Marisa Matias

E agora, senhora May?

Se a convocação do brexit já havia sido fruto de uma luta interna dentro do partido conservador, a consolidação de um acordo de saída mantém o drama ali centrado. Mais do que um problema de relacionamento presente e futuro com a UE, o que Theresa May na realidade continua a enfrentar é o espectro de uma crise política no governo britânico a qual, em último caso, pode ser constitucional. Não é o facto de se ter forjado uma solução para a fronteira irlandesa, na prática colocando a Irlanda do Norte num regime de exceção dentro do Reino Unido, que o brexit ficou formalmente decidido. Desde logo, porque não há unanimidade no cabinet. E mesmo que os ministros mais céticos saiam hoje de Downing Street com um sorriso nos lábios, tal não passará de um assomo de cinismo que não traz nenhuma coesão a um governo já por si profundamente desgastado.

Bernardo Pires de Lima

Notícias da frente da guerra

PremiumPassaram cem anos do fim da Primeira Guerra Mundial. Foi a data do Armistício assinado entre os Aliados e o Império Alemão e do cessar-fogo na Frente Ocidental. As hostilidades continuaram ainda em outras regiões. Duas décadas depois, começava a Segunda Guerra Mundial, "um conflito militar global (...) Marcado por um número significativo de ataques contra civis, incluindo o Holocausto e a única vez em que armas nucleares foram utilizadas em combate, foi o conflito mais letal da história da humanidade, resultando entre 50 e mais de 70 milhões de mortes" (Wikipédia).

Nuno Artur Silva

A atrocidade, o mundo e Portugal

Ainda estamos longe de um pedido de desculpas ao mais alto nível, que um dia acontecerá. Até lá, devemos perceber melhor o tráfico de escravos do Atlântico e como Portugal e os portugueses se envolveram. Um caminho que nos ajudará a melhor perceber o mundo global de hoje e reconhecer o quanto foi feito à custa da repressão dos mais fracos. Um passado que nos põe de sobreaviso sobre a necessidade de se resolverem problemas actuais, à escala global. O mundo pode e deve ser diferente.

Pedro Lains

As vidas atrás dos espelhos

Mais do que qualquer apetite científico ou do que qualquer desejo de mergulho académico, o prazer dos documentários biográficos vai-me servindo sobretudo para aconchegar a curiosidade e a vontade de descobrir novos pormenores sobre os visados, até para poder ligar pontas que, antes dessas abordagens, pareciam soltas e desligadas. No domínio das artes, essas motivações crescem exponencialmente, até por permitirem descobrir, nas vidas, circunstâncias e contextos que ganham reflexo nas obras. Como estas coisas valem mais quando vão aparecendo naturalmente, acontecem-me por revoadas. A presente pôs-me a ver três poderosos documentos sobre gente do cinema, em que nem sempre o "valor facial" retrata o real.

João Gobern

O João. Outra vez, o João Salaviza...

PremiumFoi neste fim de semana. Um fim de semana em que o cinema português foi notícia e ninguém reparou. Entre ex-presidentes de futebol a serem presos e desmentidos de fake news, parece que a vitória de Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos, de Renée Nader Messora e João Salaviza, no Festival do Rio, e o anúncio da nomeação de Diamantino, de Daniel Schmidt e Gabriel Abrantes, nos European Film Awards, não deixou o espaço mediático curioso.

Rui Pedro Tendinha

A globalização que terminou em barbárie

Era uma vez um mundo onde bancos e empresas cada vez maiores, tirando partido das novas tecnologias e da liberalização das trocas entre países, conduziram as economias nacionais a uma profunda integração global. Este processo trouxe riqueza para alguns e pobreza para outros. Acima de tudo trouxe instabilidade, desigualdades e mudanças sentidas como excessivas por grande parte das pessoas. As populações começaram a questionar os políticos de sempre e a acolher discursos de ruptura. Em vários países começaram a chegar ao poder movimentos e indivíduos autoritários e agressivos. O mundo acabou afundado em guerras, morte e repressão. Isto não é uma previsão - é uma lição da história que nos chama a atenção para os riscos da era em que vivemos.

