Queremos um Chamberlain para a Grécia?

Espanha e Portugal foram dois dos países que mais se alinharam com a Alemanha para que as concessões à Grécia sejam as mínimas e o governo de Atenas se comprometa a pagar a dívida que contraiu fully and timely, sem qualquer espécie de perdão e de acordo com o calendário previsto. Os dois países têm razões muito sérias para manter uma posição de força. A primeira é uma questão de princípios. A economia de mercado tem umas certas regras. Entre elas, a de que se premeia aquele que tem êxito e prospera e se castiga aquele que fracassa. Também, a de que não se pode tratar melhor o rebelde do que aquele que se comportou de maneira ortodoxa, a não ser que se queiram gerar incentivos errados e perversos. Em troca da obtenção de financiamento urgente, Portugal teve de fazer ajustes que significaram sacrifícios muito penosos para os seus cidadãos. Não parece lógico que aceitasse agora uma exceção que lhe foi negada e que debilitaria ainda mais a posição eleitoral de Passos Coelho. Espanha tem problemas parecidos. Não só os mais de 20 000 milhões que emprestou à Grécia, e que espera vir a cobrar, como também a possibilidade de que as concessões a Tsipras fortaleçam o homólogo do Syriza em Espanha, o partido radical Podemos, que as sondagens situam em segundo lugar nas intenções de voto.

Mas em ambos os casos a posição foi bastante construtiva. Pesou o receio de que uma saída da Grécia do euro desencadeasse uma instabilidade nos mercados que estancasse a recuperação e pusesse em causa a irreversibilidade do euro. A pergunta relevante é se estas razões são tão poderosas como parecem. A relativa indiferença com que as divisas e as bolsas reagiram a todo o processo de negociação indica que a preocupação com a possível saída da Grécia do sistema era relativamente pequena. Por outro lado, a permanência da Grécia no euro pode transmitir incentivos adversos. Muitos países podem argumentar que não há assim tanta pressa nas reformas dado o atraso de um dos membros do grupo. Por exemplo, não foi por acaso que França e Itália foram os países mais compreensivos com Tsipras. Os socialistas não deixam de contemplar com certa admiração o feito inédito da esquerda radical a governar um país. Além do mais, tanto Valls como Renzi têm pela frente um programa de reformas que lhes está a granjear não só a antipatia da opinião pública como também a divisão interna nos seus partidos. Alguns economistas pensam, e provavelmente com razão, que a pressão sobre o grupo de países atrasados seria maior se o lanterna vermelha abandonasse a corrida. Que a pressão que França e Itália sofreriam para acelerar as suas mudanças e convergir com a Alemanha e os países nórdicos seria muito mais imperiosa com a Grécia de fora e que o euro ganharia em robustez.

Apesar de Tsipras ter apresentado um plano de reformas com a intenção de persuadir a UE da sua vontade de continuar a cumprir o programa de resgate, há, contudo, muitas razões para desconfiar da sua palavra. Quando o Prémio Nobel da Economia Robert Mundell descreveu em 1961 como deveriam ser as zonas monetárias ótimas, assinalou como condições indispensáveis que as economias implicadas tivessem flexibilidade de preços e mantivessem uma férrea disciplina fiscal. Mas o propósito do novo governo grego é continuar a redistribuir recursos que é duvidoso que consiga arrecadar. Tão-pouco parece muito decidido a fomentar a concorrência interna, a fim de conter os preços, e continua a aspirar a elevar o nível de rendimento dos cidadãos muito acima do que a sua produtividade permite. Isto é o que pensa, por exemplo, o FMI, que foi o mais cauteloso perante a lista de reformas apresentada por Atenas.

Quando, na passada semana, o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, disse que "sentia muito pelos gregos, mas que estes tinham elegido um governo que se estava a comportar de maneira bastante irresponsável", estava a acertar no alvo. Foram muitos os políticos e os jornalistas que interpretaram esta opinião como a demonstração clara da soberania alemã. Este mesmo jornal, o Diário de Notícias, escreveu no seu editorial de 17 de fevereiro que se tratava de uma afirmação pouco democrática, pois os povos, o grego incluído, têm direito a decidir o seu próprio destino. Isto é verdade, claro, mas é irresponsável fazer promessas cujo cumprimento não está nas mãos de quem as faz mas sim que dependem do dinheiro dos outros. Era a isto que se referia implicitamente o alemão.

Seria um erro que a União Europeia enfrentasse o problema criado pelo triunfo do Syriza na Grécia com a estratégia da contemporização, ao estilo da atitude que o inglês Chamberlain adotou para com Hitler. O programa com que Tsipras ganhou as eleições não tem lugar no euro e convém que o governo de Atenas tenha isso muito presente. As chamadas à responsabilidade para evitar a confrontação e a ênfase na negociação e no diálogo que pregam os políticos e os jornalistas de esquerda demonstram uma confiança cega em que, no final, o governo nacional-comunista cumprirá as regras do jogo. Mas pode acontecer que estejam enganados, tal como quando se aceitou a entrada da Grécia na Comunidade Europeia ou no euro numa situação muito precária, sem fiscalizar devidamente umas estatísticas que estavam falsificadas.

Ou o desafio representado pelo Syriza é enfrentado com determinação ou as consequências futuras podem ser muito piores. Enquanto não se comprovar, sem haver lugar a dúvidas, a vontade do governo grego de aprovar as reformas apresentadas e de renunciar por completo ao seu programa radical, continuaremos a estar na presença de um ato de fé.

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