Não haverá nenhuma boa história para contar?

OPapa visitou há uns dias a região de Nápoles, uma zona com um desemprego alarmante e uma grande bolsa de economia paralela porque as pessoas não têm o bom costume de pagar os impostos. Ali, aproveitou para denunciar a injustiça deste mundo governado pela economia de mercado: "Conheço o caso de uma pessoa que ganha pouco mais de 600 euros por baixo da mesa e trabalha 11 horas por dia. Isto é uma situação de exploração insuportável. Não podemos estar satisfeitos com um mundo assim." Retive esta frase porque tenho um filho que acaba de terminar o curso, ganha 600 euros, de maneira legal, claro, e trabalha dez horas, mas não se considera explorado. Antes pelo contrário, está feliz. Acaba de terminar o curso, tem uma boa formação mas carece de experiência, portanto, considera-se um afortunado. Está a aprender e tem muito tempo pela frente para prosperar. É verdade que vive em minha casa, ou seja, não tem de pagar a habitação nem tem a obrigação de sustentar uma família, mas todos os dias se levanta com o empenho de fazer um pouco melhor o seu trabalho. Está convencido de que o esforço terá, com o tempo, a sua devida recompensa e eu procuro reforçar esta sua convicção natural. Quando eu comecei a trabalhar como estagiário também recebia um salário modesto. Nunca me ocorreu queixar-me. Procurei dar o melhor de mim e as coisas correram naturalmente bem. Suponho que também tive sorte, o que é importante. Não desejo ser exemplo de nada, limito-me simplesmente a relatar a minha experiência. Gabriel García Márquez costumava dizer aos jornalistas: "Escreve cada notícia ou cada história como se fosse a melhor da tua vida, porque alguma coisa desse empenho ficará retratada." Parece-me que é um hino ao otimismo.

A terrível recessão que temos atravessado deixou muitos cadáveres pelo caminho, mas é uma perda de tempo procurar culpados ou concluir que o infortúnio que está a atingir tantas pessoas é o resultado inexorável do sistema capitalista. A explicação para o que temos passado é simples. Quando, como no caso da Grécia ou de Espanha, se vive durante demasiado tempo com 10% mais de dinheiro do que aquele que se deveria ter, há um momento em que o casaco rebenta pelas costuras. Mas é perigoso tratar como vítimas aqueles que estão agora a passar dificuldades. Conservam certamente intactas todas as capacidades para superar a adversidade se o governo criar o ambiente adequado para que as oportunidades fluam, de-senvolver um bom sistema educativo e aprovar leis a favor da livre empresa. A escandalosa taxa de desemprego no meu país não é consequência do capitalismo, mas antes resultado da sua ausência. Desde os tempos do ditador Franco que as leis laborais têm promovido uma economia paternalista. Durante os ciclos de crise, os elevados custos do despedimento promoveram a falência generalizada de empresas, muitas das quais ter-se-iam salvado se tivessem tido flexibilidade para se ajustar à queda da procura, com mudanças de organização e fórmulas imaginativas sempre preferíveis à liquidação. Graças à pressão da troika, a situação melhorou agora com uma reforma laboral que aumentou a margem de manobra das empresas e reduziu o poder dos sindicatos, mas a tarefa pendente é imensa. O ditador Franco idealizou um sistema ardiloso: em troca da privação de liberdade dou-vos a maior segurança possível. A esquerda defende hoje o mesmo: como desconfia das eventuais consequências de exercer a liberdade, a sua proposta consiste em prometer a maior proteção possível. A experiência ensina que este trade off é nefasto, que a economia não funciona em tais circunstâncias, mas não há dissidentes à vista.

Nos anos de 2014 e 2015 serão criados no meu país mais de um milhão de empregos, mas não pensem que o clima ambiental melhorou. Os críticos, que são a maioria, dizem que se trata de um emprego precário, a tempo parcial, de carácter temporário e com salários baixos, como o do meu filho. E depois? Não conheço outra maneira de sair das recessões. A pergunta relevante é o que será melhor: este tipo de emprego, que é abundante na Alemanha e no Reino Unido, ou uma legião de desempregados a viver de subsídios? O trabalho é uma coisa santa, divina. Se não se tiver trabalho, não se tem alma. Não se encontra sentido na vida. Perde-se completamente a autoestima. Uma vez, um empresário disse-me: não há nada mais devastador do que os filhos voltarem da escola e encontrarem o pai de pijama sentado à frente do televisor. O desemprego é um drama tremendo. Descapitaliza as pessoas, debilita o núcleo familiar e a coesão social. Há que conseguir que as pessoas trabalhem ainda que seja por um preço menor. Eu faço parte daqueles que estão convencidos de que o aumento do investimento e da inovação tecnológica, que gera pouco a pouco o crescimento, acabará por produzir emprego mais estável e mais bem remunerado. Mas estou em minoria.

Ainda que, conjunturalmente, o governo seja de direita - que é incapaz de vender os seus êxitos e de despertar a esperança coletiva -, a maioria do meu país está situada à esquerda, que é ontologicamente pessimista porque desconfia da natureza humana. O resultado é que, apesar do notável crescimento da economia, uma boa parte dos meios de comunicação parecem encontrar satisfação e deleite em apreciar e contar aos demais apenas os aspetos negativos das mudanças ocorridas nos últimos anos. Se ligarmos o televisor ou comprarmos um qualquer jornal, ali encontramos a história das pessoas que perderam mais de 150% dos ordenados com a crise e que mal conseguem viver. Este catastrofismo generalizado deprecia o avanço geral de quase todas as variáveis económicas. Também não reconhece que as políticas desenvolvidas nos últimos anos evitaram a bancarrota do país. À esquerda, os avanços do produto e do rendimento nunca parecem motivo suficiente para o otimismo. Ela está envenenada pela ideia de que o progresso só pode vir da mão do Estado, desconfia de que se produza quando o mercado funciona livre de espartilhos e constrangimentos. Os sucessos não podem ser considerados como tal se não vierem acompanhados de mais direitos, ou seja, de mais intervenção estatal e ação coletiva. O importante não é produzir e crescer, mas sim redistribuir e igualar. E aceitar o contrário seria alguma coisa como refutar a sua razão de ser.

É natural que um país presidido por este sentimento derrotista tenha escassas possibilidades de avançar. Quando realizamos a reunião com a minha equipa da Actualidad Económica para delinear o próximo número interessam-me sempre as boas histórias, as histórias de êxito, as de empresários que, depois de fracassarem e terem perdido o seu património, voltaram a levantar-se e montaram um novo negócio; as daqueles que amam o risco e a aventura ou a de todos aqueles, como o meu filho, que entram no mercado de trabalho com um olhar límpido e todas as esperanças intactas. Normalmente, pergunto-lhes: mas não haverá nenhuma uma boa história para contar?

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