Há que matar o pensamento único

Se alguém se questiona por que pode a Espanha perder a estabilidade política quando vierem as próximas eleições nos finais deste ano, e há possibilidades de que uma coligação heterogénea de esquerda possa governar o país, a resposta principal está na televisão. As duas principais estações do país, vistas diariamente por milhões de pessoas, são de esquerda. Programam debates políticos de manhã, à tarde e à noite que têm uma audiência muito respeitável e estão povoados por personagens, muitas delas irascíveis e desacreditadas, que desconhecem os princípios mais elementares da economia de mercado. Inclusive os que proveem do mundo conservador, que são a minoria, carecem de princípios claros sobre como se gera a riqueza ou em que consiste o dinheiro. O resultado é que uma pessoa senta-se a jantar com a família e o país, que está a crescer a um ritmo superior a 3% e vai produzir este ano mais de meio milhão de postos de trabalho - 400 mil em 2014 -, transforma-se no ecrã num país à beira de uma crise humana, numa situação de emergência social. O mantra do momento é a enorme desigualdade produzida pela crise. Por isso são frequentes os programas em que se compara os ordenados gigantescos dos grandes executivos com os dos recém-empregados, cuja diferença é, logicamente, abissal. Também se aproveita para fomentar a cultura que condena o emprego precário, apesar de este ter sido, desde sempre, a alavanca para prosperar e ter uma carreira de sucesso.

Eu estudei que o papel da imprensa é informar, formar e entreter. Mas no meu país os meios de comunicação transformaram-se num sólido aliado da má educação. Os sentimentos que exaltam diariamente são a inveja e o ressentimento. Também na indústria editorial, uma grande parte das novidades são dedicadas a revelar os segredos de uma nação ironicamente arruinada. Antón Losada, um jornalista dos mais sectários do país, acaba de publicar um livro intitulado Los ricos vamos ganando [Os ricos estão a ganhar]. A tese é que as coisas acontecem porque alguém sai beneficiado e porque a classe endinheirada soube converter a crise numa oportunidade política para subverter o modelo das sociedades do bem-estar. Diz isto apesar de o último orçamento de Rajoy registar um crescimento nas despesas sociais mais que notável. Mas não importa. Para esta teia de interesses obscuros formada pelo mundo da imprensa e a indústria editorial, a economia é uma questão de soma zero. Quem ganha mais do que aquilo que é arbitrariamente considerado devido ou justo é porque está a cometer um latrocínio. Conseguiram patentear com êxito a ideia de que as políticas económicas mundiais estão dominadas pelo que chamam o pensamento único, que na sua opinião é o neoliberalismo. Também no DN se faz muitas vezes referência a esta falácia colossal, porque não há nada que esteja mais longe da realidade. Quando se observa o peso que a despesa pública continua a ter nos orçamentos dos principais países da Europa, o alto nível de impostos, a enorme dimensão dos Estados de Bem-estar ou o grau de intervenção a que está submetida a maioria das economias, a conclusão é precisamente a contrária. Há, com efeito, pensamento único, mas este é o socialista.

É indiferente que o capitalismo, com a globalização do comércio e a inovação tecnológica, haja conseguido aumentar exponencialmente a produtividade, assim como arrancar milhões de pessoas da pobreza, especialmente nos lugares mais povoados como a China, a Índia ou o Brasil. Apesar da evidência empírica, em Espanha e, inclusive, nos Estados Unidos, há muitos compatriotas que pensam, equivocadamente, que o mundo está hoje bastante pior do que há décadas. É difícil perceber porque acontece este tipo de erro tão notório, mas não há dúvida de que reflete a preferência dos cidadãos. Em qualquer país com uma certa força moral, o normal seria que, agora que a economia dá sinais evidentes de melhoria, as pessoas reclamassem o direito a ficar com mais uma parte do que ganham. Mas em Espanha sucede o contrário. As pessoas exigem mais ajudas do governo. No dia 1 de março, um editorial do El País, o jornal diário espanhol com maior tiragem, também de esquerda, assegurava que "é incongruente planear uma baixa de impostos quando a economia começa a recuperar". Pelo contrário, escrevia, "haveria que, inclusivamente, subir os impostos para aumentar a receita pública, recuperar as ajudas à educação e à saúde e fazer frente às necessidades dos cidadãos". Mas quais são as necessidades dos cidadãos? A tese subjacente nas propostas da esquerda é a que foi sustentada, com grande respaldo na altura, por Evita Perón, quando disse que toda a necessidade é um direito. Mas esta maneira de pensar só produz nações medíocres ou sociedades construídas a partir do rancor, que é o pior ponto de partida para se chegar a bom porto.

Quando se transmite àqueles que têm problemas a ideia de que são vítimas, está-se a torpedear a sua capacidade para se superarem e triunfarem. Quando se considera que alguém que fez um bom negócio deve pagar uma parte à sociedade, está-se a matar o espírito empresarial. Há que quebrar o consenso social-democrata, que é o pensamento único genuíno, no qual está instalada até a direita espanhola de Rajoy. O pensamento que domina em todos os países continentais europeus, incluindo Portugal; inclusive o que Obama deseja instalar nos Estados Unidos, postulando mais segurança à custa da liberdade. Quando os emigrantes europeus desembarcaram em Nova Iorque não pensavam ter chegado ao lugar onde desfrutariam de ajudas e regalias. Pensavam que haviam chegado ao sítio adequado para construírem as suas vidas. É esse o sonho americano a que todos deveríamos aspirar. A força moral que deveria presidir à nossa vida. O que faz falta nas sociedades europeias esclerosadas. Mais liberdade e igualdade de oportunidades para que as pessoas desenvolvam as capacidades inatas que matam os subsídios. Mais esperança

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