Porque não são iguais Sócrates e Rato

Tal como aconteceu em Portugal com a detenção e a prisão do ex-primeiro-ministro José Sócrates, Espanha está em polvorosa devido à detenção - por umas horas - e às acusações devastadoras de fraude e corrupção que pesam sobre o antigo vice--primeiro-ministro do governo de Aznar, Rodrigo Rato. Rato foi um dos principais concretizadores do milagre económico espanhol, que aconteceu entre 1996 e 2004. Como desde 1982 até 1996 o meu país foi governado pelos socialistas, tinha-se instalado em Espanha uma espécie de resignação, no sentido em que a maioria, eu incluído, pensava que não havia outra política possível apesar de os resultados serem inquietantes: uns défices externo e público colossais, um nível de desemprego impressionante e uma inflação incontrolada. O triunfo da direita foi um completo abanão, uma lufada de ar fresco. Aznar tinha umas ideias muito claras: que não convém gastar mais do que se recebe, que se deve baixar os impostos para permitir às pessoas desfrutarem mais do fruto do seu trabalho e exercerem o seu poder de escolha, que o Estado deve abandonar as empresas públicas que gere ruinosamente para as vender aos cidadãos impulsionando o capitalismo popular e que há que fomentar ao máximo a concorrência e a igualdade de oportunidades.

Todas estas ideias foram postas em prática com grande êxito a partir de 1996 até ao ponto em que Espanha foi capaz de entrar em tempo hábil na união monetária quando, inclusive, os intelectuais menos suspeitos, entre os quais se encontravam muitos liberais que respeito, estavam céticos sobre as consequências espinhosas que adviriam de perder a margem de manobra sobre a taxa de câmbio e mostravam a sua desconfiança sobre a vontade de sacrifício e a capacidade de reação dos espanhóis. Incluindo o próprio vice--primeiro-ministro Rodrigo Rato! Como vivi pessoalmente aquelas circunstâncias incomoda-me - às vezes faz-me sorrir - que alguns desinformados assegurem que a queda de Rato implica o final de uma era, como se ele tivesse sido o pai daqueles anos de êxito indiscutível. Não foi assim. E digo-o com a firmeza propiciada por ter vivido os factos em primeira mão. Quem enfrentou os pusilânimes, entre eles o próprio Rato, e fixou as novas diretrizes económicas com a determinação que exigia a urgência de não ficarmos afastados da Europa foi o presidente Aznar. A partir desse momento, Rato cumpriu as ordens com uma entrega e uma eficácia admiráveis. E foi tudo.

Em qualquer país normal, quer dizer, em qualquer país que não seja Espanha, o facto de Rato se ter posto à disposição da justiça deveria ser valorizado como a demonstração mais clara de que as instituições funcionam e de que uma democracia liberal de mercado tem mais força do que nenhum outro modelo para purgar os seus parasitas e afastar os seus excrementos. Assim tem sido toda a vida nos Estados Unidos, emblema do capitalismo, país que se desfez do presidente Nixon e esteve a ponto de destituir Clinton e onde não houve contemplações para limpar todos os que abusaram da economia de mercado, processando-os e metendo-os atrás das grades com rapidez e eficácia sem que nenhum cidadão americano com senso comum - exceto alguns intelectuais desvairados como Chomsky ou cineastas como Oliver Stone e companhia - duvide de que continue ainda a viver no país das oportunidades. Mas como Espanha não é um país de todo normal, por ter vivido tantos anos sob o socialismo, uma grande parte da opinião pública interiorizou o final definitivo de quem foi um ícone do capitalismo como um argumento imbatível para concluir que o sistema está na sua fase final. Assim pensam muitos cidadãos, que parecem ter perdido a fé em tudo, mas que, ironicamente, estão dispostos a entregar a sua confiança a um partido radical e antissistema como o Podemos, cujo propósito derradeiro é mudar de regime.

E por que razão acontecem estas coisas no meu país? Eu creio que é porque desde que Aznar decidiu não se reapresentar como candidato do PP à chefia do governo em 2004, imitando o gesto do máximo de dois mandatos que a lei dos Estados Unidos fixa, a direita renunciou ao debate ideológico. E creio que algo de semelhante aconteceu com a direita portuguesa. Aznar tinha ideias por detrás, Rajoy não. Talvez Passos Coelhos tampouco as tenha. Depois dos anos de inferno sob o governo de Zapatero, Rajoy conseguiu numa legislatura recuperar um país à beira do colapso. Por que razão os espanhóis não lhe agradecem? Porque jamais se preocupou em animá-los e seduzi-los, em consolidar o liberalismo como uma alternativa muito mais poderosa e moral do que o socialismo. Rajoy, talvez como Passos Coelho, fez um grande trabalho tecnocrático, o governo atuou como uma grande oficina de reparações, como uma grande agência administrativa, mas pouco mais. Não houve substrato ideológico por trás nem princípios fortes. A nova direita, ocupada como esteve em evitar o resgate do país, deixou de combater de igual para igual com a esquerda, que leva em Espanha décadas de monopólio educativo, de hegemonia nos meios de comunicação audiovisuais, que têm audiências colossais e que tradicionalmente tem demonstrado uma eficácia propagandista louvável.

Deploro mais do que ninguém as consequências de tanta inércia, desta renúncia à luta intelectual porque é a ela que dedico neste momento a minha vida, inclusive, aqui em Portugal. Lamento que muitos possam pensar, como acontece no meu país, que o facto de um corrupto como Rato ter posto em prática determinadas políticas, que pelo seu lado tiveram tanto êxito, equivale a que as ditas políticas tenham sido uma ilusão, que estavam erradas. Não é verdade. As ideias são boas ou más independentemente de quem as ponha em marcha. Por exemplo, não tenho qualquer dúvida de que o Papa Francisco tem uma categoria moral impressionante, inclusive, que acabará sendo santo, como outros papas, mas estou convencido de que, se pusessem em prática as ideias que esgrime sobre a economia, o mundo seria muito mais pobre e desigual do que atualmente. Rodrigo Rato, por indicação de Aznar, pôs em marcha ideias muito boas, ainda que ele se tenha revelado ser um corrupto. As ideias boas são as que tornam possível que as pessoas deem o melhor de si, que é a única maneira de gerar prosperidade. Em certas ocasiões, como aquela de que falamos, acontece que são postas em marcha por um indigno. As ideias de Sócrates eram más em si mesmas porque eram as ideias próprias de um socialista e, além disso, aconteceu que tinha cometido irregularidades fiscais. As ideias que Rato pôs em prática eram boas porque eram o mais parecido com o pensamento liberal, ainda que ele se tenha revelado uma pessoa moralmente reprovável que, provavelmente, agiu contra a lei. A direita espanhola renunciou a explicar estas coisas tão simples e pagará por isso. Não apenas a direita, que é o menos, mas também o país como um todo, porque os que estão à espera à esquina para determinar o próximo governo de Espanha, que são os do Podemos - tal como os gregos do Syriza -, não só albergam as piores ideias possíveis como também demonstraram ter um comportamento ético nada exemplar.

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