Merkel não é o diabo da Grécia

Os gregos decidiram que o Syriza, o partido da esquerda radical que anda há anos a rondar o governo, irá dirigir os destinos do país na próxima legislatura. É uma decisão errada e terrível. Eu posso compreender que os gregos estejam muito desesperados e fartos de que nem a direita nem a esquerda tenham conseguido fazer parar a deterioração do país durante a última década. Mas já sabem que a minha tese é de que os dirigentes políticos não são piores do que os cidadãos e que refletem as preferências políticas das pessoas comuns. No caso da Grécia - é desagradável dizê-lo - aquelas consistiram em viver muito acima das possibilidades, enganar as finanças públicas e naufragar num mar de corrupção que inunda todos os estratos da sociedade. Os gregos votaram no Syriza porque querem acabar com a tirania da troika. Pensam que Merkel foi a verdadeira chefe do governo de Atenas durante os últimos anos. Mas esta ideia não resiste a uma análise. Pelo contrário, Merkel foi a responsável de se terem transferido recursos para a Grécia no valor de 240 mil milhões, que permitiram continuar a pagar as pensões, a saúde e a educação em troca de duros esforços de saneamento e de aumento da eficiência num setor público omnipresente e degradado. Com um êxito muito limitado, deve dizer-se.

O Syriza quer acabar com o atual estado de coisas. Quer pôr fim à austeridade, desembaraçar-se das imposições da troika, quer reorganizar um país que tem uma dívida pública de 170% do PIB e que depende imperativamente dos seus credores ao mesmo tempo que lhes cospe na cara. Não parece muito inteligente. É um mistério como este tipo de governo pode ter alguma possibilidade de êxito. Um governo que quer revitalizar o Estado do bem-estar, subir os salários e aumentar a despesa pública, mas que não tem a capacidade de arrecadar os recursos necessários para reinstaurar um modelo que já demonstrou ser um fracasso e ser inviável. A prova de que Merkel não é a reencarnação do diabo, e de que tem um interesse verdadeiro em que a economia europeia recupere o pulso, é o facto de ter dado o seu apoio à compra maciça de dívida pública anunciada por Mario Draghi, o presidente do BCE. Há um consenso geral de que esta expansão monetária será muito positiva, desde logo para a Grécia. Mas os consensos gerais são sempre suspeitos. Frequentemente escondem armadilhas. É verdade que o fluxo de dinheiro público contribuirá para desvalorizar ainda mais o euro face ao dólar - o que fomentará a competitividade das empresas europeias -, que também baixará as taxas de juro a médio e longo prazo, que a banca privada será inundada de liquidez - que poderá dedicar-se com mais empenho a emprestar às famílias e às empresas sempre que estas demonstrem um grau adequado de solvência - e que ajudará a aumentar o crescimento.

Mas quem pensa que o último cartucho disparado pelo BCE é a panaceia que resolverá todos os problemas está enganado. Aos nossos políticos agrada-lhes um banco central que se encarregue de reparar os defeitos dos países membros porque assim podem reduzir ao máximo o desgaste em que se incorre quando se adotam medidas impopulares, como são os ajustes fiscais - que significam gastar o mínimo possível - e as reformas estruturais - que têm como consequência a perda de direitos adquiridos contra a qual se revoltam todos os estratos sociais, tanto a classe alta como a baixa. Mas os efeitos da política monetária são limitados, e contém o grave risco de que o abuso da mesma dissuada os governos de adotar as medidas necessárias para tirar as suas economias do atual marasmo. Em França, a grande enferma da Europa, o peso do Estado é asfixiante, trabalha-se menos horas do que em qualquer outro país do continente, a despesa pública é enorme e os impostos muito elevados. De pouco servirá a injeção de liquidez de Draghi se o primeiro-ministro Valls não conseguir dar uma volta ao país.

E o mesmo se pode dizer de Itália, com o mercado laboral mais rígido da zona, uma despesa em saúde colossal e uns impostos proibitivos. Ou Renzi avança, por muitas greves gerais que haja, ou a política monetária do BCE será uma ilusão. É isso que a Alemanha receia, ainda que tenha permitido finalmente o desvio, e os liberais como eu que desconfiam da prodigalidade monetária. Contrariamente ao que pensa a maioria dos gregos, o Syriza e outros partidos semelhantes como o Podemos em Espanha, temos de dizer pelo menos três coisas que me parecem irrebatíveis: a primeira é que para garantir o poder aquisitivo das pensões e dos salários convém levar a cabo uma política monetária ortodoxa. A segunda é que a despesa social, que é essencialmente improdutiva, não estimula o crescimento. E a terceira que vale muito bem para a Grécia e para os excitados espanhóis do Podemos é que os estímulos fiscais à procura esfumam-se num contexto de globalização económica, porque ninguém está obrigado a comprar produtos nacionais se os estrangeiros forem mais atrativos e baratos. Como é possível que no século XXI haja partidos que ganhem as eleições defendendo o contrário!

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