Uma Luz Intemporal

Parece-me oportuno interromper hoje a procissão dos detentores da pena, e trazer ao nosso convívio um desses artistas, chamados "plásticos", que uns quantos afirmam em vias de extinção. Júlio Resende, pintor que duas gerações reputaram de um dos maiores de Portugal, representou ao longo de várias décadas exemplo do diálogo das artes visuais com a escrita literária, fenómeno que se extinguiria com o pequeno tsunami, desembestado por happenings e instalações, e com a radicação nas suas trincheiras urbanas, da poesia que a si própria se explica. A narratividade de Resende apenas se compaginaria, mas tarde demais, com o "regresso ao relato", ilustrado pelo pós-modernismo.

Assumindo-se com coragem na tradição, Júlio Resende teimaria em associar a obra aos locais, o que evidentemente não significava alimentar-se destes, fossem eles Paris, o Alentejo, a Baía, a África Ocidental, ou o Porto, cidade onde nascera e vivia. Uma atitude assim conferir-lhe-ia coerência e veracidade, enriquecidas por um alerta às novas propostas, estimulado pelo contacto com alunos e amigos. O seu atelier doméstico da margem do Douro franqueava-se a quantos gostavam de estar com ele, uma vez concluída a sua jornada de trabalho, iniciada às quatro ou cinco da madrugada. Conversava connosco num tranquilizante murmúrio, sublinhado pelo sorriso desprovido da menor unção de santarrice, e capaz de partilhar com igual naturalidade momentos de reflexão, e de humor.

A sua recorrente confidência, de que celebrava em suma uma alegria sentida, quer a que decorria do gozo do conforto da sua casa, quer a que lhe sobrevinha da observação da banca de uma vendedeira de fruta, transformava-o num caso de positividade. E situando-se nos antípodas dos vanguardistas de má digestão, gente inodora, insípida e incolor, que decretava sem apelo, nem agravo, o "fim da pintura", cataclismo que um certo grupo, mas oito décadas antes, havia estatuído já, Resende seguia adiante. Indiferente aos que voltavam a cristalizar no emblemático urinol de Duchamp, e que por isso desterravam o nosso pintor para o sótão onde se cobriam de teias as naturezas-mortas, da autoria de uma tia-bisavó com muitíssimo jeito, ei-lo que calcorreava o seu caminho sem se preocupar com os dictats dos emergentes.

Um dia confessei-lhe que jamais conseguiria deixar de o tratar por "mestre", isto porque exercia ele sobre mim uma pedagogia sem aulas, e que portanto nada tinha a ver com a sua qualidade de professor da Escola Superior de Belas Artes. Trocávamos impressões até à noitinha, mas só antes de surgir uma dessas fatais eminências pardas, fiscalizadoras dos insignes anciãos que lhes caem na rede, e saía sempre de alma cheia, e em paz comigo mesmo. Aprendia através dele a admirar a grandeza destituída de poses, de arroubos, e de angústias existenciais, mas também compreendia que, se tudo isto o fixava aos olhos de alguns no quadro dos "instalados", oferecia a outros a frequência de uma espécie de monge zen que nos dispensava da travessia do território das neuroses, e das ressacas, pretensamente criativas.

Quando passo agora pelo painel da Ribeira Negra, apontado aos turistas como anotação do espírito do lugar, pergunto o que verão eles, ao captarem-no como fundo da selfie proverbial. Desapareceram os mercadores de tenda, as barcaças de vinho e carvão, e os catraios que mergulhavam na água ensaboada das lavadeiras das Escadas da Rainha. Quanto ao galo de Barcelos, imperando ad eternum nas lojecas que chuleiam os forasteiros, espera-se bem que não se agigante ele por ali, mais impositivo do que os azulejos do Mestre, todo em filigrana fingida, e assinado pela europeia que jurou levá-lo à Galeria dos Espelhos, do Palácio do Louvre.