Grande Obama

Sempre tive uma grande admiração por Barack Obama, mesmo antes de ser eleito Presidente da República dos Estados Unidos da América. Segui com atenção a sua primeira campanha eleitoral para a Presidência. Lembro-me de que estava numa reunião comunitária, em Biarritz, com personalidades políticas e latino-americanas e, nos intervalos dos nossos trabalhos, discutíamos quem iria ganhar a Presidência americana. Eu era dos raros que apostavam na vitória de Barack Obama.

Que era impossível, diziam os meus interlocutores, um negro na Presidência dos Estados Unidos. Contudo, no Partido Democrata a generalidade dos votantes não são racistas e há milhares de latino-americanos e europeus, entre os quais portugueses e brasileiros, que vivem nos Estados Unidos e têm direito de voto. Ora não são racistas. Nem os muitos negros e mulatos americanos. Todos votaram, em geral, em Barack Obama.

Lembro-me do primeiro discurso que proferiu enquanto Presidente da República dos Estados Unidos que, como se costuma dizer, me "encheu as medidas".

Depois vieram as inúmeras críticas, praticamente todas, do lado republicano, esses, sim, são racistas, usurários e só veem os negócios e o dinheiro - e não as pessoas - e também da parte dos democratas desiludidos porque desejavam que tudo se fizesse ou aparecesse feito de um dia para o outro. E, claro, não foi possível, porque como se sabe, Roma e Pavia não se fizeram num dia.

Entretanto começou a crise financeira, com os bancos usurários como o Lehman Brothers e outros, e por detrás deles estavam os mercados insaciáveis com um projeto para o mundo (como agora se percebe), que atacaram em força a economia americana que Barack Obama teve de enfrentar e resolver.

Veja-se que foi a crise financeira americana que contagiou a zona euro e não só. Uma crise gravíssima em que hoje nos encontramos, por enquanto sem saída à vista. Porque, como disse o Papa Francisco, a austeridade (imposta pela chanceler Merkel) mata. É verdade. E, como disse o grande político e pensador Helmut Schmidt, ainda vivo, felizmente, ou a Europa muda de política e põe os mercados na ordem, ou caímos no abismo...

E aqui voltamos a Barack Obama. Porquê? Porque ele sabe que os únicos amigos e aliados fiéis que os Estados Unidos têm em todo o mundo são os europeus. Quanto mais não fosse por isso, não os pode deixar cair. É, aliás, a última esperança que nos resta para não cairmos no abismo sem que haja uma revolução difícil de controlar ou, pior ainda, uma guerra.

O discurso que recentemente proferiu sobre o estado da União foi categórico e não deixa quaisquer dúvidas. Barack Obama é um humanista e um pacifista, um pensador e um homem de ação. Deplora que haja tantas desigualdades e preocupa-se por excelência com as pessoas e não com os mercados. E, acima de tudo, com os mais pobres, com a classe média e com os problemas do ambiente, tão graves na atualidade. Nesse aspeto, apesar de protestante, tem muitas afinidades com o Papa Francisco, que visitará brevemente.

Tenho escrito neste mesmo jornal sobre a importante convergência que existe entre estes dois homens, que, cada um de per si, querem mudar o mundo para melhor, hoje em tão perigosa e difícil situação. Cada um à sua maneira, como é óbvio. Os dois dão-nos esperança de um futuro melhor, em que as pessoas sejam mais importantes do que o dinheiro e os mercados se submetam à política e não o contrário.

Voltando ao discurso do estado da União, que li na versão espanhola e que tem a bagatela de 33 páginas datilografadas e repletas. É, portanto, um discurso denso e que toca em muitos aspetos da situação americana, da China, do Médio Oriente, da Europa (ligeiramente), de África, do Afeganistão, do Irão e nos problemas ambientais. Mas curiosamente é quase omisso quanto à América Latina e a Cuba, em especial, depois da conversa que com o Presidente de Cuba, Raul Castro, na África do Sul, quando do funeral de Nelson Mandela. Permitam-me os leitores que lhes dê alguns tópicos do discurso de Barack Obama. A crise na América terminou. A China já não é, como foi, o número um do mundo para investir. Voltaram a ser os Estados Unidos.

Mas, diz Obama, a crise financeira foi vencida. Por isso, o mais importante agora é acelerar o crescimento, fortalecer a classe média e construir para todos os seus membros novas oportunidades. Portanto, "O que se oferece hoje é acelerar o crescimento para as famílias que vivem em más condições nos Estados Unidos."

Ajudar os pequenos e médios empresários é, para ele, uma prioridade, visto que "noventa por cento dos nossos exportadores são pequenas empresas. Quem hoje mais apostar nas inovações será amanhã o dono da economia mundial", diz Obama.

Dar atenção às mudanças climáticas é uma necessidade urgente. E evitar o que está mal. Criar novos postos de trabalho é importantíssimo.

Prioridade para a educação. As escolas e as universidades, de modo a que mulheres e crianças não possam ser excluídas por razões económicas. E ajudar os mais jovens de cor, em situação de desvantagem.

