Os acontecimentos da semana

1 A VITÓRIA DE OBAMA: Vale a pena, passados alguns dias, escrever ainda sobre a vitória eleitoral do Presidente Barack Obama. Não foi uma vitória qualquer. Foi uma vitória histórica, à qual as sondagens davam, quase até ao fim, um empate técnico entre os dois rivais e a Direita, americana e europeia, sonhava - e escrevia - sobre a possível derrota do Presidente.

Enganou-se. Curiosamente, Barack Obama ganhou, obviamente, com o apoio dos democratas - Clinton, entre outros, ajudou-o e muito - mas, por ordem, com os votos das mulheres, dos jovens, dos afro-americanos e dos latino-americanos (portugueses, brasileiros, espanhóis e sul-americanos) e, naturalmente, dos intelectuais e académicos. Ao contrário dos republicanos, cujos votos vieram sobretudo dos meios rurais e dos grandes interesses económicos.

O discurso de vitória de Obama foi, como de costume, excecional: voltado para a frente, com a sua visão humanista, confiante no futuro da Grande América, "o melhor está para vir", disse, preocupado com a paz mundial e as desigualdades sociais e, como homem progressista, em vencer a crise tremenda, que afeta o Ocidente e não só. Mas como? Desenvolvendo a economia americana e lutando contra o desemprego. Exatamente ao contrário do que a União Europeia tem vindo a fazer...

Obama, no seu discurso de vitória, não se referiu à União Europeia e aos seus dislates, cada vez mais à vista de todos. Mas a sua vitória trouxe um vento de mudança que começou a soprar, na Zona Euro e que contribuirá - como é necessário - para mudar o paradigma, como é urgente que suceda, para que o euro se fortaleça, os mercados usurários obedeçam aos Estados e a solidariedade, que é um dos principais fundamentos da União, possa finalmente substituir-se aos nacionalismos de um outro tempo... Não se referiu à Europa, por delicadeza, mas está no seu pensamento e na lista das suas principais preocupações, sendo como é, a União Europeia, o seu mais importante aliado.

2 MERKEL EM PORTUGAL

A convite do Governo, a chanceler alemã resolveu passar escassas cinco horas em Portugal, em visita ao seu fiel discípulo, o primeiro-ministro, ao Presidente da República e a alguns empresários escolhidos. É uma visita que sucede às que fez à Espanha (cujo plano que levou foi recusado por Rajoy, que não gosta de troikas) e depois à Grécia. Para quê? Até agora ninguém explicou. Nada se sabe. Vem dar-nos mais dinheiro? A que juros e em que condições?

Os portugueses, desesperados, não ignoram a visita. Mas já se percebeu que o povo português não gosta da senhora Merkel nem a chanceler do nosso povo. Não haverá quaisquer contactos porque estará sempre rodeada de dezenas de seguranças, com navios de guerra no Tejo vigilantes e o céu sem aviões, mesmo de carreira, não vá o diabo tecê-las. Haverá polícias especializados e guardas-republicanos mobilizados e as ruas por onde passar estarão fechadas ao público. Há helicópteros a espiar a terra, o mar e o céu. Nunca nenhuma das muitas centenas de presidentes e primeiros-ministros que nos têm visitado, nos últimos anos, foram sujeitos a semelhante humilhação. Porque é de uma humilhação que se trata.

Porquê? Porque o Governo tem medo de comparecer, onde quer que seja, por causa das vaias e dos gritos de "gatunos" a que são sujeitos os ministros. Tem seguramente má consciência. Procura ignorar o desprezo do povo que agora voltou a tapar a estátua de Camões com panos negros, como foi feito quando do ultimato inglês, povo - repare-se - que há um ano e poucos meses o elegeu, em função das promessas que lhe fez e não cumpriu. Povo que na sua esmagadora maioria, hoje, odeia o Governo e só quer que se demita quanto antes.

É certo que o Governo devia, perante a desastrosa situação existente - nunca vista em tempo algum - ter a consciência e a honradez de se demitir. Até agora não teve. O silêncio é o seu forte. É por isso que a pobre senhora Merkel chega a Lisboa no pior momento. Não poderá ver mais do que uma nesga da cidade, sem expressão, dentro de um carro blindado, que percorre ruas desertas. E quando parar, no Forte de São Julião da Barra, no Palácio Presidencial e no Centro Cultural de Belém, onde estarão muitas dezenas de seguranças portuguesas e alemãs à sua volta, não verá à distância uma única família portuguesa para, de longe, lhe dizer um adeus. Que raio de democracia se tornou a nossa cujo Governo tem medo do povo!

