O orgasmo da esquerda caviar

Hoje escrevo verdadeiramente comovido. Os intelectuais "progressistas" - a esquerda caviar - recuperaram as ilusões com a vitória do Syriza na Grécia. Parece uma criança com sapatos novos. Acredita que está aberto o caminho para uma era dominada pelo regresso da política, ali onde governava a ditadura obscena dos mercados. A mim, esta espécie de orgasmo parece-me cómica, ainda que tenha uma certa explicação. Os intelectuais do regime politicamente correto andam desorientados há décadas. Pensaram que com a crise do Lehman Brothers, e a dura recessão que se lhe seguiu, tinha chegado novamente a hora deles. Que o capitalismo tinha fracassado tanto como o comunismo. Mas sentiram-se de novo atraiçoados e confusos. Quando a oportunidade de se afirmarem estava ao alcance da mão, acontece que em França os socialistas Hollande e Valls estão a pôr em marcha políticas para reduzir a despesa pública, diminuir impostos e liberalizar a economia, eliminando privilégios e fomentando a concorrência. E que em Itália, o socialista Renzi está a empreender uma reforma laboral que pretende liquidar as sinecuras dos sindicatos apesar dos protestos. Nesta situação, estes rapazes tão espertos, que viveram toda a vida como deuses, tomando champanhe com morangos ao pequeno-almoço à custa de manterem sequestrado o espírito dos mais pobres e desfavorecidos, perguntam-se: o que nos resta? O que poderemos esperar? Onde iremos chegar se a grande França, pátria do acolhimento e dos direitos sociais, se propõe diminui-los, ou na Itália herdeira da eterna Roma governa um socialista heterodoxo?

Neste cruzamento de caminhos apareceu a Grécia, pátria dos clássicos, a quem tanto devemos, mas onde não houve Renascimento nem chegou o Iluminismo e onde um senhor chamado Tsipras se propõe desafiar os convencionalismos e a regra básica de qualquer sociedade civilizada: que há que pagar o que se deve. Os progressistas estão encantados, entre eles muitos jornalistas - a maioria dos quais coxeia da esquerda. Pensam que estamos na presença de um ato iniciático, e que nós, os reticentes conservadores de turno, devemos dar aos gregos a oportunidade de perseguir o destino que decidiram. Mas a minha posição é de que os gregos já tiveram muitas oportunidades e que, ao votarem no Syriza, queimaram o seu último cartucho. Porque haveríamos de ter mais consideração para com os gregos do que para com os alemães que lhes emprestaram quase cem mil milhões ou os pobres espanhóis que injetaram vinte mil milhões em tempos tão difíceis e que esperam que estas dívidas possam ser honradas como é próprio de gente honesta?

Não há que ter piedade com os extremismos, que optam sempre por políticas económicas erradas e levam à ruína os países onde têm possibilidade de governar. Como a boa vida que a esquerda caviar sempre desfrutou acaba por deteriorar os neurónios e promover o pensamento frouxo, os "progressistas" pensam que o Syriza levará a cabo o milagre e reconverterá com êxito a social--democracia. Estão enganados. As usual. O partido de Tsipras tem pouco que ver com a esquerda convencional, que sempre tratou de tornar compatível os seus devaneios com a despesa social, e o seu afã redistributivo como a manutenção dos equilíbrios financeiros. Tsipras sente uma desconfiança natural da economia de mercado e é puramente estatista. Não há nada de bom a esperar dele, salvo que baixe as calças. E de momento não está disposto a isso.

Inflamado pela vitória, começou o seu mandato da pior maneira. Pretende aumentar o salário mínimo até limites selvagens, parar o programa de privatizações, contratar mais funcionários, dar eletricidade grátis aos cidadãos a que chama excluídos, recuperar a televisão pública e outras maravilhas do género. Parece ignorar que a Grécia necessita de 14 mil milhões nos próximos sete meses se não quiser entrar em falência e que tem os mercados completamente fechados, de modo que só poderá sobreviver graças à benevolência do carniceiro, como diria Adam Smith. Da troika!, desde que cumpra os deveres.

A esquerda tem a ideia estúpida de que, aumentando artificialmente a capacidade aquisitiva dos cidadãos, a procura sobe e um país volta a crescer e a gerar emprego. Mas num mundo globalizado, as pessoas dos Estados livres e democráticos têm a capacidade de escolher. Não são obrigadas a comprar os produtos nacionais, pode acontecer, portanto, como tantas vezes sucedeu em Espanha, que o aumento do poder de compra sirva para enriquecer os países que ofereçam os produtos de melhor qualidade ao melhor preço, que é o santo-e-senha do capitalismo. Os intelectuais rive gauche têm como aliado dos seus absurdos postulados o prémio Nobel Paul Krugman, que há já tempo perdeu a cabeça em defesa das esquerdas americana e europeia. Mas trata-se de um aliado frágil. Nos EUA, o país mais flexível e inovador do mundo, a oferta é imensa e capaz de satisfazer qualquer aumento de procura, o que não aconteceu até agora em Espanha e, desde logo, está longe de acontecer na Grécia, muito menos sob as políticas anunciadas por Tsipras.

Estão a ver, portanto, que não sinto nenhuma compaixão pelos gregos. Escolheram o pior e terão de pagar as consequências. Mas pelos intelectuais de esquerda que lhes deram alento e que continuam a dar-lhes ânimo a caminho do precipício, ou pelos que em Espanha convidam a imitar a experiência votando no Podemos, sinto repulsa, porque dedicaram-se a vida toda a difundir arengas erradas sem jamais arriscar o que quer que fosse.

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