Os riscos da lei de Murphy

Os maiores Estados da União Europeia, sobretudo a Alemanha, que é o que mais importa, consideram que a trajetória de Espanha é um caso de sucesso. Em quatro anos passou da recessão a um ritmo de crescimento de 3% que deu origem a um emprego abundante, que pode vir a adicionar mais de um milhão de postos de trabalho entre 2014 e 2015. É um exemplo porque demonstra que as políticas de ajustamento são compatíveis com o aumento da atividade económica. Mas a história ensina que nada é irreversível. Tudo pode ir por água abaixo em pouco tempo se os cidadãos decidirem que quem resolveu os enormes problemas que afligiam o país em 2011 não merece a devida recompensa por razões várias: porque não fez mais do que cumprir o seu dever, porque as famílias ainda não se apercebem verdadeiramente da melhoria da economia ou porque foi incapaz de apresentar um projeto de país que desperte a ilusão coletiva. 2015 é um ano de exercício crítico para Espanha. Além das eleições gerais, que se realizam no final do ano, é tempo de renovar as principais autonomias e autarquias. E os resultados do primeiro teste, que foram as eleições realizadas no passado domingo na Andaluzia, não alimentam a esperança.

A capa do mais recente número da revista que dirijo, a Actualidad Económica, é dedicada a uma entrevista exclusiva com o governador do Banco de Espanha, Luis Linde, a primeira que dá desde o começo do seu mandato. A sua principal mensagem é que "seria muito preocupante que Espanha perdesse a estabilidade política", que foi a condição necessária para sanear a economia e impulsionar a competitividade. Mas os resultados das eleições andaluzas confirmam os receios do governador. O primeiro facto notável, e difícil de compreender por qualquer observador externo, é que os socialistas tenham voltado a ganhar depois de 33 anos no poder. Não é fácil de entender porque, após o monopólio secular da esquerda - ou melhor, devido a ele -, a Andaluzia mantém um diferencial do PIB per capita com o resto do país equivalente ao que existia em 1980. É a grande região mais pobre e atrasada de Espanha, apesar de ter recebido 80 mil milhões procedentes dos fundos comunitários desde a adesão à UE, e outros tantos em transferências internas do orçamento espanhol. Tem a taxa de desemprego mais elevada e um desemprego jovem assustador, perto dos 60%. É também a comunidade com maior índice de corrupção.

Por que razão os andaluzes continuam a preferir os socialistas? Há muitas respostas a esta pergunta crucial mas as mais importantes são duas: um em cada três cidadãos trabalha para a Administração e o número de indivíduos que obtém os seus rendimentos do setor público - funcionários, contratados, desempregados, pensionistas, beneficiários do subsídio agrícola e outro tipo de ajudas - supera o dos que trabalham no setor privado. A Andaluzia é uma máquina infernal de produzir pessoas dependentes do Estado que, racionalmente, votam em quem lhes assegura uma vida cómoda, de uma maneira ou de outra, à custa dos outros. É a referência mundial mais genuína do êxito do socialismo parasitário, alimentado coercivamente pelo esforço dos cidadãos mais ativos e valiosos, que suportam a maior pressão fiscal do país.

Mas o preocupante das eleições andaluzas não é o ter sido constatado o rendimento que dá produzir pessoas irresponsáveis, bem alimentadas à custa do Estado, mas sim a entrada do Podemos no jogo. A formação antissistema, que é uma cópia do Syriza grego, somará 15 deputados no Parlamento andaluz e isto é uma antecipação da influência que poderá alcançar na política nacional quando se realizarem as eleições gerais. O governador do Banco de Espanha e os nossos parceiros europeus pensam que a fragmentação do arco político poderia truncar a boa marcha da economia. E não só eles. Também os investidores. Nas últimas semanas, o prémio de risco de Itália ficou abaixo do de Espanha e não foi por acaso. A Merrill Lynch foi a primeira a dar o aviso. Num dos seus últimos relatórios assegura que "o risco político regressou à cena com a Grécia, pelo que preferimos países que não apresentem grandes possibilidades de perturbação eleitoral. Preferimos Portugal a Espanha e Itália a Espanha, para evitar a incerteza que pode acarretar o aumento do apoio ao Podemos". Outras agências de análise, como a UBS, a BlackRock ou a Fitch, estão igualmente inquietas porque se abrem portas a políticas não ortodoxas, quer sejam simplesmente populistas ou nacionalistas. Portugal tem a vantagem de não ter tido um aumento de partidos populistas apesar da crise, mas em Espanha o Podemos surgiu com uma força inesperada no seguimento dos inumeráveis casos de corrupção, assim como do descontentamento provocado pelo desemprego galopante e pelos cortes a que a crise obrigou, sem que o primeiro-ministro Rajoy tenha podido rentabilizar, nem na Andaluzia nem nas sondagens sobre as próximas eleições, o regresso do crescimento e da criação de emprego.

Porquê? A minha opinião é que a direita renunciou a construir um discurso ideológico capaz de fazer frente à eficácia da esquerda em desacreditar as virtudes de um emprego que deprecia com o qualificativo de precário e em denunciar o aumento irrelevante, mas eleitoralmente eficaz, das desigualdades sociais. O Podemos é a criatura mais enérgica neste falseamento da realidade social, mas na perseguição do mesmo objetivo está tanto a esquerda convencional como o resto das forças políticas em competição com o PP de Rajoy. A Andaluzia é uma primeira chamada de atenção para o que pode acontecer no conjunto do país, um anúncio da probabilidade nada descartável de que uma coligação de esquerdas venha a governar Espanha nos próximos anos. Não serei eu a discutir a legitimidade das urnas, nem o direito a suicidar-se por vezes exercido por alguns países - aí está o caso da Grécia para o comprovar. Mas convém avisar sobre as consequências dos atos. Se validarmos com o nosso voto, em Espanha ou em Portugal, ideias como subir os impostos aos ricos, aumentar a despesa pública, retroceder na flexibilidade laboral ou regressar ao intervencionismo do Estado na economia, voltaremos a passar muito mal. E daremos todo um espetáculo na Europa.

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