Urbano ou o Anti-Busto

O tema da bondade dos escritores, encarado nos aspectos positivos e negativos dessa virtude moral, achará porventura na personalidade de Urbano Tavares Rodrigues várias facetas exemplificativas. Generoso como raros, quando solicitado por qualquer bicho-careta, e inclusive pelo subscritor desta crónica, para lhe apresentar o livro, ou lhe redigir o prefácio, Urbano só muito dificilmente se esquivava. Paga-se bastante caro, importa declará-lo aqui, tão larga disponibilidade, mas o autor de Bastardos do Sol não parecia apoquentar-se demasiado com isso. No entanto, o homem que assim se dava constituía uma verdadeira celebridade, logo nos inícios da sua carreira literária, e se nem toda a gente o lia, muitíssimos sabiam de quem se tratava. Nos anos sessenta, a sua obra ficcional vendia-se, se bem que apenas nas livrarias, como hoje se vendem os artigos de supermercado, ou de estação de serviço, o que conformava um daqueles casos excepcionais de coincidência do talento artístico e do sucesso comercial. Nas praias portuguesas, e nos meses de férias, tornava-se portanto comum vislumbrar um título de Urbano Tavares Rodrigues junto à toalha de banho, ou aos óculos escuros. Traduzido em várias línguas, eis que representava ele por outro lado o escritor que mais exportávamos entre os da nova geração.

Infiel nos amores por incapaz de resistir ao odor femina, sempre que trazido pela brisa soprada das bandas de alguma tentadora descendente de Eva, Urbano revelava-se lealíssimo nas amizades. Não perdoava porém a patifaria, nem a duplicidade, e apesar de aparentemente franzino, e idêntico a "um vime" como o caracterizavam os Aquilinos Ribeiro, pai e filho, ou "um bocadinho afadistado" como o consideravam as mulheres que ele deixava na prateleira, cobrava resolutamente desforço das partidas que lhe pregavam. Diversos seriam, por conseguinte, os que, ora das letras ora de fora delas, lhe experimentariam a solidez dos punhos, quando menos se precatavam. Desancava sem dó nem piedade em quem o desfeiteasse, e um dia confessar-me-ia o seu receio de vir a converter-se em vítima de um assalto de rua, isto porque o seu instinto o obrigava a ripostar de imediato, e na indiferença à robustez física do adversário.

Mas custava-lhe enormemente desvalorizar aquilo que os candidatos a escribas lhe punham nas mãos para que conhecesse, ou para que apadrinhasse, e até quando a escassez de qualidade de semelhantes peças se mostrava mais do que evidente. A alguém de um canal televisivo que lhe pedia a opinião sobre o trabalho de uma novelista medíocre, mas best-seller, escusar-se-ia ele com este rodeio, "Bem, o que posso dizer-lhe é que estamos "talvez" perante uma escrita... "frívola""! Ninguém lhe assacaria pois a excessiva severidade, ou o desamor ostensivo, e quem quer que lhe enviasse um volumezinho via-se saudado com no mínimo um abraço afectuoso.

Se eu tivesse de escolher um traço caractereológico de excelência, e acima da magnanimidade com que se oferecia a quem dele necessitava, apontar-lhe-ia sem dúvida a vocação conciliadora, tão invulgar nos mundos literário e político. Consciente da sua ortodoxia, mas apenas até ao possível, assisti amiúde, e com sincera comoção, ao esforço que colocava em estabelecer a harmonia entre os diktats do partido em que entusiasticamente militava e tudo quanto, não obtendo embora o aval do mesmo, se lhe afigurava humanamente legítimo. Aí não se afastaria o narrador de As Aves da Madrugada de um moderno Erasmo de Roterdão, inimigo de facciosismos, e tenaz sonhador com os valores da paz.

Num país onde os que se propõem a busto proliferam, e onde quanto menor a exigência, maior a presunção, Urbano Tavares Rodrigues, camarada como poucos, e sobretudo como pouquíssimos dos grandes, possuía uma alma, ou um coração, sem pose, sem arrogância e sem medo. Não diferiria muito, e entenda-se isto como um elogio, de um viril ramalhete de estevas e papoulas, colhido na charneca do seu Alentejo visceral.

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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