A igualdade entre mulheres e homens, quando fazem trabalhos idênticos, deve ser a regra. E a proteção quando têm filhos para os poderem criar sem perder o emprego também; "oferecer salários mais altos é uma maneira inteligente de impulsionar a produtividade e reduzir a rotação de pessoal. É o momento imperioso de reduzir as desigualdades e de ajudar as famílias". Palavras de Obama.

"Desejar um Afeganistão unificado e se o acordo de segurança que foi feito com os Estados Unidos funcionar, poderemos retirar em breve muitos dos nossos soldados."

"É preciso combater seriamente a nova onda terrorista da Al-Qaeda. Contra o extremismo temos de ajudar, com o apoio dos nossos aliados, o Iémen, a Somália, o Iraque e o Mali. Bem como a Síria."

E ainda, "com o fim da guerra do Afeganistão, esta é a ocasião indicada para fechar a prisão de Guantánamo". Uma grande notícia. A nova diplomacia dos Estados Unidos, cujo secretário de Estado é um extraordinário político e diplomata, ex-candidato (frustrado) a Presidente, John Kerry, que sob a orientação de Obama, claro, foi quem negociou a paz e o bom relacionamento entre os Estados Unidos e o Irão, baseado na eliminação da bomba atómica. Um acordo, que ainda não está fechado, de extrema importância para a paz em todo o Médio Oriente.

Quanto à Europa, Obama considera que "a coligação entre a América e a Europa é a mais forte de todas na história". Daí que eu repita que Obama tenha de ajudar a zona euro, em especial, a não cair no abismo em que sem a sua ajuda inevitavelmente cairia.

E termina, falando da História americana e da necessidade de hoje "promover a justiça, a equidade e a igualdade perante e lei".

Foi um discurso histórico, sobre o qual devemos refletir.

POBRE COMUNICAÇÃO SOCIAL

O Governo, escandalosamente, proclama que a mudança está à vista e que tudo vai melhor. Apesar do empobrecimento cada vez maior da esmagadora maioria dos portugueses, e de ter arruinado milhares de funcionários públicos e trabalhadores a quem cortou implacavelmente as pensões. E farão pior se ganharem as eleições. Mas nos ricos não mexeram. Estão cada vez mais ricos. Nem nas despesas megalómanas dos membros do Governo e dos seus múltiplos assessores e amigos. Seria importante saber-se quanto o Governo gastou até hoje. Mas a isso fazem ouvidos de mercador.

Este Governo arruinou Portugal vendendo por qualquer preço - não se sabe qual - o nosso património. O que resta do Estado social está a ser cada dia destruído e a desigualdade entre os portugueses cresce cada vez mais.

Agora foi o momento apropriado - segundo as vagas notícias que nos chegaram - para governamentalizar a comunicação social, a começar pela RTP. Foi um trabalho que teve início com o falso académico Relvas, interrompido durante um tempo e que o Governo agora quer tornar totalmente seu. Apesar de o vice--primeiro-ministro ter sido jornalista. Mas certamente já não se lembra. Bem tenho dito que a democracia está aos poucos a desaparecer, embora os governantes nunca deixem de falar em democracia. Para enganar as pessoas, claro...

Há bastante tempo percebi que alguns jornalistas estavam a ser comprados pelo Governo, direta ou indiretamente. Simplesmente mudaram de ideologia e de sentido para agradar a quem lhes pagava. Felizmente há ainda exceções. Honra lhes seja. Mas os jornalistas dos jornais, das revistas e das rádios e televisões têm uma terrível dificuldade. Para agradar a quem lhes paga, dizem o que muitas pessoas não querem ler, ouvir ou ver. E se o não fazem correm o risco de ser despedidos.

A RTP vai ser governamentalizada. Claro que vai perder as poucas audiências que lhe restam. Torna-se um despesismo inútil do Governo. Mais um.

Assim vai este pobre País, nada eufórico, como quer fazer crer o Governo aos portugueses. Como se fossem estúpidos. Não são!

O TUA DE NOVO EM QUESTÃO

Tive o prazer de conversar recentemente com o académico e militante das questões ambientais Joanaz de Melo. Fizemos uma "Presidência Aberta sobre o ambiente" - onde isso vai - e, desde então, ficámos amigos. Veio alertar-me mais uma vez para o Tua e a destruição iminente do vale do Tua, um dos últimos rios da Europa em estado natural e um dos mais belos de Portugal.

Tem isso que ver, mais uma vez, com a tentativa de construir uma barragem que não faz sentido, segundo ele, porque, na melhor das hipóteses, contribuiria apenas com 0,1% da energia do País.

A criação da barragem serve sempre, do ponto de vista monetário, aqueles que a constroem. E de que maneira. Tem sido sempre um excelente negócio a favor das grandes construtoras e da banca.

Os ecologistas estão a organizar-se através de um manifesto intitulado Vamos Salvar o Tua. Em favor do turismo e da linha ferroviária centenária do Tua, que, como se sabe, desagua no Douro, com a consequente destruição dos solos agrícolas e habitats ribeirinhos raros, pondo em risco espécies ameaçadas e protegidas.

Triste País, em que hoje tudo o que interessa ao Governo são os negócios, vendendo o património e destruindo as nossas belas paisagens.

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