Angela Merkel: nem demasiado austera nem reformista

A esquerda radical que começou a governar na Grécia e a que aspira, espero que em vão, a fazê-lo em Espanha através do Podemos construiu uma imagem venenosa da chanceler alemã, Angela Merkel. Mas trata-se de uma imagem completamente distorcida. De acordo com a sua tese, estamos em presença da campeã da austeridade, perante a qual não querem voltar a baixar a cabeça. A minha opinião é de que terão de continuar a fazê-lo, porque ninguém como a Grécia, que necessita de 14 mil milhões de euros nos próximos meses para continuar a pagar aos seus funcionários e pensionistas, e que não os vai obter no mercado, pode adotar durante muito tempo o ar arrogante com que Tsipras e Varoufakis se passeiam pela Europa. É verdade que Merkel aspira a receber todo o dinheiro que os bancos alemães emprestaram à Grécia até à data - que ultrapassa os cem mil milhões -, e que apenas está disposta a melhorar as condições de pagamento dessa dívida se a Grécia em troca fizer, como antes fizeram a Irlanda, Portugal e a Espanha, as reformas estruturais que tanto êxito estão a ter em todos estes países. Mas estabelecidas estas premissas, a questão que vale a pena discutir é se Merkel é realmente uma política austera e se se comporta como tal no seu país. E a resposta é não.

Se tivermos a sorte de conhecer alguns economistas alemães, como é o meu caso, e a oportunidade de lhes fazer perguntas sobre Merkel, as respostas são surpreendentes e desmistificadoras. A chanceler não foi austera, nem durante todos os anos que governou o país agiu como defensora acérrima das reformas. É verdade que o orçamento alemão registará neste ano pela primeira vez um défice zero, mas a razão para as contas irem ficar equilibradas é o extraordinário aumento dos impostos diretos e indiretos. No que respeita à despesa, o governo de centro-direita tem desenvolvido sempre uma política muito redistributiva, sobretudo em relação aos pensionistas. Os impostos na Alemanha são bastante elevados, não tanto como em Espanha, mas são altos, e o ministro das finanças, Wolfgang Schäuble, negou-se sistematicamente a reduzi-los como sempre lhe pediu, enquanto foi possível, o seu aliado natural no governo entre 2009 e 2013, o Partido Liberal, agora de fora por infelicidade do arco parlamentar.

Mas além de não ser realmente austera no campo orçamental, Merkel tampouco se destacou pela sua vocação reformista e tem demonstrado uma inclinação pelo pacto social que pode resultar perturbadora a médio prazo. De facto, a Alemanha abandonou a bem-sucedida e frutuosa política de moderação salarial que lhe permitiu até há pouco ganhar competitividade e consolidar um setor externo invejável. É esta a estratégia que tem vindo a fortalecer o investimento privado no país, muito mais do que o bom ambiente financeiro promovido pelas baixas taxas de juro do Banco Central Europeu. Mas tem muito pouco que ver com Merkel. Foi o resultado das reformas sucessivas empreendidas há mais de uma década pelo socialista Gerard Schröder para flexibilizar o mercado de trabalho e conter os custos laborais. Para que se faça uma ideia de que contribui para explicar o que aconteceu em Espanha no passado, entre 1998 e 2008, os custos laborais no meu país aumentaram cerca de 40%, enquanto na Alemanha cresceram a um ritmo de 15%. É esta a razão que explica o tradicional baixo desempenho da economia espanhola e também a causa da potência da Alemanha.

Mas a todo-poderosa chanceler, o inimigo público número um da esquerda na Europa, parece disposta a que esta vantagem competitiva se esfume. Nunca foi uma dama de ferro ao estilo da admirada Margaret Thatcher, mas agora mais do que nunca começou a atraiçoar a filosofia de desregulação e flexibilização de Schröder ao estabelecer um salário mínimo que segundo os principais institutos de estudos económicos do país pode chegar a destruir até 300 mil empregos. Simultaneamente, as transferências para o setor dos pensionistas não só se mantêm como aumentam. A trajetória de Merkel é igualmente digna de crítica em relação à política energética, um âmbito no qual parece decidida a cometer os mesmos erros que os governos socialistas espanhóis, favorecendo as energias verdes, que são muito caras e oferecem um rendimento mais do que discutível. Mais ainda, a determinação reformista de Merkel brilhou pela ausência no setor bancário, que padece na Alemanha de um grande excesso de capacidade, é muito pouco eficiente e tem uma regulação muito melhorável.

Em demasiadas ocasiões a realidade não é o que parece e o caso de Merkel é um exemplo notório. A esquerda radical, inclusive a convencional, pensam que a política alemã é um risco para a Europa porque continua a defender a todo o custo as políticas de austeridade e sugerindo reformas nos setores de bens e serviços para acabar com os privilégios e melhorar a eficiência económica. Mas nós, os que acreditamos que à Europa convém uma Alemanha forte e exemplar, estamos realmente preocupados com a grande aliança impulsionada sem necessidade por Merkel. Pode pôr em risco, a médio prazo, o equilíbrio orçamental do país e desbaratar os ganhos de competitividade promovidos por um socialista como Schröder, conquistado para a causa liberal, não como os que temos a infelicidade de aguentar em Espanha ou em Portugal.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG