Uma romancista na revolução

Se fosse viva, Olga Gonçalves contaria hoje 86 anos, e representa um nome que se torna justo, e quase urgente, resgatar do límbico apagamento em que vão caindo alguns, e não raro entre os cronologicamente mais próximos de nós.

Na sequência da Revolução dos Cravos emergiria ela como testemunha privilegiada do Portugal de então, recolhendo a voz dos que iam vivendo os acontecimentos, e ostentando a respectiva experiência com verosimilhança exemplar. Vários estratos da nossa população rever-se-iam portanto sem dificuldade nos monólogos semi-interiores que Olga escrevia, captados por um ouvido alerta e tacitamente solidário.

Nascida em Luanda, mandaram-na em menina para a mãe-pátria, onde haveria de receber a aprimorada educação das Irmãs Doroteias, e frequentaria depois o King"s College, e o Queen Elizabeth College, da Universidade de Londres, onde ganharia mundo, o que se expressava num britanismo de hábitos domésticos, praticados aliás sem qualquer nota de exibição. Casando "bem" segundo as tabelas utilitaristas, mas "mal" nos termos do catecismo dos afectos, Olga Gonçalves acabaria por abraçar o trabalho literário, leccionando em simultâneo a língua inglesa em cursos formativos numas quantas empresas da capital. O interesse na parapsicologia e nas disciplinas afins conferir-lhe-ia um toque de excentricidade que não destoava da sua condição de emancipada da época, solitária portanto, mas livre e alodial.

Não há que esconder, talvez por efeito das origens africanas de escritora, não faltaria quem detectasse na sua atitude uma tentação de alpinismo social, a acrescer ao esquerdismo elitista. O apartamento onde morava nas cercanias da Praça de Espanha, decorado a um gosto algo vieille dame, reposteiros de seda, credências Império, e porcelanas Meissen, denotava de facto uma certa ambiguidade, se se considerar que presidia a tal cenário o famoso retrato da ceifeira rebelde, desenhado por Manuel Ribeiro de Pavia. Mas Olga possuía o inato prazer de colocar os amigos em contacto mútuo, o que demonstrava uma natureza imune ao ciúme, e a vontade de retirar de cada um o melhor que a pessoa de cada um pudesse oferecer.

Assim se defenderia ela da acusação dos mal-intencionados que juravam tê-la avistado no Inverno sucessor ao Verão quente, de punho erguido, e a cantar A Internacional, mas envergando um soberbo casaco de vison. Não menos precioso se mostraria o convívio que facultava aos que lhe eram mais chegados, e recordo-me de dialogar em casa dela com gente curiosa, e não só portuguesa, como os americanos Gabriel Jackson e Rowland Fullilove. O primeiro, ilustre professor da Universidade de San Diego e especialista na História Espanhola Contemporânea, andava apaixonado pela nossa anfitriã que o rejeitava por ele usar boina e se sentar no chão. Quanto a Rowland Fullilove, psiquiatra da Carolina do Norte, era íntimo de Tennessee Williams, e de Gore Vidal, e fora médico da extraordinária Carson McCullers. Não digo que não existisse em Olga Gonçalves uma paradoxal mestiçagem de autenticidade democrática e selectivismo de bonne compagnie. Mas de facto tudo se lhe perdoava, tratando-se como se tratava de alguém sinceramente comovido com a fragilidade humana, transversal a todas as classes, e que abria a sua cozinha, também comme il faut, aos que lhe frequentavam a residência, e enquanto confeccionava um bacalhau à Brás como nunca eu saborearia igual.

Viajei com a autora de A Floresta em Bremerhaven dentro e fora do país, e atravessámos juntos momentos divertidíssimos, posto que não limpos desses temporários amuos, tão vulgares entre os criativos. Trocámos uma vasta correspondência de cumplicidades e segredos, a qual por isso hesito em entregar ao centro de documentação que alberga o meu arquivo. E de forma muito mais profunda continuámos a cavaquear nas paisagens da memória, partida já a querida ficcionista, e com parco enquadramento afectivo, do lar de idosos dos arredores de Lisboa.

Pergunto-me agora se deverá esquecer-se quem como esta mulher acompanhou, quer pela escuta, quer pelo texto que daí resultava, o período de agravos e desagravos, de doçuras e azedumes, que marcou o nosso destino recente, e cuja lembrança progressivamente se rasura nos traços do rosto que lhe correspondem. Cumpro pois o ofício de guardião, assumido nas crónicas presentes, evocando o título de um dos livros de Olga, Mandei-lhe uma Boca, que só por si resume o que fica nestas linhas.

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