Há que pedir perdão por ganhar dinheiro?

As crises podem ser uma boa oportunidade para começar de novo, para tratar de mudar o modelo social e económico que conduz irremediavelmente ao declínio. Quando Margaret Thatcher ganhou pela primeira vez as eleições, em 1979, o Reino Unido atravessava um descontentamento gigantesco. O país estava devastado pelas greves. A economia à beira do colapso. Ela propôs-se a dar-lhe uma volta de 180 graus, desregulando o setor financeiro, privatizando as empresas públicas, baixando os impostos e cortando no poder dos sindicatos. Mas Thatcher nunca viu a sua passagem pela política como a de um canalizador que arranja a canalização de um país. Tinha a visão grandiosa que caracteriza um líder. O seu objetivo era transformar o país na sociedade aberta de que falava Popper: acabar com a intromissão do Estado, devolver o poder aos indivíduos através da propriedade privada, incentivar o amor ao risco e restabelecer os níveis de liberdade individual e de responsabilidade pessoal arrebatados pela corrente coletivista que tinha vindo a contaminar o Reino Unido desde há uma década.

Receio que nada disto vá acontecer devido à terrível recessão que acabamos de superar. Os governos que tiveram de lidar com a crise em Portugal ou em Espanha, por exemplo, não tiveram outro remédio que não o de cortar na despesa para equilibrar as contas públicas e flexibilizar o mercado laboral para tornar as empresas competitivas. Agora o défice público é controlável, a banca está saneada e na disposição de financiar a economia e a atividade voltou a crescer, começando a gerar emprego. Passos Coelho e Rajoy funcionaram como uma grande oficina de reparações. Ninguém sensato pode dizer que sejam maus gestores. Mas não são os líderes que a ocasião merecia. Não houve substrato ideológico por trás das suas políticas, um projeto de país capaz de despertar a ilusão coletiva. Um afã por derrubar o consenso social-democrata em que está instalado o continente europeu há tantos anos.

Antes pelo contrário, a esquerda conseguiu incutir no imaginário coletivo a ideia falaciosa de que, como consequência das políticas de austeridade para combater a crise, os ricos estão cada vez mais ricos, os pobres cada vez mais pobres e a classe média está em fase de proletarização. E neste ambiente, a competição por demonstrar quem tem uma maior sensibilidade social e defende melhor os interesses dos desfavorecidos transformou-se no eixo central da discussão política. Em Espanha, por exemplo, onde a economia vai crescer este ano mais de 3%, o primeiro-ministro, Rajoy, declarou no último debate sobre o Estado da Nação que tinha chegado a hora de aliviar o sofrimento dos cidadãos, como se tivesse problemas de consciência por ter voltado a pôr o país nos eixos! Este tipo de pensamento é letal. O caminho para melhorar o nível de vida dos cidadãos não assenta na aplicação de políticas redistributivas à base de subsídios e ajudas diversas, mas antes na criação de condições para que a economia cresça e gere postos de trabalho. E isto consegue-se com uma fiscalidade baixa e um mercado laboral flexível.

Quando Thatcher reduziu os impostos no Reino Unido estava a passar a mensagem de que o sítio melhor para o dinheiro estar é o bolso dos cidadãos, que estes devem aspirar a conservar a maior parte do fruto do seu trabalho para assim ganharem liberdade de escolha. O ponto de partida da política britânica era o de fazer que as pessoas ambicionem melhorar as suas condições de vida e as dos seus filhos. Passos Coelho e Rajoy não pensam o mesmo. Creem que o que há que evitar é que essas condições se deteriorem, o que é o mesmo que resignar-se a uma sociedade de expectativas limitadas, presidida pela mediocridade e por um igualitarismo pífio.

Em Espanha, como consequência da crise e dos casos de corrupção, está em marcha um movimento generalizado contra o dinheiro. O enriquecimento ilícito de alguns estendeu a suspeita sobre todos os que estão bem na vida, mesmo que a sua fortuna seja o resultado do trabalho duro, de uma boa formação e de ter cumprido a regra máxima do capitalismo, que é satisfazer a procura dos outros com a melhor qualidade e ao melhor preço possível. A eficaz propaganda da esquerda conseguiu urdir a trama de que os ricos e as grandes empresas mal pagam impostos. Mas trata-se de uma grande mentira. A taxa marginal de 47% sobre o rendimento pessoal em Espanha é uma das mais altas da Europa e é aplicada a partir de um nível muito mais baixo do que noutros países, começa nos 60 mil euros, desincentivando o trabalho. E também não é verdade que a lei fiscal seja generosa para com as grandes empresas. Mas como a direita que governa Espanha - tal como em Portugal - apenas aspira a ser uma tecnocracia competente e carece de um modelo social e económico próprio, um modelo com que seduzir os cidadãos, o sentimento do país está envenenado. Há um ambiente geral antiempresa, reticente ao mercado, suspeitoso dos que se destacam e triunfam, mais do que nunca inclinado para a ideia perniciosa de que o Estado está obrigado a tirar-nos da adversidade. Um vento oposto ao ar fresco que Thatcher conseguiu imprimir indelevelmente na sociedade britânica, onde as pessoas possuem uma grande confiança na sua capacidade para construir o futuro delas.

Como recorda o meu amigo Lorenzo Bernaldo de Quirós, grande economista liberal, "ser rico, ganhar muito dinheiro, ter perspetivas e desejos de prosperar são virtudes, não defeitos". Acumular capital para legar aos nossos descendentes, e que aquele não sofra da voracidade arrecadadora dos governos, é uma boa causa. Porque há de impedir qualquer socialista arrogante que preparemos um futuro melhor para os nossos filhos? Em conclusão, temos de pedir perdão por ganhar dinheiro? Na resposta a esta simples pergunta está a diferença entre as sociedades com futuro e as que apostam na mediocridade. E receio que nem Espanha nem Portugal estejam entre as primeiras.

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