Fala-se de que traz a promessa de nos dar algum dinheiro. Mas será que o Governo terá a coragem de dizer aos portugueses quanto nos custará a visita da senhora Merkel e dos seguranças que a envolvem? Quando cortam a tantos milhares de pensionistas idosos as pensões, que não são do Governo, visto as terem descontado imensos anos...?

3 OS MILITARES DESCERAM À RUA

Cerca de dez mil militares, de diferentes patentes, desceram no sábado passado à Baixa lisboeta, em silêncio, em defesa da sua dignidade de servidores da pátria e em protesto contra o mau tratamento que o atual Governo lhes tem dado. Foram membros da Associação dos Oficiais das Forças Armadas (AOFA), da Associação Nacional de Sargentos (ANS) e da Associação de Praças (AP).

Tratou-se de uma manifestação de profundo descontentamento das Forças Armadas, com um indiscutível significado político, que devia obrigar o atual Governo a refletir como a situação pode evoluir perigosa e rapidamente se o Governo continuar a não ouvir os militares e a não dialogar com eles. Que responsabilidade para o ministro da Defesa, se persistir em falar-lhes com sobranceria e sem responder às suas legítimas preocupações patrióticas e angústias pessoais...?

Aliás, não são só os militares que estão zangados com o Governo. Também estão, pelas mesmas razões, os polícias e os guardas-republicanos, que também têm vindo a manifestar-se, em enorme quantidade, com a mesma energia e descontentamento de todos os outros manifestantes: dos universitários aos funcionários públicos, dos autarcas aos médicos, dos farmacêuticos aos portuários, aos estivadores, aos desempregados, às mulheres e aos jovens...

E perante isto - que todos os dias nos impressiona e nos angustia -, o Governo mantém-se em silêncio, como se nada acontecesse, e o Presidente da República, infelizmente, também! Teremos todos de emigrar deste país, que tanto amamos, que se empobrece todos os dias? Como já estão a fazer os jovens, recém-licenciados das universidades que, por não terem emprego, não têm outro caminho senão emigrar, como lhes recomendou o primeiro-ministro?

4 CONFÚCIO E O FANTASMA DE MAO

O 18.º Congresso do Partido Comunista da China termina amanhã. Xi Jinping, de 59 anos, será nomeado, segundo é público na China, secretário-geral do partido, em substituição de Hu Jintao e ocupará, em 2013, o lugar de presidente da República.

A China, segunda maior potência económica mundial, encontra-se agora numa situação difícil, por causa das imensas desigualdades sociais e do mal-estar da população rural e da classe média, como tem transparecido, apesar do duro sistema de censura, que é uma das suas armas mais poderosas.

No Congresso, ao que parece, tem-se falado abertamente do perigo da grande corrupção vigente, a começar por conhecidos responsáveis políticos ligados ao aparelho partidário, além de haver, no interior do partido, uma grande vontade de se fazer reformas políticas.

Contudo, como se tem verificado desde a morte de Mao Tse-tung, a evolução tem sido sempre muito lenta e cuidadosa. Um exemplo é a grande barragem Three Georges, acionista recente da nossa EDP, que começou a ser construída há vinte anos, junto ao Yangtzé, o maior rio da Ásia e que, ao que parece, está agora a pôr em causa os ecossistemas da região e a criar grandes problemas: inundações, sismos e desabamentos de terras.

Vem isto a propósito da importância que hoje voltou a ter no pensamento chinês a doutrinação de Confúcio, com vista a cultivar a virtude das pessoas, como o supremo bem. No tempo em que Mao Tsetung reinou, após 1949, o maoismo subscreveu violentas campanhas contra a ideologia "burguesa, feudal e reacionária de Confúcio". Mas o pensamento de Confúcio, que nasceu há cerca de 2500 anos, quinhentos antes de Cristo, permaneceu no Japão, em Hong Kong, em Taiwan, no Vietname e até nas Filipinas. Não como religião - que nunca foi - mas como doutrina para conduzir as mulheres e os homens no caminho ético da virtude, que sempre foi a sua preocupação.

Contudo, Mao, a pouco e pouco, tem vindo a passar à história. Tornou-se uma espécie de fantasma, visto que os chineses voltaram a adotar Confúcio. Como dizia Camões, que andou pela Ásia, "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades"... O que anima os políticos, que forem honrados e inteligentes, é serem capazes de ver longe. E não o dia a dia, como tantas vezes acontece...

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