Ricardo Paes Mamede

O caso da password promíscua

Uma vez, há mais de 30 anos, estava eu a escrever para o jornal Le Monde e fui fazer uma reportagem ao Parlamento português. Era sexta de manhã e assinalei ao fotógrafo este e aquele deputado nortenho a assinar a folha de presenças. Depois, a nossa equipa de reportagem foi para Santa Apolónia onde apanhámos o comboio do meio da manhã para o Porto. E quem lá ia? Claro, vários deputados, de vários partidos, estranhamente a caminho de casa, quando acabavam de deixar testemunho assinado de que estavam, àquela hora, em trabalho parlamentar na capital.

Ferreira Fernandes

Entre apps e plantas

A Web Summit acabou, mas volta, e volta por mais dez anos, e isto são excelentes notícias. E não é por Marcelo ter reanunciado outra vez a sua recandidatura nem pela coisa em si e pelo bem que faz à cidade e ao país. É mesmo porque assim temos mais dez anos para ouvir, durante uma semana em novembro, que é sempre um mês difícil porque é o mais normal de todos, o mês em que as pessoas já trabalham e esqueceram o verão e ainda não foram para o Natal, de termos ali logo no início o privilégio, o prazer, o deleite, de ouvirmos na rádio, televisão e jornais, no digital e no papel, as grandes pérolas de sabedoria daqueles que são contra a Web Summit. Pena que não os possamos ouvir em meses tristes e normais, como um março ou até um abril, mas não se pode ter tudo e agora temo-los mais dez anos, na primeira semana de novembro.

João Taborda da Gama

O fantasma na linha de produção

PremiumTal como o desejo erótico, o medo é uma daquelas emoções universais que se fragmenta em inúmeras idiossincrasias no ponto de chegada. Além de ser contextual, depende também muito da maneira como um elemento exterior interage com o nosso repositório pessoal de fobias e atavismos. Isto, pelo menos, em teoria. Na prática (a prática, para este efeito, é definida pelo somatório de explorações ficcionais do "medo" no pequeno e no grande ecrã), a coisa mais assustadora do mundo é aparentemente uma figura feminina magra, de cabelos compridos e desgrenhados, a cambalear aos solavancos na direcção da câmara. Pode parecer redutor, mas as provas acumuladas não enganam: desde que foi popularizada pelo filme Ring em 1998, esta aparição específica marca o ponto em filmes e séries ocidentais com tamanha regularidade que já se tornou uma presença familiar, tão reconfortante como um peluche de infância. É possível que seja a exportação japonesa mais bem-sucedida desde o Toyota Corolla e o circuito integrado.

Rogério Casanova

Adeus, futuro. O fim da intimidade

Pelo facto de dormir no quarto da minha irmã (quase cinco anos mais velha do que eu), tiveram de explicar-me muito cedo por que diabo não a levavam ao hospital (nem sequer ao médico) quando ela gania de tempos a tempos com dores de barriga. Efectivamente, devia ser muito miúda quando a minha mãe me ensinou, entre outras coisas, aquela palavra comprida e feia - "menstruação" - que separava uma simples miúda de uma "mulherzinha" (e nada podia ser mais assustador). Mas tão depressa ma fez ouvir com todas as sílabas como me ordenou que a calasse, porque dizia respeito a um assunto íntimo que não era suposto entrar em conversas, muito menos se fossem com rapazes. (E até me lembro de ter levado uma sapatada na semana seguinte por estar a dizer ao meu irmão para que servia uma embalagem de Modess que ele vira no armário da casa de banho.)

Maria do Rosário Pedreira

O monoteísmo do "deus dólar" continua

PremiumEm 1866, o jovem Eça de Queirós aproveitou a passagem por Lisboa do moderníssimo couraçado norte-americano USS Miantanomah para escrever na imprensa algumas notas penetrantes sobre a identidade dos EUA. No essencial ele identificava uma tensão matricial em Washington, definida pela oposição entre o "deus dólar", que explicava a violência expansiva, mesmo desumana, do seu capitalismo, e o impulso para a "justiça", traduzido na abolição da escravatura ao preço do enorme sacrifício da Guerra Civil, terminada no ano anterior. Gostaria muito de poder subscrever a tese de que nas recentes eleições intercalares a justiça prevaleceu sobre a idolatria do capital. Infelizmente, o sinal positivo dado pelos eleitores é ainda insuficiente para atenuar a gravíssima patologia da democracia nos EUA.

Viriato Soromenho-Marques