socialista ao mesmo tempo. Porque, ao contrário, o que é compatível é ser-se liberal e conservador. Arthur Brooks, o presidente do American Enterprise Institute, que o é, costuma dizer que há quatro valores definitivos para alcançar uma vida ordenada, próspera e feliz: fé, família, comunidade e trabalho. No meu país faz tempo que estes valores estão em queda e, à partida, escasseiam ali onde são necessários com urgência, que é nas zonas mais pobres, onde as instituições sociais são quase inexistentes e o socialismo e a demagogia encontram uma boa presa em que fincar o dente.

Encontrei os meus amigos lisboetas um pouco abatidos, exaustos até. Não é uma surpresa tratando-se de um país que fez da melancolia uma arte, mas é certo que desta vez têm mais motivos. As medidas de ajustamento foram dolorosas. Produziram um claro empobrecimento. Mas é igualmente verdade que todas as decisões adotadas estão a começar a dar os seus frutos e que o país pode registar este ano um crescimento notável. Também que o governo, que encontrou um país colapsado, sem acesso aos mercados e que teve de recorrer à ajuda internacional, foi capaz de pôr as contas públicas em ordem, de reduzir a despesa e de racionalizar o subsídio de desemprego, o que promoveu um vigor incipiente, um certo músculo e mais higiene. Seria uma pena que tanto esforço fosse atirado borda fora. E pode acontecer. As sondagens sugerem que o socialista António Costa tem muitas possibilidades de ganhar as próximas eleições e de formar governo.

Há duas semanas, Costa esteve num comício em Badajoz com o secretário-geral dos socialistas espanhóis, Pedro Sánchez, que está na mó de baixo face ao avanço do Podemos e, ali, disse esta bela frase que temos vindo a engolir desde há décadas: "É possível outro modelo de crescimento económico." Não é verdade. Se se aumenta o salário mínimo, os trabalhadores com menos formação e menos produtivos terão o acesso ao mercado de trabalho mais dificultado. Se se aumentar os impostos sobre o património ou sobre os rendimentos do capital, este fugirá para destinos menos hostis aproveitando as vantagens da globalização. Se se estimular artificialmente a procura sem liberalizar a economia fortalecendo a oferta, crescerá o défice externo. Se se reforçar a presença do Estado e aumentar a despesa social, o setor privado terá menor margem para fazer uso de toda a sua potência. Falar de outro país como eu estou a fazer é sempre uma falta de educação, mas que quem aspira a ser primeiro-ministro de Portugal, um país que foi submetido a um tratamento de choque, mostre tanta compreensão para com os gregos do Syriza deixa-me perplexo. Este é o sinal mais consistente de que quer aproveitar a ocasião para renunciar às reformas estruturais imprescindíveis, nas quais Portugal deve perseverar. Costa, quem sabe também Hollande ou Renzi, necessita que Tsipras e Varoufakis consigam alguma cedência de Merkel para baixar a fasquia e enganar os portugueses prometendo-lhes uma Arcádia feliz, que não voltará a não ser assente na aposta pelo mercado e pelo trabalho duro. Já sei que Passos Coelho é um político académico incapaz de despertar ilusões e de fazer a pedagogia que mereceria ter posto outra vez o país nos trilhos, em condições de devolver o dinheiro emprestado. Compreendo-o porque não é muito diferente de Rajoy, cuja simpatia e poder de sedução equivalem a zero. Mas, dados os antecedentes, é certo que tudo correrá pior com Costa, o mesmo que em Espanha se Rajoy, que nunca foi santo da minha devoção, perder a oportunidade de voltar a governar.

No Galito deixei escrito na parede que é incompatível ser--se socialista e liberal, mas no Farta Brutos tenho um apontamento em que esclareço porque se pode ser português e liberal: "É evidente que quanto mais o Estado intervém na vida da sociedade, maior risco corre de a prejudicar. A violação das leis naturais tem sanções automáticas às quais ninguém pode subtrair-se. Os riscos e prejuízos da administração pelo Estado estão em relação direta com a extensão com que intervém na vida social espontânea". Estas palavras não são de Smith, nem de Hayek, nem de Friedman. Nem tão-pouco minhas. São do português indiscutivelmente mais insigne, que foi escritor e liberal: Fernando Pessoa. Como se pode não amar Portugal quando produziu um personagem capaz de dizer coisas tão belas, apesar de nenhum dos seus políticos as ter jamais posto em prática?

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG