Com Cristiano e Schumpeter em Roma

Passei o fim de semana da Páscoa em Roma com os meus filhos. Têm 23 e 20 anos e quatro dias a seu lado equivalem a um curso intensivo de relações pessoais. Tirei algumas conclusões desta convivência acelerada. A primeira é que, mais do que meus filhos, são filhos das leis socialistas da educação, que são as únicas que têm estado vigentes no meu país desde que começou a democracia. O objetivo do monopólio educativo da esquerda tem sido procurar a igualdade de resultados sem ter em conta as capacidades naturais de cada pessoa. O resultado tem sido o previsível: a mediocridade lacerante da formação. Também se tem depreciado as línguas clássicas ou o amor pela história e a arte que tanta importância têm, sem que o sacrifício tenha melhorado notoriamente a competência dos nossos estudantes nas disciplinas práticas. Esta falta de rigor é uma fonte de problemas. Quando entramos nos Museus Vaticanos a fim de contemplar a Capela Sistina e chegamos a este colosso pictórico onde está representado o génesis, onde estão alegoricamente detalhadas as passagens míticas das Sagradas Escrituras e relatados os pormenores que poderiam acompanhar o Juízo Final, tinham já passado três horas desde que tínhamos iniciado o percurso. Por esta altura da manhã, os meus filhos já só desejavam uma piza. Estavam-se nas tintas para as penas que Miguel Ângelo teve de suportar para satisfazer um Papa obstinado que o tinha encarregado de decorar aquele espaço diferente. Só queriam comer qualquer tipo da inefável pasta italiana. A instrução socialista produziu em Espanha, como se vê no meu caso, jovens impacientes e despreocupados com o passado.

Também constatei que o objetivo prioritário dos meus filhos é ganhar dinheiro, quanto mais melhor. Depois do fiasco da Capela Sistina isto pareceu-me algo reconfortante se tiverem consciência dos meios que têm de usar para o efeito. Por exemplo, eles adoram Cristiano Ronaldo mas não sei se valorizam os enormes sacrifícios que ele teve de fazer para triunfar partindo de uma situação tão precária. Invejam igualmente os personagens do "telelixo", muito bem pagos por exporem as suas insignificâncias na praça pública. Não o reprovo. Eu penso, contra a opinião dominante, que tanto os futebolistas milionários como alguns "palhaços" da televisão ganham tanto dinheiro porque cumprem uma função social inquestionável: entretêm o número suficiente de cidadãos - e atraem a publicidade necessária - para justificar a sua remuneração. O objetivo último das empresas é maximizar o benefício, obter a maior rentabilidade possível, mas nada disto será possível sem cumprir com a regra básica do capitalismo, que é satisfazer as necessidades dos demais ao menor preço e com a maior qualidade possível. Os meus pais reformados, que têm uma formação média e pouca mobilidade, aborrecer-se-iam enormemente sem a sua dose diária de telelixo. Os estádios de futebol não se encheriam sem Cristiano e Messi, nem as cadeias de televisão conseguiriam, na ausência deles, audiências milionárias. O essencial do capitalismo não é conseguir um rendimento, mas sim dar; não é receber, mas sim prestar, esperando a justa recompensa depois de se ter satisfeito a aspiração de todos os agentes que intervêm no mercado. Creio que os meus filhos intuem este princípio: o dinheiro ajuda, mas não dá a felicidade. A felicidade provém da satisfação de servir os outros; no caso da empresa, em troca de um benefício razoável; no campo individual, procurando voluntariamente o bem-estar da comunidade a que se pertence sem esperar nada em troca.

Mas a surpresa mais positiva da viagem foi comprovar que os meus filhos aspiram a ser empresários, a montar um negócio. Isto não é frequente em Espanha por dois motivos. O primeiro é que as escolas, em lugar de fomentarem o empreendimento, continuam a respaldar a cultura de um trabalho dependente e seguro. Para toda a vida. A segunda é que, segundo os livros que os meus filhos estudaram, produto da instrução socialista, a empresa é algo parecido com um campo de concentração; o empresário, um ser implacável; o especulador, um criminoso; a concorrência, uma luta entre gangues mafiosos; a publicidade e o consumo, o ópio do povo; o comércio internacional, uma fonte inesgotável de pobreza; a globalização, a apoteose do capital explorador e, em geral, a economia livre, uma ameaça para o meio ambiente e o progresso. Por muito que vos pareça estranho, nos livros de texto pelos quais estudam os jovens do meu país fala-se das multinacionais como de monstros dedicados a explorar o património dos países pobres e vitupera-se o empresário pela sua procura desmedida do lucro; se não investe é igualmente denegrido como alguém que vive dos rendimentos e condena-se o individualismo e o desejo de ascensão social, enquanto se elogiam todos os exemplos do contrário: os líderes socialistas ou comunistas pela sua simplicidade, pela sua austeridade e pela sua firmeza frente ao avanço do capitalismo predador, apesar de o sistema por eles defendido só ter produzido, segundo a evidência empírica, um empobrecimento em massa nos locais onde foi aplicado.

Não sei qual é o estado das coisas em Portugal, mas em Espanha os princípios básicos que ainda se transmitem em muitas escolas e universidades vão construindo uma escala de valores oposta àquela que conduziria a uma modernização económica. Os textos de estudo põem a ênfase na intervenção dos mercados, que, como tendem a ser perversos, devem ser regulados por uns políticos ou funcionários dotados de visão e inteligência superiores. A figura do empresário, em lugar de aparecer como o principal responsável pelo processo de criação de riqueza e de emprego, é apresentada com conotações negativas, como responsável pela exploração dos trabalhadores, do meio ambiente ou dos consumidores.

Desconheço a razão pela qual os meus filhos, que participaram de toda esta instrução ofensiva e obscena, anseiam ser um dia empresários e montar um negócio. Gostaria de pensar que será porque um dia lhes falei de Schumpeter ou os exortei ao amor ao risco e à aventura. Já que não consegui que desfrutassem da Capela Sistina como lhes teria permitido uma formação humanista e liberal, venho de Roma satisfeito pelo espírito empreendedor deles, com o conhecimento prévio de que tanto podem colher o êxito que observam em Cristiano como o fracasso de muitos outros, inclusive mais invejáveis porque jamais se deram por vencidos e que deram sempre tudo por tudo para se levantarem do chão, dando fôlego a esse processo de destruição criativa de que falava o genial pensador austríaco.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG